Colisor de hádrons russo irá estudar mistérios do Universo

"Pretendemos produzir aceleradores compactos para fins médicos com vista a tratar doenças oncológicas por meio de feixes de partículas" Foto: dubna.ru

"Pretendemos produzir aceleradores compactos para fins médicos com vista a tratar doenças oncológicas por meio de feixes de partículas" Foto: dubna.ru

Localizado na cidade de Dubna, na região de Moscou, o Iupn (Instituto Unificado de Pesquisas Nucleares) está construindo o colisor de hádrons Nica (Nuclotron-based Ion Collider Facility) para estudar os processos de formação de matéria nuclear operados nos primeiros tempos do Universo e revelar assim o segredo de seu nascimento.

Em entrevista à Gazeta Russa, o engenheiro-chefe adjunto do Iupn e membro correspondente da Academia de Ciências da Rússia, Grigóri Trúbnikov, falou sobre a cooperação internacional e os planos do instituto no âmbito do projeto Nica.

Gazeta Russa – A imprensa apelidou o colisor Nica de irmão menor do Grande Colisor de Hádrons. Qual é a afinidade entre eles? O Iupn tem cooperação com o Cern (Centro Europeu para a Pesquisa Nuclear)?

Grigóri Trúbnikov – Temos cooperação com o Cern em vários domínios. O Iupn participou do desenvolvimento de várias tecnologias-chave para o Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês), especificamente a de diagnóstico de um feixe de partículas. De fato, as primeiras voltas do feixe de partículas durante os testes do LHC foram diagnosticadas com o equipamento fornecido pelo Iupn. Além disso, o Iupn criou um sistema de supressão de oscilações coerentes do feixe. Os trabalhos levaram vários anos e envolveram várias empresas russas, inclusive as da indústria armamentista. Atualmente, esse sistema é usado pelo LHC em toda a gama de suas energias, permitindo manter estáveis os parâmetros do feixe durante longo tempo, o que assegura o funcionamento eficiente do colisor.

Como o Cern está envolvido no projeto Nica?

O Cern se manifestou interessado em participar antes de o projeto ser lançado. Em 2008, o Iupn assinou um acordo geral com o Cern, no qual o órgão se declarou interessado em participar também da construção do colisor russo. Como resultado, trabalhamos há vários anos em estreita cooperação, trocando tecnologias, realizações e especialistas. Os especialistas do Cern vêm para cá para trabalhar em nossos equipamentos enquanto os nossos vão ao Cern para trabalhar em suas máquinas. Temos publicações conjuntas, stands experimentais conjuntos e assim por diante.

Além disso, funcionários do Cern fazem parte de nosso Conselho de Peritos, participando em grupos especializados em aceleradores e detectores. Duas vezes por ano eles inspecionam soluções tecnológicas básicas do nosso projeto. O Cern nos oferece seu software para o cálculo da dinâmica do feixe, bem como os programas de administração.

Quais outras entidades estrangeiras têm interesse em participar no projeto?

Temos acordos de cooperação com várias organizações estrangeiras, entre as quais o Laboratório Nacional de Brookhaven (EUA), o também norte-americano Laboratório Nacional Fermi (Fermilab), o Centro Alemão de Estudo de Íons Pesados ​​GSI (Darmstadt), a Associação Helmholtz, a maior organização de pesquisa da Alemanha, e o projeto FAIR.

Em agosto deste ano, realizamos o primeiro fórum internacional sobre a participação de outros países em nosso projeto. O evento teve a presença de representantes de 11 países, entre os quais Alemanha, Itália, África do Sul e Índia. Após o fórum, seis países assinaram um protocolo de intenção para participar do projeto. O fórum também contou com a presença de representantes do Ministério da Ciência e Tecnologia da China, que prometeram assinar o mesmo acordo até o final deste ano.

Quais aspectos serão priorizados durante os estudos no colisor russo?

Temos duas vertentes básicas. A primeira diz naturalmente respeito à ciência fundamental. Tratam-se de pesquisas da matéria nuclear de alta densidade. A matéria nuclear quente densa tem sido um aspecto muito relevante, especialmente nos últimos 10 a 12 anos. Tais estudos são especialmente interessantes porque, de acordo com conceitos teóricos modernos, na etapa inicial de formação do Universo, a matéria era composta de quarks e glúons livres. O estudo dos estados dessa matéria ajudará a entender como ela se formava durante a constituição do Universo e como os quarks livres formavam os nucleons.

A segunda vertente são pesquisas aplicadas. Aqui, nossa prioridade é a medicina nuclear. Pretendemos produzir aceleradores compactos para fins médicos com vista a tratar doenças oncológicas por meio de feixes de partículas. No mundo, há cerca de 15 a 20 centros do gênero onde são tratadas dezenas de milhares de pacientes todos os anos. Esperamos que, em um futuro próximo, a Rússia venha a utilizar as tecnologias de aceleração usadas em nosso projeto Nica em seus centros de medicina nuclear. 

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