Disparo contra o tempo

Graças ao trabalho conjunto do eminente matemático russo Tchebichev, do professor Tchernov, do engenheiro Obukhov e do químico Dmítri Mendeleiev (foto), a Rússia foi um dos primeiros países a adotar canhões de alma estriada na artilharia de campo, naval e de fortificação Foto: Press Photo

Graças ao trabalho conjunto do eminente matemático russo Tchebichev, do professor Tchernov, do engenheiro Obukhov e do químico Dmítri Mendeleiev (foto), a Rússia foi um dos primeiros países a adotar canhões de alma estriada na artilharia de campo, naval e de fortificação Foto: Press Photo

Após a derrota na Guerra da Crimeia, no século 19, a Rússia reconheceu a necessidade urgente de rever a sua artilharia. A criação de pólvora sem fumaça por um grupo de acadêmicos sob o comando de Dmítri Mendeleiev abriu caminho para o desenvolvimento do primeiro canhão de alma estriada (com ranhuras internas) do país.

Em apenas duas décadas na segunda metade do século 19, a tecnologia de artilharia das grandes potências deu um salto equivalente à evolução dos 300 anos anteriores. Tendo atingido o seu pico na primeira metade do século passado, a era da artilharia de alma lisa finalmente concluiu o seu ciclo. Devido aos princípios comuns de concepção e construção, era impossível melhorar ainda mais as suas principais especificações táticas e técnicas: alcance e precisão de tiro, bem como velocidade de disparo.

Na verdade, a solução para esse impasse tinha sido desenvolvida no século 17, com a elaboração de armas extremamente caras e complexas que faziam os canhões girarem durante a queima. Qualquer estrutura que tivesse uma trajetória mais estável possuía vantagens consideráveis​​, tanto em alcance como em precisão. Novas perspectivas de desenvolvimento ganharam força com a Revolução Industrial do século 19 e a transição para produção mecanizada, a utilização de novos instrumentos e materiais avançados de construção.

Em meados do século 19, os méritos das armas de fogo com estrias eram indiscutíveis. O uso extensivo do novos canhões com alma estriada Krupp pela Prússia (para esmagar as forças do Império Austríaco na Guerra Austro-Prussiana de 1866) demonstrou o papel crescente desse tipo de artilharia.

Enquanto isso, o Império Russo era confrontado com a necessidade de uma reforma abrangente de sua artilharia após a derrota na Guerra da Crimeia, que ocorreu entre 1853 e 1856. Graças ao trabalho conjunto do eminente matemático russo Pafnuti Tchebichev, do professor de metalurgia na Academia de Artilharia Mikhailovsk, Dmítri Tchernov, do engenheiro Pável Obukhov e do químico Dmítri Mendeleiev, que se uniram para desenvolver a pólvora sem fumaça, a Rússia foi um dos primeiros países a adotar canhões de alma estriada na artilharia de campo, naval e de fortificação.

Em meados do século 19, os méritos das armas de fogo eram indiscutíveis Foto: Alamy / Legion Media

Em 1860, o canhão de alma estriada com quase dois quilos (86,8 milímetros) entrou em serviço, tendo sido concebido sob a supervisão do professor Nikolai Maievsko. Na hora de carrega-lo, a munição de ferro de 4,6 kg com forma alongada e fileiras de pregos se agarrava às seis ranhuras do cano, fazendo com que girasse durante o disparo.

Esse canhão duplicou os parâmetros de alcance e precisão em comparação com seus equivalentes de alma lisa. Mas o alto custo, design complexo e tempo de carregamento mais longo exigiam mais perfeição da arma e da munição. Além disso, a penetração de gases de pólvora entre o cano e o revestimento durante a queima reduzia tanto a precisão como a vida útil do cano.

O ano de 1867 ficou marcado pela adoção de uma nova família de armas com estrias, incorporando um parafuso prismático e cônico. Esses elementos foram desenvolvidos por Maievsko, em parceria com o engenheiro de artilharia Axel Gadolin e outros especialistas. Mas essas armas de retrocarga foram desenvolvidas apenas para as forças terrestres e usadas na artilharia de montanha, cerco, costeira e de fortaleza.

As novas armas asseguravam alcance de tiro eficaz entre 3,5 e 5,5 km, dependendo do calibre da arma, superando, assim, a artilharia de alma lisa. Em termos de precisão, os resultados eram dez vezes melhores ou mais, dependendo também das distâncias de disparo. Os novos canhões podiam então disparar não só em direção a quadrantes inteiros da infantaria inimiga, mas também em alvos individuais.

A melhoria das capacidades de artilharia possibilitaram colocar em campo baterias de artilharia em diferentes profundidades ao longo da frente, disparar a partir de posições fechadas e geralmente proporcionavam muito mais flexibilidade de manobra.

Porém, apesar de os novos sistemas de artilharia russos de 1867 estarem entre os mais modernos do mundo canos de bronze e outras ligas de cobre não conseguiam garantir a durabilidade e longevidade das armas e, assim, limitavam a força do propulsor de pólvora. As crescentes demandas do exército para a artilharia exigiam material de nova geração, e a capacidade industrial das grandes potências estava apenas começando a dominar a produção de aço. 

 

Iúri Ossókin é especialista em Política Externa russa do início do século 20.

 

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