Brics e o braço de ferro político

Vladímir Pútin (Rússia), Narendra Modi (Índia), Dilma Rousseff (Brasil), Xi Jinping (China) e Jacob Zuma (África do Sul) na cúpula do Brics em 2015

Vladímir Pútin (Rússia), Narendra Modi (Índia), Dilma Rousseff (Brasil), Xi Jinping (China) e Jacob Zuma (África do Sul) na cúpula do Brics em 2015

brics2015.ru
Em artigo recente, o jornal ‘Financial Times’ previu a morte iminente do Brics, com gigantes das commodities como Rússia e Brasil sendo superados por economias emergentes focadas em tecnologia. Afinal, existe futuro para o grupo, ou será que as mudanças econômicas globais o substituirão por outros blocos, como os TICKs?

A Rússia foi nitidamente excluída da lista de 12 países que compõem o novo acordo de livre comércio Parceria Transpacífico (TPP), assinado em Auckland, na Nova Zelândia, no início de fevereiro.  Dias antes, um artigo do jornal inglês “Financial Times” sugeriu a morte dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), prevendo que o grupo seria em breve substituído por um novo conjunto de países apelidados de TICKs, representando Taiwan, Índia, China e Coreia do Sul.

Seria este um reflexo da hierarquia econômica em constante transformação, deixando a Rússia, se o “Financial Times” estiver certo, às margens da evolução tecnológica e dos fluxos de investimento globais? Alarme falso.

A Rússia, ainda sob sanções dos EUA e da UE, já não tinha chance de entrar no novo TPP, que compreende Estados Unidos, Japão, Malásia, Vietnã, Singapura, Brunei, Austrália, Nova Zelândia, Canadá, México, Chile e Peru.  Além disso, embora os 12 países representem cerca de 40% da economia mundial, outras “locomotivas regionais” também ficaram de fora, entre elas China, Coreia do Sul e Indonésia.

Como o projeto se opõe à insistência de Moscou no “fair play” e em posições de igualdade na geoeconomia, é difícil imaginar ainda que a Rússia aderisse a um bloco comercial mais parecido com a encarnação da visão do “excepcionalismo” norte-americano antes sugerida pelo presidente Barack Obama. “O TPP permite aos Estados Unidos – e não países como a China – a escrever as regras no século 21”, disse Obama, em uma declaração que evidencia o interesse nacional por trás do acordo.

Junto com os demais países do Brics, a Rússia enxerga as ações unilaterais como a antítese de uma ordem mundial multipolar por razões ideológicas e prefere inclinar-se em direção a uma aliança comercial com a China, por exemplo. Mesmo porque Pequim nunca exigiu nenhuma “mudança de regime” em Moscou ou correções nas políticas interna e externa da Rússia como condição prévia para a parceria.

A situação explorada pelo “Financial Times” de que o Brics estaria em frangalhos se baseia nas estatísticas de “recessões cada vez mais profundas no Brasil e na Rússia” –  fatos indiscutíveis, assim como as preferências registradas por investidores estrangeiros, que agora estão se movem em direção a setores de alta tecnologia lucrativos em outras economias emergentes. A conclusão do jornal de que o movimento hi-tech de Taiwan e da Coreia do Sul estaria acotovelando as economias do Brasil e Rússia, baseadas em matéria-prima, poderia muito bem ser uma correta avaliação do cenário atual.

No entanto, o autor do artigo, Steve Johnson, admite que “uma pergunta não respondida é se esta tendência reflete uma mudança estrutural subjacente ou se é puramente cíclica”. Assim, uma vez que o próprio FT dá como incerta a validade de seu argumento principal, o veredito final que os “Brics estão mortos” também está sujeito a dúvidas. Apesar da busca pela objetividade, depois de o jornal financeiro japonês Nikkei ter adquirido o FT, a seção Brics foi removida, enquanto os artigos que tratam do desempenho econômico e financeiro da China, principal rival do Japão na região, ganharam conotações emocionais, indicando um desejo implícito de enterrar o Brics.

Unindo as peças como um Lego, os quatro países do TICKs não irão constituir uma aliança formal, especialmente se considerarmos que Taiwan ainda é visto em Pequim como uma “província rebelde e separatista” da China. No entanto, deve-se ter em mente que o Brics também não é uma aliança.

Faz sentido, portanto, concordar com o observador russo Aleksandr Savtchenko, que se refere ao Brics como uma “agenda”. De certo modo, essa ideia também ecoa o ponto de vista do analista Daniel Chardell, do Programa de Instituições Internacionais e Governança Global no Conselho de Relações Exteriores, sobre o grupo.

“O desempenho econômico desigual dos Brics nos últimos anos lançou dúvidas sobre a relevância do grupo. Mas seria um erro enxergar os Brics apenas através das lentes dos indicadores econômicos”, escreveu Chardell à revista norte-americana “The National Interest”.

Em termos gerais, as opiniões de Savtchenko e Chardell se sobrepõem, já que ambos aceitam o Brics como o pilar dessas nações que alimentam esperanças sobre a reforma da estrutura econômica global. Essa “agenda” acrescentou legitimidade ao Brics depois do despertar da crise financeira, encarada por muitos analistas como uma crise estrutural do atual modelo de mercado global. Desde então, segundo Chardell, os países do Brics “ganharam um impulso político”.

Além disso, sob a pressão do ambiente de baixos preços nos mercados globais de commodities, a Rússia foi acordada abruptamente para a necessidade de reformular sua economia e reduzir a dependência das receitas provenientes da exportação de petróleo e de gás. Chegou-se a um consenso, enfim.

É verdade também que o ritmo das reformas tem sido lento. Mas, sem alternativa para sobrevivência em um mundo cada vez mais competitivo e fragmentando em blocos econômicos, a Rússia irá inevitavelmente optar por prosseguir com uma economia baseada em inovação, conhecimento e tecnologia de ponta.

O foco, conforme proclamado pelas autoridades, seria capitalizar sobre setores “campeões que fabricam produtos de valor agregado”, como geração de energia nuclear, e design e produção de aeronaves e veículos espaciais, bem como identificar áreas promissoras como a biotecnologia e a fabricação de materiais capazes de mudar o futuro da indústria transformadora e robótica. Isso tudo sem se esquecer do setor mais dinâmico da economia: o de serviços.

Quanto ao Brics, em uma perspectiva de longo prazo, a aliança informal irá perseverar não somente para extrair os benefícios da cooperação internacional, mas também servirá de seguro para que ninguém tente buscar o caminho para fugir dos atuais problemas econômicos globais no pior cenário possível: armadilhas do comércio ou guerras cambiais que se transformem em hostilidades reais.

Até certo ponto, o Brics já foi incorporado ao sistema de freios e contrapesos da ordem mundial existente. Por isso, a discrepância atual – e certamente temporária – no desempenho econômico de seus cinco membros é irrelevante para a credibilidade e perspectivas do grupo.

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