Maior, mais rápido e vai mais longe

Mi-30 era superior em velocidade e alcance, mas suas especificações mudaram constantemente nos anos seguintes, a pedido dos militares Foto: Wikipedia.org

Mi-30 era superior em velocidade e alcance, mas suas especificações mudaram constantemente nos anos seguintes, a pedido dos militares Foto: Wikipedia.org

Uma aeronave extremamente versátil que requer apenas um espaço plano para pouso e pode transportar cargas por longas distâncias, o tiltrotor parecia ser feito para a Rússia. No entanto, apesar de décadas de desenvolvimento em vários projetos, o país ainda não encontrou um rival para o americano V-22 Osprey.

O único tiltrotor usado amplamente pelo mundo, o americano V-22 Osprey, é usado tanto para combater insurgentes no Afeganistão, como para transporte de políticos americanos em território nacional. Vez ou outra, há tentativa de sabotar o seu programa de desenvolvimento, que já custou US$ 20 bilhões no total e US$ 120 milhões para cada um dos 160 aviões produzidos até agora.

 

O tiltrotor é uma aeronave com pás giratórias do rotor que trabalham na vertical durante a decolagem , em seguida, como hélices durante o voo horizontal no modo de asa fixa.

Mas o Osprey não é assim tão fácil de derrubar. As empresas de aviação Boeing e a Bell ainda estão brigando pelo seu espaço, apoiadas nas sólidas especificações técnicas da aeronave (o dobro da velocidade de um helicóptero, três vezes a capacidade de carga e cinco vezes o intervalo), que tem 25 anos de trabalho de engenharia por trás e soma 30 vidas perdidas em acidentes ao longo do caminho.

Um avião com decolagem e pouso vertical, como um helicóptero, que necessita apenas de uma superfície plana para operar, mas capaz de transportar carga em alta velocidade por longas distâncias, como um avião de asa fixa. É a verdadeira máquina dos sonhos para a Rússia, com seu vasto território, população escarça, áreas remotas no norte e falta de uma rede desenvolvida de aeroportos – em muitos lugares, inclusive, há a impossibilidade de construí-los.

Tal aeronave existe, não na Rússia, mas no inventário da Marinha dos Estados Unidos. Mas como o conceito do único tiltrotor nasceu e por que a Força Aérea Russa não obtém a sua própria versão do americano V-22, que acabou sendo construído também pela Bell e Boeing?

Paraquedistas do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA em queda livre de um Osprey MV-22 Foto: Wikipedia.org

Logo após o voo inaugural do Osprey, em 1989, ele foi desafiado pelo rival soviético Mi-30. Mas os engenheiros e especialistas militares que trabalhavam no projeto havia muito mais tempo do que seus colegas norte-americanos estavam fadados ao insucesso.

O primeiro tiltrotor do mundo foi elaborado em 1936 pelo engenheiro soviético Fiódor Kurochkin. Sua aeronave tinha asa móvel e hélices gêmeas montadas em naceles (estrutura para fixar o motor), na mesma configuração do protótipo do V-22 e do seu equivalente civil AW609.

A próxima tentativa de montar um tiltrotor aconteceu em 1946, com o projeto do caça de alta velocidade VSI, de Aleksandr Scherbakov. Esse monoplano tinha uma cauda levantada e asa fixa com dois motores que podiam girar verticalmente em um ângulo de 120 graus.

Suas características de design eram impressionantes, apresentando um peso máximo de voo de 5.000 kg, velocidade máxima de 1.500 km /h e alcance de 1.000 km. Porém, ao contrário do modelo pré-guerra, o protótipo construído em 1948 passou por bancada de teste antes de o VSI ser arquivado devido à sua complexidade.

Recordista de asa rotativa

A década de 1950 presenciou o aumento da produção de aeronaves com rotores de helicópteros e motores de posição fixa da hélice. O avião britânico Rotodyne, produzido pela Fairey, até bateu um recorde mundial de voo ao atingir velocidade de 307,2 km/h, superando a agilidade do melhor helicóptero da época em 80 km/h.

Mas o recorde logo foi desbancado com a fabricação do Soviete Ka-22, construído para o transporte de mísseis balísticos táticos e que podia chegar a 356,3 km/h.

Modelo Soviete Ka-22 Foto: Avia-mir.ru

Essa aeronave de hélice parafuso tinha fuselagem do avião Lisunov Li-2, com motor de hélice e combinação de lâmina giratória em cada uma das pontas das asas. Possuía também um sistema complexo de transmissão que controlava ambos os rotores e era operado manualmente pelo piloto. Isso tornava a aeronave extremamente difícil de voar – três das quatro equipes de teste morreram.

O projeto foi abandonado e a tarefa de transportar mísseis foi atribuída ao tradicional helicóptero Mi-6. No entanto, antes de o Ka-22 se tornar uma peça de museu, esse avião estabeleceu um recorde de velocidade, além de outro de carga, ainda invicto, levantando 16,4 toneladas a uma altitude de mais de 2.000 metros.

Osprey russo

Os trabalhos do modelo clássico de tiltrotor com hélices gêmeas e combinações de rotor começaram na União Soviética em 1972, quando o escritório Mil Design procurava um substituto para o helicóptero Mi-8.

O novo Mi-30 era superior em velocidade e alcance, mas suas especificações mudaram constantemente nos anos seguintes, a pedido dos militares. Sua carga de 2 toneladas e 19 soldados aumentou para 3,5 toneladas e 32 soldados, além do aumento de velocidade de voo 500-600 km/h em uma faixa de 800 km.

Esse aumento da potência do motor e tamanho das pás do rotor empurraram o peso total da aeronave de 10 para 30 toneladas.

Todo o trabalho aerodinâmico foi concluído no início de 1980, e o Mi-30 acabou incluído no programa de armamento do Estado entre 1986 e 1995. Entretanto, o colapso da União Soviética fez com que o Mi-30 não passasse do papel.

Como 60% do território da Rússia continua sendo inacessível a aeronaves convencionais, o tiltrotor teria hoje amplo uso civil, bem como militar. Também poderia ser efetivamente usado para desenvolver as plataformas do Ártico e do Pacífico.

A Rússia é um atual membro associado do programa europeu para desenvolver uma nova aeronave tiltrotor civil em substituição ao AW609. Enquanto isso, o país voltou a trabalhar em sua próprio modelo com hélice parafuso.

 

Aleksandr Korolkov é doutor em Ciências Históricas.

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