Meio século no céu

Modelo MiG-25 bateu 29 recordes mundiais Foto: AP

Modelo MiG-25 bateu 29 recordes mundiais Foto: AP

Ao longo do seu período de existência, caça MiG-25 chegou até a ditar a moda entre os concorrentes. Confira os fatos mais interessantes sobre o interceptor que já integrou as forças armadas de mais de uma dúzia de países ao redor do mundo, mas que nunca se encontrou cara a cara com seu principal adversário.

O MiG-25, chamada de Foxbat pela classificação da Otan, foi desenvolvido como resposta à suposta ameaça por parte do bombardeiro supersônico norte-americano B-58 e de seus seguidores modernizados, que conseguiram romper a defesa antiaérea e fazer ataques nucleares. 

Os interceptores existentes na União Soviética não conseguiam enfrentá-los com a eficácia necessária por sua velocidade nem pelo desempenho a elevada altitude.

Além disso, as máquinas soviéticas também não conseguiam fazer frente à aeronave de reconhecimento ultrarrápida Lockheed SR-71, que tinha uma velocidade de cruzeiro de 2,8 M. O bombardeiro estratégico XB-70 Valkyrie não dava quaisquer chances ao MiG-21 e ao Su-15, as duas aeronaves em serviço na época. 

Os projetistas do MiG-25 fizeram o novo caça atingir velocidade de 3000 km/h e subi-lo até 23 mil pés, tornando-o comparável em desempenho ao Valkyrie. No entanto, o confronto entre os dois aviões nunca aconteceu, já que o XB-70 não era produzido em série.

Superinterceptor

A fuselagem do MiG-25 era única entre os demais aviões de caça de sua época. A aeronave vinha equipada com entradas de ar planas e laterais, de cunha horizontal, com empenagem de duas quilhas e asa trapezoidal pouco alongada. Os dois motores ficavam localizados na parte de trás da fuselagem. Essa geometria permitiu acelerar a aeronave até uma velocidade recorde na época e alcançar uma maleabilidade de manobra aceitável para as aeronaves da sua classe.

 

Acima de todos

O MiG-25 bateu 29 recordes mundiais. Entre eles tem um único, ainda imbatível nos dias de hoje: a altitude do avião com motores a jato. No dia 21 de agosto de 1977, o piloto de testes Fedotov se elevou 37.650 metros acima da superfície da terra.

A aviônica de bordo permitia, pela primeira vez, levar o interceptor para o alvo em modo semiautomático, o que, ante as velocidades de aproximação esperadas, era algo simplesmente indispensável: os comuns reflexos humanos simplesmente não tinham tempo para responder.

Barreira térmica 

Uma vez que velocidades superiores a 2,5 M levam a um forte aquecimento do aparelho a uma temperatura de 300-400 graus Celsius, a utilização de materiais tradicionais na construção do corpo do MiG-25 não era viável. Uma opção era o titânio, que foi na escolha que pararam os norte-americanos. No entanto, os projetistas russos apostaram no aço, o qual, no final das contas, compunha 80% da massa total da estrutura. O resto era de titânio e ligas de alumínio resistentes ao calor.

A fuselagem tinha 5 km de costura soldada e 1,4 milhões de pontos de solda. Em favor da qualidade do trabalho falava-nos o fato de que, em um ano de trabalho, nas costuras de soldagem, com um comprimento total de 450 km, foram encontrados apenas dois pontos insignificantes de vazamento de combustível. O efeito colateral inesperado do novo material foi a incrível capacidade de fazer trabalhos de reparação na aeronave – a soldagem podia ser feita diretamente no estacionamento.

Dor de cabeça

O desenvolvimento e testes do caça interceptor foram realizados em sigilo absoluto. O avião foi apresentado ao mundo pela primeira vez no dia 9 de julho de 1967, em uma demonstração aérea em Domodedovo, por ocasião do Dia da Força Aérea. Quatro caças interceptores em voo rasante passaram por cima das arquibancadas. O locutor disse que esta nova máquina era capaz de desenvolver até a velocidades de 3000 Km/h.

Para o Ocidente aquela era uma ‘bomba’, e muito desagradável. Por isso, foram realizadas audiências extraordinárias no Congresso dos EUA. Essas audiências permitiram reforçar o trabalho de criação de uma nova classe de interceptores F-14 e F-15. Ambos têm o mesmo esquema de duas quilhas que o MiG-25, mas ficam um pouco atrás deste na performance de velocidade e altitude de voo.

Traição como incentivo

Em setembro de 1976, o tenente Viktor Belenko desertou em um MiG-25P do aeródromo militar do Extremo Oriente para o Japão, tendo aterrissado na ilha de Hokkaido, onde pediu asilo político. A aeronave foi desmontada e analisada por especialistas norte-americanos. Um mês e meio depois, a pedido do Ministério das Relações Exteriores soviético, ele foi devolvido desmontado.

A traição do oficial soviético trouxe sérios danos à URSS. No entanto, houve nessa história um lado positivo: ela ajudou a melhorar a capacidade de combate do caça. Uma vez que o potencial inimigo ficou a conhecer os segredos da eletrônica do aparelho, todos os equipamentos eletrônicos nos aviões fabricados foram substituídos. Os caças receberam meios aperfeiçoados de detecção e rastreamento do alvo e foram batizados como MiG-25PD.

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