Empresa russa oferece serviços de preservação de corpos humanos

No momento, a KrioRus deixa de investir em marketing e propaganda dos seus serviços Foto: Shutteckstock / Legion Media

No momento, a KrioRus deixa de investir em marketing e propaganda dos seus serviços Foto: Shutteckstock / Legion Media

Até agora, os restos mortais de 34 pessoas e 14 bichos de estimação já foram submetidos ao procedimento de conservação, enquanto a empresa possui mais de 100 novos contratos assinados com os clientes da Rússia, Estados Unidos e países da Comunidade dos Estados Independentes.

Pesquisa realizada no ano passado pela agência Levada-Center revelou que 52% dos russos temem a perda dos seus parentes, enquanto 20% dos entrevistados gostariam de viver para sempre. Foram estes medos e desejos estimularam a fundação e crescimento da empresa KrioRus, que desde 2005 trabalha com o congelamento profundo de corpos humanos e animais para uma futura ressuscitação.

A empresa foi fundada por um grupo de dez empresários, incluindo Igor Artiúkhov, biofísico e membro de um movimento sobre o tema na Rússia, e Danila Medvedev, ex-analista de um banco de investimentos.

Ao longo de muitos anos, os empresários acompanharam as atividades das empresas estrangeiras do ramo e finalmente resolveram aplicar as tecnologias utilizadas por elas em solo russo. No dia da sua abertura, a nova empresa tinha apenas quatro concorrentes nos continentes europeu e americano, tais como Alcor e Cryonics Institute, as mais conhecidas nos Estados Unidos.

Visão positiva do futuro

Na opinião dos crionistas, o corpo de um ser humano falecido que ainda não entrou no processo de decomposição pode ser colocado no estado de anabiose até o dia em que a ciência descobrir uma maneira de ressuscitá-lo. Os cientistas acreditam que no futuro será possível reanimar não apenas o corpo de uma pessoa, mas também o seu cérebro, junto com a sua personalidade, ativando apenas aquelas partes que são responsáveis pela memória de longo prazo, enquanto as partes restantes poderiam ser substituídas por microchips.

Na opinião dos empresários Danila Medvedev e Váléria Pride, baseada nas pesquisas de famosos neurofisiólogos, no período entre os próximos 50 e 100 anos, os cientistas serão capazes de reproduzir os cérebros humanos com todos os seus detalhes e conteúdo. No entanto, os representantes da ciência moderna entrevistados pelo “RBC Daily” não compartilham das esperanças dos crionistas.

"Foi cientificamente comprovado que os corpos humanos congelados não podem ser futuramente reanimados", diz Irina Siluianova, diretora do departamento bioético da Universidade Nacional de Pesquisas Médicas da Rússia de N.I. Pirogov.

Do ponto de vista legal, o fato de a empresa exercer uma atividade incomum não permite considerá-la fraudulenta, afirma Svetlana Iúdina, advogada do escritório de consultoria jurídica Khrenov e Parceiros.

"Os serviços de conservação criônica poderiam ser tratados como uma atividade ilegal caso os representantes da empresa garantissem que o corpo congelado ressuscitaria sob quaisquer condições e circunstâncias dentro do prazo estipulado. No entanto, a simples afirmação sobre a possibilidade de reanimação por meio dos métodos ainda inexistentes não contradizem a legislação vigente."

A contratação dos serviços da KrioRus é feita mediante um contrato de realização de uma experiência científica de preservação e posterior reanimação do corpo humano assinado entre o cliente e a empresa, que inclui uma cláusula cujo texto não garante o resultado positivo de todo este processo.

Preço da imortalidade

A empresa foi fundada em 2005 com capital inicial de US$ 10 mil, cuja maior parte foi investida no equipamento do depósito criônico localizado na cidade russa de Zelenograd.

No decorrer do tempo, os empresários gastaram cerca de US$ 20 mil na compra de criostatos destinados à preservação de corpos no gelo seco, assim como investiram em frascos de Dewar com capacidade de 45 litros, usados na conservação de órgãos e amostras biológicas, tais como DNA e sangue do cordão umbilical, entre outros. Ao longo dos anos, os gastos totais dos fundadores da empresa atingiram US$ 60 mil, enquanto outros US$ 50 mil foram recebidos de patrocinadores.

O preço de conservação de um corpo inteiro cobrado pela KrioRus é de US$ 36 mil. A preservação de apenas uma cabeça ou um cérebro (neuropreservação) custa US$ 12 mil.

Os gastos com a manutenção do depósito criônico, incluindo salários dos seus funcionários,  atingem entre US$ 80 mil a US$ 120 mil anualmente, enquanto meia-tonelada mensal do nitrogênio líquido necessário para manter os corpos dos clientes congelados se transforma numa despesa de US$ 8.500 por ano.

 Crionautas

Atualmente, encontram-se 14 corpos de animais de estimação nas instalações da KrioRus –a preservação de cada um custou em média US$ 12 mil, além de 34 restos humanos, incluindo apenas os cérebros. Outros 100 pacientes aguardam o início do procedimento e já adiantaram o pagamento pelos serviços da empresa. Além dos cidadãos russos, a carteira dos clientes da KrioRus inclui representantes da Comunidade dos Estados Independentes, Europa e Estados Unidos. Em 2013, a empresa aceitou 11 cadáveres humanos, ganhando US$ 230 mil, o que permite considerá-la um negócio lucrativo, afirma Valéria Pride, sua co-fundadora. 

No momento, a KrioRus deixa de investir em marketing e propaganda dos seus serviços, preferindo se concentrar nas pesquisas cientificas realizadas em Moscou e na cidade de Voronej. Os fundadores acreditam que conseguirão ressuscitar os corpos preservados nas próximas décadas.

O volume total de investimentos referentes às pesquisas beira US$ 30 mil, porém ambos os laboratórios também usam recursos recebidos dos patrocinadores particulares. Os futuros planos de investimento dos empresários são estimados em cerca de US$ 1 milhão –os novos gastos incluem o desenvolvimento do negócio e a compra de mais um depósito destinado à preservação de corpos baseado numa nova tecnologia que dispensa o uso gelo. Além disso, Medvedev e Pride estudam a possibilidade de parcelamento do pagamento pelos serviços da empresa em colaboração com as instituições financeiras que já oferecem empréstimos destinados à realização de cerimonias funerárias.

 

Publicado originalmente pelo RBC Daily

 

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