Rússia ajudará o Brasil na luta contra o câncer

Com a introdução da versão russa, valor do bevacizumabe no Brasil deverá cair de 30 a 40% Foto: RIA Nóvosti

Com a introdução da versão russa, valor do bevacizumabe no Brasil deverá cair de 30 a 40% Foto: RIA Nóvosti

Empresa privada russa irá transferir tecnologias utilizadas no tratamento de alguns tipos de tumor, bem como no tratamento de doenças da retina. Isso reduzirá o custo dos respectivos medicamentos em um terço.

No final de junho, o Ministério da Saúde brasileiro aprovou a assinatura de um contrato entre a filial brasileira da empresa russa Biocad e uma das principais empresas farmacêuticas públicas do Brasil, o Instituto Tecpar. “Trata-se da produção de bevacizumabe, análogo biológico do medicamento ‘Avastin’, da gigante suíça Roche”, disse à Gazeta Russa o vice-presidente da área de Engenharia e Pesquisa da Biocad, Roman Ivanov. A droga é usada para tratar o câncer colorretal, de mama, rim, pulmão, ovário e glioblastoma, assim como certas doenças da retina.

Ao longo dos próximos 5 anos, em paralelo ao processo gradual de transferência de tecnologia, a aliança entre as empresas russa e brasileira vai adquirir o direito de vender os medicamentos para o SUS. “Para nós, essa cooperação é bastante vantajosa. A Tecpar é um parceiro digno e, ao longo de 5 anos, a nossa empresa terá um excelente mercado garantido”, destacou Ivanov. “Nosso parceiro brasileiro está interessado em continuar a cooperação em relação aos medicamentos da próxima geração que estamos desenvolvendo no momento”, acrescentou.

Apoio estatal

No começo do mandato do ex-presidente Dmítri Medvedev, foi aprovada a Estratégia para o Desenvolvimento da Indústria Farmacêutica russa até o ano de 2020, desenvolvida pelo Ministério da Indústria e do Comércio da Rússia. A partir de então, surgiu um projeto de organização da produção de remédios que pudessem substituir os medicamentos importados de alto custo. Graças a isso, a Biocad recebeu um financiamento do governo para o desenvolvimento e produção de três medicamentos, incluindo o bevacizumabe. Para tanto, a empresa ganhou novas instalações em uma zona econômica especial próxima à São Petersburgo. Os dirigentes russos fizeram muito esforço para promover a biotecnologia nacional no exterior e, em especial, para apoiar o projeto da Biocad no Brasil.

Os russos estavam negociando com diversos laboratórios estatais e consórcios privados de biotecnologia, mas o laboratório público paranaense Tecpar foi selecionado por uma série de razões. Um deles foi o fato de os representantes do laboratório terem ficado atraídos pela tecnologia e know-how originalmente russos. “Nós dominamos o ciclo completo de produção, do desenvolvimento da substância até a produção do medicamento acabado, e estamos prontos para transferir a tecnologia de produção para o nosso parceiro brasileiro”, ressaltou Ivanov.

Atualmente, o Brasil não produz medicamentos com base em anticorpos monoclonais e gasta aproximadamente US$ 80 milhões para comprar a droga original. Com o surgimento no mercado do análogo russo brasileiro, programado para 2015 e 2016, o valor do bevacizumabe no Brasil deverá cair de 30 a 40%.

"Isso é realmente uma ocasião única, quando um medicamento russo superou os análogos estrangeiros, tanto em relação à qualidade, quanto em relação ao custo. A situação com o bevacizumabe prova que a ciência russa ainda é forte e competitiva”, considera o analista do MFH FIBO Group, Anatóli Voronin. Geralmente, a exportação dos medicamentos russos é contida pela presença de seus análogos estrangeiros nos mercados locais.

A indústria farmacêutica estrangeira tende a apresentar maior mobilidade e é mais ativa, bem como dispõe de grande quantidade de maneiras de testar a eficácia do medicamento e possui uma base de evidências sólidas. Ainda assim, o analista estima que a indústria farmacêutica russa está 5 anos atrasada em relação aos líderes do mercado mundial.

“Não tenho conhecimento de outros casos de exportação de medicamentos russos para a América Latina, com exceção de Cuba”, diz a analista da agência Investkafe, Daria Pichugina. A Rússia exporta poucos medicamentos, sobretudo os considerados “inovadores”, que poderiam interessar os compradores estrangeiros. “Talvez a exceção seja apenas a empresa Pharmsynthez, que promove ativamente os seus produtos nos mercados dos EUA e da Europa”, continua a analista. Nos últimos cinco anos, o mercado farmacêutico local aumentou o seu volume de negócios em quase 3 vezes.

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