Reforma militar aponta para o Ártico

Em 2012, Serguêi Choigu assumiu o cargo de ministro da Defesa Foto: ITAR-TASS

Em 2012, Serguêi Choigu assumiu o cargo de ministro da Defesa Foto: ITAR-TASS

Verificação da prontidão das Forças Armadas, rearmamento em grande escala, novas bases militares no Ártico e ênfase na dissuasão nuclear do potencial inimigo foram os principais destaques do Ministério da Defesa russo neste ano que termina. Medidas definiram não apenas a direção do desenvolvimento de Exército russo, mas também as ambições geopolíticas de Moscou.

Em 2012, Serguêi Choigu assumiu o cargo de ministro da Defesa em uma situação muito difícil. O seu antecessor, Anatóli Serdiukov, havia literalmente rompido com o “modelo soviético” estabelecido de comando das Forças Armadas, já desgastado pelo tempo e pelas guerras.

Nesse contexto, o comandante supremo do país, o presidente Vladímir Pútin, realizou pela primeira vez em 20 anos inspeções de surpresa ao grau de prontidão do Exército e da Marinha.

Em meados de fevereiro, por exemplo, Choigu recebeu ordem para dar alerta de combate ao Distrito Militar Central, quando se encontrava a bordo de um avião em viagem ao exterior. Posteriormente, foi a vez dos Militares do Ocidente e do Sul.

Em julho passado, houve ainda a verificação surpresa da prontidão das tropas do Distrito Militar do Oriente e, em outubro, foram avaliadas as forças de dissuasão nuclear da defesa aeroespacial, da Marinha e da aviação de longo alcance para repelir um eventual conflito nuclear.

Uma característica comum a todos esses exercícios foi o fato de cada uma das inspeções ser acompanhada de um deslocamento massivo de tropas e equipamentos de uma extremidade do país para a outra.

Os testes permitiram não apenas avaliar objetivamente o nível de prontidão do Exército e da Marinha, e desenvolver a interoperabilidade entre todos os seus elementos, mas também revelar os problemas existentes e resultantes da reforma em curso.

Pútin ficou satisfeito com os resultados da inspeção, porém, em dezembro, o Conselho de Administração do Ministério da Defesa incumbiu Choigu de resolver uma série de prioridades, sendo a principal delas o rearmamento do Exército.

Preferência nacional

Durante a reforma do Exército desenvolvida por Anatóli Serdiukov surgiu uma situação paradoxal. A Rússia, líder mundial em venda de armas e equipamento militar, dá preferência ao aparato ocidental quando se trata de seu próprio Exército. Choigu mudou essa situação em menos de um ano.

O Exército adquiriu duas plataformas de mísseis dos novos sistemas de mísseis estratégicos Yars. Duas brigadas das Forças Terrestres foram rearmadas com o sistema mísseis Iskander. Duas bases aéreas receberam os mais novos bombardeiros da linha de frente Su-34, aeronaves de treino Yak-130, helicópteros Mi-28N, Mi-35M. A Marinha de Guerra recebeu dois cruzadores de mísseis estratégicos do projeto 955 do tipo Bor.

Além disso, foram rearmadas seis brigadas da infantaria mecanizada e uma de tanques com os modernos T-90 e sistemas de artilharia Msta-S. No total, 36 unidades militares foram reequipadas com modernos meios de comunicação e seis brigadas de infantaria mecanizada receberam novo equipamento de combate eletrônico.

Graças a essas inclusões, foi possível aumentar a cota de modernização das armas e equipamentos militar para 17% em 2013. Até o final de 2015, esse índice chegará a 30% e, em 2020, entre 70% e 100%.

Conquista do Ártico

Este ano também mostrou para onde estão orientadas as transformações no Exército. Moscou reconheceu abertamente que colocou uma brigada de sistemas de mísseis táticos Iskander na região de Kaliningrado. Esses mísseis podem acertar qualquer alvo em um raio de até 500 km da fronteira russa, bem como posições do sistema de defesa antimíssil dos EUA.

Além disso, a Rússia restaurou quase por completo o sistema de alerta antecipada em caso de ataque de mísseis. Colocou em operação 4 da 8 estações de radar Voronej-DM, capazes de controlar todo o que se passa nos céus ao redor da Rússia em uma distância de até 6.000 km.

Para a proteção dos interesses nacionais, foi criado, em junho passado, o comando operacional no Mediterrâneo. Desde então, essa área ganhou conexões de navios da Marinha russa. As capacidades de combate das tropas paraquedistas foram reforçadas graças à inclusão de três brigadas do exército de assalto aéreo em sua composição, o que permitirá a Moscou responder de forma mais eficaz ao eventual aparecimento de ameaças à segurança de suas fronteiras.

Porém, o maior feito talvez tenha sido a criação de uma rede de bases militares na região do Ártico, cuja formação será concluída já no próximo ano. De acordo com o plano, serão implantadas partes da defesa aeroespacial no arquipélago da Terra Nova, bem como serão criadas equipes de resposta rápida e os navios da Marinha de Guerra passarão a fazer serviço militar ao longo de toda a Rota do Mar do Norte.

Moscou pretende reforçar o seu pedido de extensão da plataforma continental, garantindo para si os direitos a novos depósitos de petróleo e gás no fundo do Oceano Ártico, assim como um novo corredor de transporte do oceano Pacífico para o Atlântico.

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