“Mais do que males à saúde, acidentes como o de Chernobyl causam choque social”

Em entrevista à agência de notícias RIA Nóvosti, o diretor do Instituto de Segurança Nuclear (IBRAE) e correspondente da Academia de Ciências da Rússia, Leonid Bolchov, falou sobre a contribuição do instituto para elaboração de diretrizes de segurança ambiental e sobre o pânico gerado por acidentes nucleares.

O último dia 26 marcou o 27º aniversário do acidente no quarto reator da usina nuclear de Chernobyl. Ao longo desses anos, os cientistas russos realizaram muitos procedimentos e acumularam grande experiência tanto em liquidar os danos como prevenir desastres graves em centrais nucleares. O conhecimento adquirido se mostrou útil, por exemplo, para avaliar os efeitos do mais recente acidente nuclear em Fukushima, no Japão.

RIA Nóvosti: Como o IBRAE colabora com outros órgãos internacionais para prevenir e liquidar os danos de um possível acidente como ocorrido em Chernobyl?

Leonid Aleksandrovitch: Este ano o IBRAE comemora 25 anos, e desde os primeiros anos de sua existência compartilhamos experiências com diferentes organizações nos mais diversos países. Em 1989, foi organizada a primeira troca significativa de pontos de vista sobre todos os aspectos do acidente de Chernobyl. Por muitos anos, cooperamos com o Instituto Francês de Proteção Radiológica e Segurança Nuclear, com a Comissão Americana de Regulação Nuclear e com Sociedade para a Segurança de Usinas e Reatores da Alemanha.

Por exemplo, um dos experimentos nacionais franceses, o Becquerel, realizado nos anos 1990, foi desenvolvido de acordo com o cenário que nós preparamos junto com os colegas franceses, utilizando toda a nossa experiência em Chernobyl. O experimento levou à descoberta de problemas graves no sistema francês de resposta a acidentes de radiação. No caso dos Estados Unidos, melhoramos um grande número de códigos de computador para acidentes sérios de centrais nucleares. Um deles, chamado Melkor, foi simplesmente reescrito em um trabalho conjunto do IBRAE com o Laboratório Nacional de Sandia.

Juntamente com o Ministério de Energia dos EUA e com Departamento para a Cooperação Internacional de Resposta a Desastres, desenvolvemos também um sistema global de resposta a emergências. Como exemplo posso informar que o Dicionário para o Auxilio na Interação com o Público e a Imprensa em Momentos de Desastre desenvolvido aqui,  acabou por ser muito popular nos Estados Unidos.

RN: Como o conhecimento adquirido em Chernobyl foi útil para o acidente em Fukushima?

Essa é uma questão complexa, que exige uma certa imersão na história. O fato é que, por muitas décadas, em situações de acidentes graves a proteção dos trabalhadores da usina nuclear e da população que vive nos arredores foi colocada como prioridade. A experiência com todos os desastres acontecidos, incluindo o de Fukushima, demonstrou que o objetivo não foi definido de maneira exata.

Desde que se começou a trabalhar com  toda energia atômica, e levando em consideração todos os desastres graves conhecidos, as consequências gerais foram menores do que outros acidentes com qualquer tipo de energia ou indústria. No entanto, esquecemos rapidamente das catástrofes artificiais e naturais, enquanto que os acidentes de radiação deixam uma profunda cicatriz na história do país e da humanidade por longos anos.  A razão não está só nas consequências à saúde, mas no enorme choque social, econômico, psicológico e até mesmo político a que toda a sociedade fica exposta.

Vejamos a situação no Japão. A população da região em torno da usina nuclear de Fukushima não foi afetada pelo acidente. A dose de radiação em seres humanos foi igual a zero e isso foi reconhecido pelas organizações internacionais mais conservadoras, inclusive pela Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês). Porém, volto a falar: a coisa mais terrível em uma estação nuclear não são as consequências radiológicas, mas a reação incomensurável de pânico da sociedade ao perigo real e a fobia à radiação, que vem aos poucos.                                                                                              


Publicado originalmente pela RIA Nóvosti

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