Moda que vem da água

Akhmed pretende construir até 135 instalações de processamento de couro de peixe na cidade de Nazran Foto: Lori / Legion Media

Akhmed pretende construir até 135 instalações de processamento de couro de peixe na cidade de Nazran Foto: Lori / Legion Media

Morador da república de Inguchétia, no Cáucaso do Norte, pretende lançar a fabricação de couro feito de pele de várias espécies de peixes, inclusive de esturjão e truta. Porém, apesar do negócio não ter análogos no mundo, empresários e autoridades locais não dão suporte à ideia.

As tecnologias de curtimento de couro de peixe existem há séculos, porém, a durabilidade do produto final, principalmente feito da pele de esturjão ou de truta, não é muito grande, o que reduz o número das áreas da sua aplicação.  Quatro anos atrás, Akhmed Chadíev começou a ressuscitar a tecnologia de processamento de couro de esturjão, que ao passar dos anos foi quase esquecida.

Equipada com aparelhos alemães e italianos,  a oficina de Akhmed em Nazran, na república russa de Inguchétia, exporta para países como a China, Alemanha, Canadá, Israel e Espanha.

Uma das características surpreendentes do produto final são as escamas que se levantam ou baixam. “Parece que o peixe respira”, diz Akhmed. Tudo indica que o novo negócio tem um grande potencial devido as muitas solicitações recebidas de grandes empresas, tais como a grife francesa Нermès e o fabricante de veículos alemão Audi.

No entanto, segundo o tecnólogo, o baixo volume de produção ainda não permite atender todos os clientes. “É necessário aumentar a quantidade do produto fabricado. Eu consegui criar um material do futuro tecnológico e barato, e as empresas estrangeiras sabem disso, mas não querem comprar sem fazer um teste de qualidade. Nada contra, mas tenho uma condição: qualquer produto feito do couro fabricado aqui deverá ter o nome da minha empresa: Chádi, Made in Russia”, conta.

Recentemente, Akhmed recebeu a visita de uma delegação alemã que comprou 200 couros para fazer um teste de qualidade. Os clientes deixaram o seu contato, mas não retornaram. Portanto, o empresário tomou a inciativa e os contatou, mas apenas para ser informado de que eles já haviam encontrado um fabricante local.

Um mês depois, os clientes alemães apareceram novamente e compraram mais 500 couros, prometendo aumentar os volumes das futuras encomendas, pois os resultados de um teste de qualidade e de comparação dos produtos russo e alemão feito na Itália havia confirmado a altíssima qualidade do produto de Akhmed.

  

Para satisfazer a demanda crescente, o negócio necessita de investimentos. Assim, Akhmed resolveu escolher um caminho pouco comum, convidando os seus clientes para o quadro societário da empresa. Até o momento, contudo, ele não recebeu qualquer resposta positiva.

Recomeço no galinheiro

A vontade de ressuscitar a tecnologia de processamento de couro de peixe fez com que Akhmed deixasse a própria empresa bem-sucedida na cidade de Volgogrado, onde morava, e se mudasse com a família para a terra dos seus pais. Até aquele momento, ele já havia conseguido comprar os imóveis para todos os seus 15 irmãos e irmãs, porém, ficou sem a casa própria e se hospedou com a família na casa de seus pais.

No velho galinheiro em um dos cantos abandonados do quintal da casa, Akhmed construiu uma espécie de oficina, onde instalou os equipamentos, guardou as amostras de couro de esturjão e de truta trazidas do Volgogrado e começou a fazer experiências.

Sendo aficionado por couro desde a adolescência, na época de faculdade Akhmed fez um curso profissionalizante na cidade de Rostov, a 700 quilômetros do Vladikavkaz. Nos primeiros anos após a queda da União Soviética, ele vivia da venda dos casacos de inverno de fabricação própria e trabalhava com processamento do couro de peixe apenas por diversão.

“Pensei que conseguiria montar uma fábrica de curtimento do couro de peixe em apenas alguns meses, pois não é nada difícil, qualquer um é capaz de fazê-lo. A única diferença é que a maioria das tecnologias utilizadas é artesanal e não garante a durabilidade do produto. Mas ainda morando em Volgogrado, eu encontrei uma maneira de transformar o couro de peixe numa espécie de tecido”, conta Akhmed.

Os produtos do futuro empresário fizeram sucesso entre os moradores da cidade, mas, naquela época, a tecnologia existente exigia algumas melhorias. Akhmed queria que o couro fosse lavável e não endurecesse após uma lavagem a seco. Após vários anos de tentativas e 27 formas de processamento industrial inventadas, os seus esforços foram recompensados. O material fabricado é semelhante à pele de cobra, mas possui as propriedades do couro de peixe, como impermeabilidade.

Falta de visão

Apesar de um grande receio de ter a sua tecnologia roubada, Akhmed não pretende patenteá-la. “Poderia fazer isso, mas não quero revelar o meu método para que ele não pare na internet. Se isso acontecer, ninguém acreditará que a tecnologia seja minha. Não quero ser vítima de imitadores”, diz o fabricante.

Akhmed já recebeu várias propostas para abrir fábricas no Canadá, China e Espanha, e isso significa que a tecnologia única logo poderá sair do território russo para depois voltar com um preço ainda mais alto ou talvez for apresentada pelos revendedores como a inovação própria, seguindo o exemplo da israelita André Fish.

A ideia de Akhmed, que consiste na construção de 130 a 135 instalações de processamento de couro de peixe na cidade de Nazran, não apenas surpreendeu as autoridades locais e investidores potenciais, mas os fez evitar qualquer contato com o tecnólogo.

“Os representantes dos órgãos locais não tem nenhuma competência para avaliar nem a importância da nova tecnologia, nem o potencial desse negócio”, acredita Svetlana Tsói, ex-estágiária de Akhmed  e estilista da marca “Fish Skin”, que já participou das semanas de moda de Paris e de Nova York. “O negócio exige investimentos bilionários, mas as autoridades não o levam a sério”, acrescenta a fashionista.

Mesmo assim, o tecnólogo do couro continua resistindo às propostas do exterior e tem esperanças de que, um dia, sua futura grife, chamada “Couro Inguche”, alcance fama mundial.

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