“Não encarávamos americanos como inimigos”

Segundo cosmonauta, solução para o setor é "transformar palavras em atos práticos"

Segundo cosmonauta, solução para o setor é "transformar palavras em atos práticos"

Duas vezes condecorado com o título de “Herói da União Soviética”, cosmonauta Gueórgui Grechko falou à Gazeta Russa sobre concorrência com os norte-americanos e os problemas atualmente enfrentados pelo setor espacial russo.

Em 12 de abril de 1961, o cosmonauta soviético Iúri Gagárin fez o primeiro voo espacial tripulado na história da humanidade e, desde então, passou-se a celebrar o Dia da Cosmonáutica nessa data.

Na época em que isso ocorreu, a União Soviética e os EUA travavam uma competição espacial acirrada, que se prolongou por muito tempo. Nos últimos meses, porém, a indústria espacial russa se viu envolvida tanto em sucessos como fracassos.

Para rever o passado e analisar o presente do setor espacial russo, a Gazeta Russa conversou com o cosmonauta Gueórgui Grechko, duas vezes condecorado com o título de “Herói da União Soviética”.

A corrida espacial entre a URSS e os EUA era uma espécie de Guerra Fria no espaço?

Não sei como os políticos entendiam a competição espacial entre as duas potências. Nós, cosmonautas e pessoal técnico, não encarávamos os americanos como inimigos. Para nós, eles eram colegas, tínhamos uma causa comum e enfrentávamos perigos comuns, além dos projetos conjuntos como a missão Soiuz-Apollo. Contávamos com o profissionalismo uns dos outros, e não com os políticos. Para nós, a política estava em último lugar.

A União Soviética era líder em quase todos os aspectos da exploração espacial e obteve grandes conquistas. Foi, por exemplo, a primeira do mundo a lançar um satélite artificial e a realizar um voo espacial tripulado.No entanto, apesar de a União Soviética ter sido a primeira a alcançar a órbita da Lua, os EUA  foram os primeiros a pisar no solo lunar. Por que isso aconteceu?

Naquela época, a cibernética era vista na União Soviética como pseudociência, estranha à ideologia oficial. Por isso, os cientistas da computação eram perseguidos no país por motivos ideológicos, embora projetos cibernéticos fossem muito importantes para otimizar a direção das espaçonaves. 

Em uma mostra, tive a oportunidade de comparar equipamentos soviéticos e norte-americanos. Os equipamentos fabricados pelos EUA tinham um tamanho muito menor, enquanto nosso equipamento era tão grande que simplesmente não cabia na nave lunar. Estávamos atrasados em relação aos EUA nessa corrida. Enquanto eles estavam prestes a desembarcar na Lua, nós só podíamos nos satisfazer em dar uma volta em torno dela e retornar à Terra. 

Nosso programa lunar foi encerrado por não ter mais sentido depois que os eles desembarcaram na Lua, embora todo o pessoal envolvido em nosso projeto pensasse que deveríamos ir à Lua para adquirir uma experiência valiosa e testar novas tecnologias.  

Como a morte do [diretor-geral do programa espacial soviético Serguêi] Korolev influenciou o desenvolvimento do setor espacial do país?

Korolev era um homem capaz de unir todos. Tinha uma autoridade tão grande que todos os engenheiros, projetistas e cientistas reputados trabalhavam sob sua direção como única equipe.

Quando [o presidente norte-americano John] Kennedy tomou posse, ele sugeriu que os dois países colaborassem na exploração do espaço. Você acha que a União Soviética teve razão em rejeitar essa proposta?

Se naquela época as potencialidades dos dois países fossem mais ou menos iguais, a União Soviética teria, talvez, aceitado a proposta dos EUA. Mas como estávamos muito à frente dos EUA, o então líder soviético Nikita Khruschov não quis dividir nossas conquistas com eles. Com o tempo, os EUA tomaram a dianteira e também não quiseram dividir suas conquistas conosco. De um modo geral, acredito que os projetos espaciais devem ser concretizados em conjunto e que um voo a Marte deve ser realizado internacionalmente.

Portanto, podemos dizer que a missão Soiuz-Apollo foi um avanço nas relações entre os dois países?

Sem dúvida. Esse projeto não só foi um avanço na exploração espacial, mas também uma etapa muito importante no desenvolvimento das relações bilaterais. Os líderes e pessoas comuns dos dois países disseram que, uma vez que estávamos colaborando no espaço, por que não poderíamos colaborar na Terra? Essa missão foi muito importante e mudou a mentalidade das pessoas, o que é muito mais difícil do que alterar o desenho de um foguete.

O que você tem a dizer sobre os problemas atualmente enfrentados pelo setor espacial nacional?

As reformas destruíram nosso setor espacial.  O setor espacial não é do tipo que dá lucros rápidos. Muitos profissionais experientes foram demitidos e, em seu lugar, foram contratados especialistas jovens que tiveram de começar tudo do início. Agora, eles chegaram a uma fase em que estávamos nos anos 1950 e 60. Seus melhores indicadores são iguais aos que tivemos nos piores tempos de nosso setor espacial. Talvez, em 10 ou 15 anos, eles consigam atingir um patamar adequado a nossas potencialidades, mas onde estarão nossos concorrentes?

No Dia da Cosmonáutica, Pútin falou muito sobre a necessidade de impulsionar o setor espacial e prometeu liberar avultadas verbas. Você acha que isso trará resultados?

Tenho 80 anos e posso dizer que todos os anos os líderes do país dizem a mesma coisa. Após o lançamento do primeiro satélite artificial, o então líder soviético Nikita Khruschov chamou Serguêi Korolev e lhe disse: “Em um mês, você tem que construir algo novo”. Korolev respondeu que nem tudo dependia dele e de seu pessoal, e que o processo envolvia também outros ministérios que nem sempre seguiam o cronograma de obras. Então Khruschov respondeu: “Vamos lhe conceder um gabinete no Kremlin para você pode comandar todos os ministérios”. 

E agora? Será que o presidente da agência espacial russa Roscosmos, Vladímir Popóvkin, pode dar indicações a ministros, oligarcas etc? Antes, o setor espacial nacional era uma locomotiva de muitas outras indústrias, empregando uma grande quantidade de engenheiros e operários altamente qualificados, além de cientistas geniais. Hoje em dia, nossos profissionais experientes não são tratados da forma devida aqui e acabam indo parar na Nasa. Por mais que os líderes do país falem sobre a necessidade de desenvolver o setor espacial nacional, não é fácil transformar suas palavras em atos práticos.

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