O legado das Katiuchas do século 19

Katiucha durante batalha em Berlim Foto: RIA Nóvosti

Katiucha durante batalha em Berlim Foto: RIA Nóvosti

Os lançadores de foguetes, uma das principais ferramentas de ataque dos arsenais militares modernos, já eram amplamente utilizados em guerras muito antes do século 20. Em 1800, projetistas russos apresentaram um dos sistemas de lançadores mais avançados da época.

Durante a Guerra Russo-Turca de 1828-1829, o Exército russo, posicionado na Península Balcânica, era composto por 24 lançadores armados com cerca de 10 mil sistemas de foguetes produzidos pelo projetista russo Aleksandr Zasiadko.

Alimentados com combinações de pólvora e transportando bombas fragmentárias ou incendiárias, os foguetes eram lançados de plataformas especiais em baterias de 36 unidades. Com alcance de até três quilômetros, eram nada menos que precursores de vários sistemas de foguetes modernos.

Os primeiros foguetes militares foram construídos de modo semelhante aos fogos de artifício, cuja presença era obrigatória nas grandes festas da Europa, Ásia e Rússia desde o século 17. A variante militar diferia principalmente em suas dimensões maiores – necessária para carregar explosivos pesados.

O laboratório de pirotecnia de Zasiadko, primeiro em Moguilev (na atual Bielorrússia) e mais tarde em São Petersburgo, produzia foguetes de diversos calibres, como os usados ​​pela artilharia convencional. Isso ocorria devido à inclusão no componente explosivo das mesmas bombas fragmentárias e incendiárias disparadas por canhões em serviço.

Depois dos sucessos no campo de batalha durante a guerra contra a Turquia, o uso de armamento como lançadores de foguetes foi intensificado. Sua excelente capacidade incendiária deu rapidamente aos armeiros russos a ideia de montar navios de guerra com foguetes. Mas foi Konstantin Konstantinov, outro projetista qualificado e entusiasta por foguetes, que abriu as portas para os lançadores de foguete nos barcos movidos a remo e vela na primeira metade do século 19.

Konstantinov foi capaz de melhorar tanto o alcance de tiro como a precisão dos foguetes ao girar os projéteis durante o voo. Isso se devia à instalação de aberturas laterais que liberavam parte da força de combustível da mistura de pólvora.

Outra medida para aperfeiçoar a tecnologia veio com novos componentes de pó combustível, o que permitia que os foguetes ganhassem velocidade gradualmente e garantia uma trajetória balística ideal e estabilidade de voo.

Versões modificadas dos foguetes de Konstantinov da década de 1840 podiam atingir um alvo a 4,2 km – uma distância inalcançável para as peças de artilharia sem estrias da época.

O maior fabricante de foguetes militares nas décadas de 1830 e 1840 foi o Instituto de Foguete de São Petersburgo, que em 1850 produziu 49 mil foguetes de diversas especificações.

Três anos depois, em 1853, eclodiu a Guerra da Crimeia. O conflito contou com amplo uso de foguetes pela Rússia e Reino Unido, especialmente no bombardeio das cidades russas de Odessa e Sevastopol. No entanto, como Konstantinov destacou em suas memórias, as deficiências em suas maneiras de medir o alcance e duração de voo resultaram na ativação prematura de seus detonadores, fazendo com que foguetes explodissem no ar antes de atingirem o alvo. De um modo geral, a construção de foguetes britânicos era, em sua opinião, falha.

Enquanto isso, os russos deram o melhor de si, lançando fogo contra os aliados com a primeira artilharia móvel de foguetes do mundo –  em sua essência, precursores dos Katiuchas do século 20.

Plataformas de lançamento com seis ou dez tubos foram montadas em carroças puxadas por cavalos, permitindo a rápida implantação dessas armas pesadas. Aliás, a bateria de foguetes do tenente Dmítri Scherbatchiov ganhou fama duradoura por causa desse conflito.

Ao longo do século 19, a Rússia tinha um dos foguetes mais avançados da época. O surgimento de peças de artilharia precisas e longo alcance com as mesmas capacidades militares básicas causaram, posteriormente, o declínio temporário do uso de lançadores de foguetes. No entanto, como mostra a história, esse foi apenas o prólogo de uma longa história a serviço do exército.

 

Iúri Ossókin é especialista em Política Externa russa do início do século 20.

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