Lições da Horda de Ouro

Imagem do príncipe Dmítri Donskoi durante a Batalha de Kulikovo, extraída de um manuscrito de 1560 Foto: Rudolf Kutcherov / RIA Nóvosti

Imagem do príncipe Dmítri Donskoi durante a Batalha de Kulikovo, extraída de um manuscrito de 1560 Foto: Rudolf Kutcherov / RIA Nóvosti

Vassalos do Império Mongol dois séculos atrás, os russos aprenderam com seus conquistadores, estudando cuidadosamente as suas táticas militares. Com o tempo, tornaram-se suficientemente fortes e começaram a usar o que tinham absorvido para conquistar vitória após vitória contra seus antigos senhores, em um movimento que acabou abrindo caminho para a formação do Estado russo.

Fundado por Genghis Khan, o exército do Império Mongol emergiu como uma das máquinas militares mais modernas da história. Organização precisa, disciplina de ferro, táticas refinadas e um poderoso armamento transformaram os nômades mongóis em uma ameaça mortal para os povos da Ásia e da Europa.

Verdadeiros pioneiros da arte da guerra, os mongóis construíam fortalezas com artilharia 100 anos antes dos europeus. Mesmo na ausência de linhas de comunicação e de abastecimento, eles conseguiam rapidamente mobilizar e equipar grandes tropas, movimentar-se por milhares de quilômetros e atacar aparentemente do nada. Essas crias da estepe também dominavam a construção de navios de guerra, e sua frota chegou perto de conquistar o Japão no final do século 13.

Deixando o Império Chinês de joelhos, a Horda de Ouro invadiu a Ásia Central para tomar a Transcaucásia e antiga Rus, estendendo seu poderio até o mar Adriático.

De todos os povos dominados pelas hordas mongóis, os russos provaram ser os mais capazes de adotar a tática dos invasores, enquanto aprendiam amargas lições com seus próprios erros e perdas em batalha.

Em 1223, o líder mongol Genghis Khan simulou um recuo para enganar e destruir os exércitos dos príncipes da Rus no rio Kalka, atual região ucraniana de Donetsk. Quinze anos depois, a cavalaria de Batu Khan cercou e aniquilou as forças russas no rio Sit, na atual Iaroslavl. Em 1377, os mongóis também usaram suas superiores habilidades de reconhecimento para dar uma lição no inimigo e destruir as unidades russas no rio Piana, atual região de Nijni Novgorod.

Virando o jogo

Para resistir ao ataque mongol, os russos tinham que dominar os mesmos movimentos de reconhecimento, táticas de combate de cavalaria e disposição de emboscadas. A partir do século 14 em diante, os mongóis também começaram a sofrer algumas derrotas já que os príncipes moscovitas tinham decidido virar o jogo.

Na batalha do rio Voja, atual região de Riazan, o exército de Dmítri Donskoi adotou uma formação de arco mongol e atraiu o inimigo em um “movimento de pinça” antes de destruí-lo. Em 1380, as forças mongóis sofreram sua pior derrota na batalha de Kulikovo, encurralados novamente por suas próprias táticas.

Mas os mongóis não apenas ensinaram os russos a lutar. Ao longo dos séculos, eles passaram a formar unidades diferentes do Exército russo. A irregular cavalaria tártara incorporou as tradições de luta dos cavaleiros de Genghis Khan e semeou o terror entre os inimigos europeus do tsar.

Durante a Guerra da Livônia, no século 16, os comandantes de Ivan, o Terrível ganharam muitas batalhas contra as forças suecas, alemãs e polonesas, usando ataques rápidos e cargas de cavalaria.

No século 18, Piotr, o Grande reorganizou o Exército russo ao longo das fileiras europeias, mas preferiu não se aventurar na cavalaria ligeira, um recurso vital que nasceu da tradição militar do Oriente.

Os cavaleiros tártaros evoluíram como forças de choque montadas sobre animais, que mais tarde se tornou característica básica da maioria dos exércitos europeus antes do século 20. Cavaleiros armados com lanças longas foram inestimáveis ​​no combate montado a cavalo, capazes de derrubar o adversário com a lança a todo galope e acabar com eles com um sabre.

Exército renovado

O tsar tinha bons motivos para admirar as qualidades de luta dos nômades e, assim, os primeiros regimentos com lanças russos foram formados com cavaleiros tártaros das estepes do mar Negro. Na Batalha de Poltava, em 1709, contra o até então invencível Exército sueco, a cavalaria calmuca do Baixo Volga repeliu um ataque poderoso por tropas de infantaria regular e, em seguida, contra-atacou esmagando o flanco inimigo.

Os cossacos do Don também adotaram e refinaram técnicas de combate dos tártaros, enquanto viviam lado a lado deles. O Exército de Napoleão conheceu em primeira mão as habilidades de luta do povo das estepes durante a invasão à Rússia em 1812.

Assim como os mongóis haviam conseguido desgastar, atrair e cercar as forças russas, os cossacos criaram um pesadelo para os franceses com seus ataques relâmpagos e destruição de comboios de abastecimento. Quanto ao papel desempenhado pelo grupo na derrota de seu exército, o próprio imperador francês teria supostamente dito: “Se eu tivesse apenas 10.000 cossacos, teria conquistado o mundo inteiro”.

Simbologia das armas

Além das táticas, a aparência física do guerreiro russo e suas armas também tinham uma semelhança notável com a dos mongóis até as reformas militares de Piotr, o Grande. Os primeiros sabres foram levados para a Rússia no século 10, mas o seu uso só foi disseminado após a invasão mongol.

O sabre era a arma perfeita para o cavaleiro a cavalo, leve e fácil de manejar e boa para golpes de revés tanto em inimigos montados, como aqueles no chão. Por volta do século 15, o sabre tinha suplantado quase que por completo a espada tradicional na Rússia.

O arco também se tornou uma das armas indispensáveis ​​do soldado russo. A Rússia foi o único país europeu a utilizar amplamente o saadak, o armamento clássico do arqueiro montado a cavalo.

O saadak não era apenas uma arma, mas também servia como símbolo de status na Rússia, a exemplo da cultura mongol. Todos os tsares russos antes de Piotr, o Grande eram conhecidos por ter um saadak especialmente decorado entre os seus melhores pertences.

Apesar de a cavalaria ter se perdido nos anais da história, uma tradição militar mongol floresce até hoje na Rússia e no mundo: o grito de “Urra”,  a partir da raiz mongol “ur”, que significa “bater”, e ainda ecoa pelos séculos desde os brados trovejantes dos cavaleiros de Genghis Khan.

 

Aleksandr Verchínin é doutor em Ciências Históricas e pesquisador sênior do Centro de Análise de Problemas.

 

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