Brasil no Brics: saída, inércia ou reajuste?

Ilustração: Dmítri Dívin

Ilustração: Dmítri Dívin

Chances de que a nova liderança no Brasil refreie projetos de integração no âmbito do Brics e esfrie relações com a Rússia são elevadas, mas não podem ser dadas como certas.

O governo interino de Michel Temer pode se tornar, em teoria, um fator negativo para a tendência de integração no Brics e um elemento conflitante no relacionamento especial, meticulosamente construído ao longo dos últimos anos, entre o Brasil e a Rússia.

Os simpatizantes de teorias da conspiração em Moscou buscam vestígios de um complô dos Estados Unidos para derrubar Dilma Rousseff. E, para isso, certamente encontram inspiração nos grupos militares e ditadores pró-EUA que governaram o Brasil há mais de 20 anos, de 1964 a 1985.

Também podem alegar que o objetivo real do afastamento de Dilma da presidência era minar o Brics como um todo, uma vez que Rússia e China são formalmente listados como ameaças à segurança nacional por Washington.

Ou, talvez, ainda citem o analista independente Pepe Escobar, segundo o qual “há mais de dois anos os analistas do JP Morgan já estavam realizando seminários com agentes adeptos de uma macroeconomia neoliberal, pregando como desestabilizar o governo Dilma”.

Se se tratou de um plano elaborado ou não, realmente não vem ao caso aqui. Discutir se Temer foi informante da embaixada dos Estados Unidos em 2006, quando era deputado federal, como exposto pelo Wikileaks, também é irrelevante. As credenciais conservadoras do advogado de 75 anos e seu histórico na política são prova suficiente de que a alteração da política externa brasileira é iminente. A questão crucial seria: quão longe essas mudanças podem chegar?

Saída do Brics

É muito improvável que esta opção seja considerada aceitável. Um movimento drástico desses seria visto como um sinal de subserviência à agenda geopolítica de terceiros. Além disso, seria uma jogada arriscada em uma nação amplamente dividida que Temer promete unir novamente.

Parece mais previsível que o novo presidente pró-Washington não participe na íntegra dos vários projetos que estimulam uma maior integração entre os Brics. O novo presidente poderia, como exemplo mais notável, recuar na participação no Banco de Desenvolvimento dos Brics, que, apesar de seu modesto fundo de reserva de US$ 100 bilhões (mais US$ 100 bilhões adicionais), representa a iniciativa de criar uma arquitetura financeira global não supervisionada pelos EUA.

O Brasil pode acabar fazendo o papel do Reino Unido na União Europeia: Londres é conhecida por ser mais susceptível aos interesses dos Estados Unidos e da aliança anglo-saxônica e menos cooperativa com os vizinhos continentais.

Mas isso dependerá se o Brasil aceitará o papel de confidente e vassalo dos Estados Unidos, seguindo os passos de Washington em sintonia integral. Não se pode dar isso como certo.

Pêndulo político

As elites políticas de esquerda no Brasil foram duramente atingidas pela saída de Lula e Rousseff do palco central. Mas qualquer observador escrupuloso dos espirais da história concorda que crises e reviravoltas tendem a se repetir. No momento, parece que o pêndulo está, por um tempo, pesando mais para o lado conservador.

Nesse sentido, o economista argentino Claudio Katz está, bem provavelmente, correto. Em primeiro lugar, ele destaca que o “ciclo progressista surgiu em rebeliões populares que derrubaram governos neoliberais (Venezuela, Bolívia, Equador, Argentina) ou corroeram sua continuidade (Brasil, Uruguai)”. Mas Katz suspeita que este capítulo se encerrou e pergunta-se: “teria o ciclo progressista da América do Sul chegado ao fim?”.

Se Temer tornar o Brasil refém de maiores empréstimos de instituições financeiras internacionais, reverter as realizações sociais dos governos de esquerda de Lula e Rousseff, que conseguiram tirar em torno de 30% da população da pobreza, e equilibrar o orçamento pelo corte de gastos públicos em saúde e educação, o pêndulo social irá inexoravelmente oscilar na direção oposta.

Parceria além de siglas

Portanto, se tivesse que escolher qual das três correntes de grandes desafios atuais do Brasil estão ameaçando mais as relações bilaterais com a Rússia – a guinada pró-Ocidente do presidente Temer, o desempenho econômico da 7ª maior economia do mundo ou o vírus da zika no país –, os dois últimos teriam a minha preferência. Por quê?

À parte de convicções pessoais e conexões ocultas do presidente interino Michel Temer, não há razão para suspeitar que ele vá agir de maneira contrária aos interesses nacionais de seu país. Não apostar todas as fichas no mesmo cavalo é um dos princípios de uma política externa sensata.

Além disso, em virtude da tensão e do estresse da guerra psicológica lançada contra a Rússia pelo Ocidente, Moscou aprendeu a manter contatos viáveis, mesmo com adversários e parceiros hostis. O Kremlin poderia, com certeza, estabelecer um modus operandi aceitável com Temer, ainda que ele opte por alienar o Brasil no âmbito do Brics.

Por fim, seguir contra a maré, contra a tendência do mundo multipolar e o surgimento de uma aliança não ocidental, embora não antiocidental, como o Brics, é, no mínimo, contraproducente.

Acredito que o Brasil não vá deixar nem congelar sua participação no Brics, mas reajustar suas atividades tornando-as mais moderadas e menos agressivas aos interesses das multinacionais e, indiretamente, dos Estados Unidos.

Vladímir Mikheev é um jornalista moscovita. Foi repórter do jornal Izvêstia e colaborador da BBC.

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