Renascer do ônibus espacial soviético

O “Buran” seria capaz de descer a estação espacial “Mir” para a Terra sem nenhum arranhão Foto: RIA Nóvosti

O “Buran” seria capaz de descer a estação espacial “Mir” para a Terra sem nenhum arranhão Foto: RIA Nóvosti

Em entrevista ao jornal “Rossiyskaya Gazeta”, o criador do famoso ônibus espacial Buran conta os motivos do encerramento inesperado do projeto após o seu lançamento bem-sucedido e compartilha os planos de utilizar as tecnologias do veículo no futuro.

O ônibus espacial que decolou e passou 205 minutos fora da superfície da Terra, assim como pousou no modo automático pela primeira vez na história da humanidade, foi uma verdadeira sensação mundial. Na época, até mesmo os projetos americanos necessitavam de assistência humana durante a aterrissagem.

Mas, se tudo correu tão bem, por que o ônibus espacial nunca mais foi lançado novamente? Existe esperança de que o veículo russo volte a decolar? Valéri Burdakov, doutor em engenharia e professor do Instituto de Aviação de Moscou, esclarece essas e outras dúvidas.

Rossiyskaya Gazeta: É verdade que o ônibus espacial Buran é a máquina mais complexa por engenheiros até o momento?

Valéri Burdakov: Sem dúvida. O nosso aparelho possui uma funcionalidade mais ampla que o ônibus espacial desenvolvido pelos Estados Unidos. Ele consegue transportar uma carga de 20 a 30 toneladas para a Terra, enquanto a capacidade do veículo americano é de apenas 14,5 toneladas.

O “Buran” seria capaz de descer a estação espacial “Mir” para a Terra sem nenhum arranhão, por exemplo. Além disso, outros fatores como aterrissagem sem piloto, combustível não tóxico, ensaios de voo horizontal e possibilidade de transporte de tanques de combustível na parte superior da aeronave são uma combinação perfeita.

RG: Quem teve a ideia de desenvolver um veículo orbital que pudesse pousar na pista igual a um avião?

VB: Serguêi Korolev foi o responsável pelo conceito principal usado na construção do aparelho. Em 1929, ele tinha 23 anos e já havia conquistado a fama de talentoso piloto de planador. O próprio Korolev me contou que naquela época já tentava descobrir uma forma de levantar o planador para uma altitude de 6 km acima de superfície terrestre e, após a instalação de uma cabine hermética, direto para a estratosfera. Ele redigiu uma proposta e solicitou a aprovação do Konstantin Tsiolkóvski, cientista pioneiro na área espacial.

RG: E ele conseguiu a aprovação?

VB: Não, muito pelo contrário. A ideia de Korolev foi criticada pelo cientista. Na opinião dele, um planador sem motor de combustível líquido seria incontrolável em grandes altitudes, assim como, devido à alta velocidade do aparelho, o seu choque com a Terra durante o pouso seria inevitável.

Além do conselho brincalhão de se concentrar na descoberta de uma forma de utilização de motores de combustível líquido nos veículos que poderiam ir ainda mais longe, para o espaço etérico, Tsiolkovski presenteou o seu jovem colega com o livro “Trens Espaciais”, deixando-o com uma sensação de despeito.

RG: Quando começou o processo de criação do Buran?

VB: Em 1962, Korolev me ajudou a tirar o meu primeiro certificado como inventor do veículo espacial reutilizável. O lançamento do ônibus espacial americano gerou discussões sobre a necessidade de criar um aparelho parecido em território soviético.

No entanto, o ano de 1974 foi marcado pela abertura do departamento de engenharia “Serviço n° 16”, no centro de pesquisa científica e desenvolvimento Enérguia. Esse setor era composto por duas equipes, uma das quais foi liderada por mim e cuidava dos assuntos ligados aos aviões, enquanto a outra estava focada nos veículos espaciais. As nossas atividades incluíam a tradução dos materiais, análise científica, revisão e publicação dos principais manuais dos foguetes. Dessa forma, sem chamar muita atenção, desenvolvemos o nosso modelo do ônibus espacial.

RG: A precisão de aterrissagem do Buran surpreendeu o mundo todo...

VB: Assim que o ônibus saiu das nuvens, um dos chefes de Estado que acompanhava o pouso não parava de falar sobre uma possível queda.  Muitos não sabiam ou não se lembravam da sequência de movimentos gravada na memória do aparelho, portanto, levaram um susto quando ele começou a virar transversalmente em relação à pista. Mas, no final, a aterrissagem do ônibus aconteceu com grande precisão, assim como todos os 205 minutos de voo.

RG: Como você se sentiu após o lançamento bem-sucedido?

VB: Não há palavras que possam expressar os meus sentimentos. Porém, logo após o sucesso, tivemos uma surpresa muito desagradável. O projeto inovador e bem-sucedido foi encerrado, fazendo com que os 15 bilhões de rublos (cerca de 500 milhões de dólares) investidos no projeto parecessem gastos à toa.

RG: As descobertas científicas e projetos de engenharia usados no desenvolvimento do Buran ainda têm alguma utilidade no futuro?

VB: O Buran, assim como o seu análogo americano, tiveram poucas vantagens econômicas devido ao sistema de lançamento caro e ineficiente. No entanto, as suas soluções de engenharia únicas poderão ser aplicadas em novo projeto do Buran-M, um ônibus moderno destinado ao transporte espacial de passageiros, cargas e turistas entre os continentes de uma maneira rápida, segura e confortável. Mas o novo aparelho precisará de um foguete simples reutilizável e ecológico (“Moven”).

O trabalho de cientistas e engenheiros responsáveis pela criação do Buran não foi feito à toa e serviu como base para o desenvolvimento dos aviões de caça de quinta geração e dos veículos aéreos não tripulados. Os especialistas russos foram os pioneiros na área, assim como aconteceu com o satélite artificial.

RG: Quais são as perspectivas da astronáutica moderna?

VB: A época de hidrocarbonetos logo chegará ao fim e será substituída pelo período de amplo uso de energia atômica e solar, o que exigirá tecnologias e aparelhos espaciais. Por exemplo, a criação de centrais elétricas que fornecem a energia aos usuários localizados na Terra levará à fabricação dos foguetes com carga operativa de 250 toneladas. O papel da astronáutica em geral será ampliado e, além de satisfazer as necessidades humanas em termos de informação, como já acontece hoje em dia, o setor cobrirá todas as demandas da população mundial.

 

Publicado originalmente pela Rossiyskaya Gazeta

 

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