Os prós e os contras da diplomacia digital

Foto: Kommersant

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Segundo Hillary Clinton, a diplomacia digital pode ser qualificada como “poder inteligente” em contrapartida às iniciativas militares e humanitárias.

De acordo com os analistas políticos, uma das inovações mais notáveis ​​na política externa dos EUA durante o primeiro mandato de Barack Obama foi a chamada diplomacia digital, que permitiu aos titulares de altos cargos públicos estabelecer contato direto com milhões de pessoas por meio das redes sociais.

Quando Hillary Clinton foi colocada à frente do departamento de Estado dos EUA, em 2009, a diplomacia norte-americana possuía apenas uma página oficial na rede. Em compensação, ao assumir o mesmo cargo em 2013, John Kerry deparou-se com mais de 200 contas a diplomacia norte-americana no Twitter, além de outras 300 páginas no Facebook e representações virtuais no YouTube, Tumbar e Flickr, em 11 idiomas.

O sistema é atualmente coordenado por 150 funcionários do departamento de Estado em Washington e 900 funcionários das missões norte-americanas no exterior. Cerca de 20 milhões de pessoas são assinantes de contas e blogs do departamento de Estado dos EUA.

O exemplo da diplomacia norte-americana contagiou as estruturas responsáveis pelas relações exteriores de muitos outros países, sobretudo na Europa. O maior sucesso foi alcançado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros da Suécia, Carl Bildt, que possui cerca de 190 mil seguidores no Twitter, e pelo chanceler britânico, William Hague, com mais de 130 mil seguidores nesse mesmo microblog.

Como era de se esperar, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia também se juntou à iniciativa e inventou um termo para próprio para se referir à diplomacia digital. Por “diplomacia inovadora”, o órgão anunciou a implantação de “um instrumento da política externa da Rússia destinado a influenciar a opinião pública por meio de tecnologias de informação e comunicação”. Consequentemente, a diplomacia russa possui, hoje em dia, cerca de 70 contas oficiais no Twitter, sendo a mais popular @MID_RF, que conta com cerca de 65 mil seguidores.

Os discursos, declarações e comentários à imprensa feitos pelo chanceler russo Serguêi Lavrov estão disponíveis na página oficial do Ministério das Relações Exteriores no YouTube e, desde fevereiro passado, também no Facebook. Em um futuro próximo, a diplomacia russa promete ainda atualizar seu site oficial.

Esses são indícios claros de que Moscou deposita grandes esperanças na nova ferramenta. O conceito atualizado de política externa da Rússia, sancionado pelo presidente Vladímir Pútin em fevereiro passado, aponta que as “possibilidades de novas tecnologias de informação e comunicação serão amplamente utilizadas para criar uma imagem positiva da Rússia no mundo” . A ideia é também desenvolver seus próprios meios de informação para influenciar a opinião pública no exterior.

Intriga on-line

Apesar dos benefícios da diplomacia virtual, Moscou ainda encara a internet e as redes sociais como uma potencial fonte de ameaças à estabilidade e soberania nacional.

Segundo o diretor da revista norte-americana “The Atlantic”, Brian Fung, esse tipo de iniciativa é também favorável para os outros países, pois facilita a coleta de informações e aumenta a influência sobre a opinião pública em outras localidades, especialmente em meio a batalhas diplomáticas.

Por esse motivo, Fung acredita que as redes sociais ainda são mais prejudiciais do que úteis à diplomacia. “Nas primeiras horas de protesto de egípcios contra o lançamento do filme anti-islâmico ‘Inocência dos Muçulmanos’, a embaixada dos EUA no Cairo publicava no Twitter mensagens de apoio à obra não coordenadas com Washington. Isso gerou problemas adicionais para os EUA”, disse o especialista.

Em uma mesa-redonda recente sobre diplomacia digital, realizada em Washington, o vice-presidente da Fundação Carnegie, Tom Carver, também citou dois outros exemplos de mau uso do Twitter por diplomatas norte-americanos.

O primeiro caso ocorreu quando o embaixador dos EUA na Rússia, Michael McFaul, publicou no Twitter sobre as manifestações da oposição russa, e o segundo, quando embaixador dos EUA na Síria, Robert Ford, foi expulso do país depois de postar um comentário sobre a revolta popular na região. “A diplomacia digital é uma faca de dois gumes”, advertiu Carver.

Ranking da diplomacia digital

Em 2012, a agência de notícias francesa AFP divulgou o primeiro ranking da história sobre o desempenho dos Estados em termos de diplomacia digital. A classificação levou em conta a atuação dos líderes e diplomatas em redes sociais, bem como o número de seguidores. Como era de esperar, o 1º lugar entre os 151 países analisados no estudo ficou com os EUA. Entre os dez primeiros, estão também Turquia, Egito, Arábia Saudita, Venezuela, México, Índia, Reino Unido, Colômbia e Japão. A Rússia ocupou a 13ª posição.

 

Publicado originalmente pelo Kopmmersant-Vlast 

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