O canhão que abriu fogo rumo a Berlim

Revolução de 1917 e o fim repentino da Primeira Guerra Mundial para a Rússia tornou essas armas pesadas desnecessárias Foto: arquivo

Revolução de 1917 e o fim repentino da Primeira Guerra Mundial para a Rússia tornou essas armas pesadas desnecessárias Foto: arquivo

O gigante Canhão do Tsar em exposição no Kremlin de Moscou é símbolo da capital russa há muito tempo. Sempre que os guias turísticos contam aos visitantes sobre sua história, eles ressaltam que a arma nunca disparou um tiro sequer. No entanto, poucas pessoas sabem que o lendário canhão foi o protótipo de uma geração notável de armas que não só entrou em serviço de combate, mas também garantiu seu lugar como os exemplares mais poderosos de seu tempo.

A ideia de criar uma arma terrestre de alta potência foi primeiramente lançada nos círculos militares, em 1915, no auge da Primeira Guerra Mundial, quando o Exército russo sofreu uma sucessão de derrotas contra as forças alemãs.

Essas derrotas no campo de batalha se deviam principalmente a graves lacunas nos arsenais de artilharia da Rússia e na artilharia pesada em particular, enquanto os alemães eram capazes de usar armas de última geração para esmagar uma divisão russa após a outra. O Exército russo precisava urgentemente de poder de fogo capaz de infligir perdas iguais sobre o inimigo.

As armas mais poderosas eram tradicionalmente utilizadas pela Marinha russa, já que os navios proporcionavam uma plataforma conveniente para artilharia pesada. No verão de 1915, oito obuseiros 305 milímetros tinham sido produzidos para a Marinha. Mas por causa da situação difícil no fronte, ficou decidido que quatro deles seriam destinados para as forças de campo do Exército. Os monstros de 64 toneladas podiam ser transferidos entre as localizações por transporte ferroviário, sem qualquer efeito negativo para sua eficácia. O poder devastador dessa arma foi demonstrado logo nos primeiros testes, em que bombas incendiárias, pesando quase 400 kg, provaram ser capazes de perfurar qualquer fortificação reforçada de concreto. Além disso, disparar uma arma de 305 milímetros gerava tal pressão de gases que uma salva  toda criava um vácuo em um raio de vários metros, sugando itens soltos no caminho, como se fosse um redemoinho.

As armas de 305 milímetros chegaram ao fronte no verão de 1916 e tiveram seus primeiros disparos em um momento de ira em 19 de junho. Um ataque direto a um abrigo alemão literalmente o jogou a metros no ar criando uma coluna de terra e detritos.

Naquele inverno, uma divisão das armas também entrou em ação perto de Riga, transformando as posições de tiro e ninhos de metralhadora dos alemães em crateras enormes com alguns bons disparos. A infantaria russa não encontrou resistência ao tomar controle das posições inimigas que tinham sido construídas ao longo de 18 meses.

A Revolução de 1917 e o fim repentino da Primeira Guerra Mundial para a Rússia tornou essas armas pesadas desnecessárias. No entanto, as 30 armas retidas pelo Exército Vermelho serviram de base do projeto das armas soviética de 305 milímetros, que foram mais tarde instaladas em fortalezas e bases de defesa da Marinha.

Sua força foi mostrada sobre as forças de Hitler em setembro de 1941, quando as barragens de oito armas 305 milímetros interromperam o ataque alemão a Sevastopol. Disparando de uma margem de 44 km, a bateria permanecia imune a qualquer disparo do inimigo. As armas foram igualmente usadas para defender posições em torno de Leningrado, que nunca foi dominada pela forças alemãs.

Os velhos canhões do tsar foram agrupados em cinco divisões com poder de fogo especial e enviados para a frente de batalha em 1944. Seu momento de glória aconteceu durante a ofensiva soviética na Karélia, Bielorrússia e Polônia, onde as defesas inimigas estavam concentradas em uma série de linhas reforçadas e cidades-fortalezas.

Uma divisão armada montada em apoio de tanques e forças navais bastou para romper a zona fortificada finlandesa ao longo da Linha Mannerheim, que o Exército soviético tinha atacado com grandes perdas durante vários meses no inverno de 1939 e 1940.

O poder das armas russas de 305 milímetros também foi sentido por posições alemãs no rio Oder, que o comando nazista tinha calculado ser suficiente para verificar o avanço soviético. Em abril de 1945, as armas pesadas também deram apoiou à tomada de Berlim.

O ponto alto dos canhões do tsar, porém, se deu durante a operação para capturar o forte gigante do Terceiro Reich em Königsberg (atual Kaliningrado), quando três divisões da artilharia pesada infligiram mais de 200 ataques diretos no reduto. Apesar de apenas 15% das bombas penetraram o invólucro de betão das colocações, foi o suficiente para romper as defesas alemãs.

Depois de ter sido produzido para esses elevados padrões de montagem, as velhas continuaram a servir na artilharia soviética muito tempo depois da Segunda Guerra Mundial. As últimas unidades foram retiradas de serviço apenas no final de 1950, e uma delas está agora em exposição no Museu de Artilharia de São Petersburgo.

 

Aleksandr Verchínin é doutor em Ciências Históricas e pesquisador sênior do Centro de Análise de Problemas.

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