Corte orçamentário traz vantagens à indústria espacial

Lançamento do Foguete transportador russo-ucraniano Zenit. Foto: AP

Lançamento do Foguete transportador russo-ucraniano Zenit. Foto: AP

Verbas reduzidas forçam cosmonáutica a assimilar métodos de trabalho baseados na economia de mercado.

No final de julho, o ministro das Finanças russo, Anton Siluanov, informou a Vladímir Popóvkin, diretor-geral da agência espacial federal Roscosmos, que planeja o corte de US$ 1,9 bilhão no financiamento do programa estatal “Atividades espaciais entre os anos de 2013 e 2020. “A razão principal da medida é o reajuste do valor do dólar no pagamento das parcelas do aluguel pelo uso do complexo Baikonur”, explicaram vagamente os representantes do Ministério das Finanças.

No entanto, para entender melhor o que está acontecendo, é preciso relembrar a história nem tão longa da cosmonáutica mundial. Assim que o sonho da humanidade de realizar voos espaciais se tornou realidade e em ambos os lados do oceano terminaram as respectivas conquistas, ficou evidente que os programas espaciais poderiam ser desenvolvidos seguindo duas linhas de conduta diferentes.

“Queremos muito um novo foguete, uma nova nave espacial tripulada, um novo Cosmódromo, uma base na Lua. Tudo isso, em meio à frustrante baixa produtividade do setor”

A primeira seria a organização de um impressionante número de vitoriosos e triunfais lançamentos e projetos, praticamente inúteis do ponto de vista da ciência e em termos de vantagens econômicas, mas quem, em compensação, criariam a ilusão de grandes realizações na área espacial. A segunda consistiria em aderir a uma abordagem prudente e prática dos voos espaciais, na qual os lançamentos são realizados de forma racional, conforme reais necessidades econômicas ou de defesa. Em outras palavras, a prioridade é a rentabilidade dos projetos espaciais.

O exemplo mais proeminente envolvido nessa segunda linha é a comunicação e navegação espacial, cujo primeiro passo foi dado pela agência espacial norte-americana Nasa. A lei da comunicação por satélite, de 1962, estabeleceu que todos os satélites de comunicação fossem mantidos na competência da Agência Federal de Comunicação dos EUA, mas permitiu que as empresas comerciais usassem os serviços prestados pelo grupo de satélites.

Em 1965, os EUA e a União Europeia lançaram o primeiro satélite comercial de comunicação, o “Early Bird”. Nos anos 1970, surgiu um mercado de serviços espaciais, que consistia principalmente na digitalização dos dados e dos sistemas de comunicação. Já em 1991, empresas líderes americanas e da Europa Ocidental criaram um consórcio internacional da comunicação espacial, o “Global Star”. Ele tem seu próprio agrupamento de satélites e permite que outros usuários comerciais adquiram os seus serviços.

Mas a União Soviética seguia firme pelo primeiro caminho. “Os nossos líderes nunca regulavam o dinheiro destinado à cosmonáutica. E se a questão fosse um projeto que envolvia a defesa, a tentativa de ter uma conversa sobre o alto custo poderia culminar com a demissão do cargo”, disse Geórgui Lisenkov, ex-primeiro vice-comandante das Unidades Espaciais do Ministério da Defesa da URSS, à Gazeta Russa. 

Agora, é claro, os tempos mudaram. No início dos anos 1990, a Roscosmos passou por uma privatização parcial com a criação de uma série de joint ventures, que incluem parceiros de países da UE e dos EUA. O Tratado Soviético-Americano START–1, de 1991, permitiu converter os mísseis balísticos intercontinentais soviéticos, ICBM SS-19, nos mísseis-portadores civis Strela e Rokot.

Mesmo assim, o desejo do efeito de ostentação não quer, de jeito nenhum, dar lugar a um pragmatismo sensato. Será que o programa de navegação via satélite Glonass, por exemplo, é realmente necessário? Sem dúvida. No entanto, conseguiram organizar esse programa de tal modo que todos os veículos do país foram obrigado a ter receptores cósmicos. Assim, a dúvida que fica é se os usuários civis precisariam competir com o GPS americano. Num futuro previsível, obviamente não.

Como resultado, o programa tão solicitado pelas forças armadas, pelo Ministério de Situações de Emergência e por outras estruturas similares, está patinando há tempos. Além disso, não foi possível garantir o bom funcionamento de todos os 24 dispositivos desse sistema – que é exatamente o número de satélites necessários para a cobertura de toda a superfície da Terra e para a realização de um trabalho eficaz. Não é surpreendente que o Ministério das Finanças conseguiu, já em agosto de 2012, fazer os cortes nos recursos destinados ao Glonass, congelando o financiamento do programa no nível de 2011 com a liberação de apenas US$ 586,8 milhões.

Por outro lado, o diretor científico do Instituto de Política Espacial, Ivan Moiseev, liga firmemente os sucessos no espaço com o uso fundamentado dos recursos. “Queremos muito um novo foguete, uma nova nave espacial tripulada, um novo Cosmódromo, uma base na Lua. Tudo isso, em meio à frustrante baixa produtividade do setor”, diz Moiseev. “Nessa situação, faria sentido aplicar os recursos no aumento de eficiência da produção e na modernização tecnológica.”

Fato é que o desenvolvimento de uma nova tecnologia espacial, baseada na introdução de equipamentos modernos, apesar de aparentar ser um passo para trás no que diz respeito às grandiosas fantasias, é a melhor condição para que no futuro a cosmonáutica russa possa se manter em destaque. 

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