Quem pode o mais, pode o menos

Na Rússia, a produção atual é dominada por estatais, com Rosneft e Gazprom à frente Foto: AP

Na Rússia, a produção atual é dominada por estatais, com Rosneft e Gazprom à frente Foto: AP

História brasileira de exploração petrolífera não se compara à russa ou à norte-americana, mas, segundo autor, deve superar obstáculos atuais.

Petrolíferas estatais como Pemex, Qatar Petroleum, Saudi Aramco, Sonangol, PDVSA, NIOC, Sonatrach e Kuwait Petroleum Corporation já nasceram em plena produção, a partir da nacionalização de ativos de companhias privadas estrangeiras em operação em seus respectivos países.

Estatais com esse perfil respondem, atualmente, por grande parte da produção e das reservas globais de hidrocarbonetos. Não constituem, porém, exemplos relevantes de pioneirismo tecnológico ou empresarial, já que suas origens remontam a articulações políticas bem-sucedidas. 

Na Rússia, a produção atual é também dominada por estatais, com Rosneft e Gazprom à frente, mas a história é outra. Entre a década de 1880 até a Revolução de 1917, o Império Russo foi o primeiro produtor mundial de petróleo e gás, respondendo por metade da produção global, com produção nas regiões de Baku (atual capital do Azerbaijão) e do Cáucaso.

Em 1920, I. M. Gubkin, considerado o “pai” da geologia do petróleo russa, disse pessoalmente a Lênin que o flanco ocidental dos Urais tinha grande potencial petrolífero. Mas foi só a partir de 1929, quando uma empresa de perfuração, procurando potássio, achou acidentalmente petróleo nos Urais, é que a região se tornou foco de exploração sistemática.

Nas três décadas seguintes, mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, foram incorporadas três novas regiões à indústria petrolífera: Volga-Urais, Sibéria Ocidental e Timan-Pechora. Nos anos 1960, foi a vez da Sibéria Oriental (que não apresentou os resultados espetaculares da Ocidental) e, nos 1970, das Ilhas Sacalinas, no Pacífico, e dos mares de Barents e Kara, no Ártico.

Contrapartida brasileira

No Brasil, a Petrobras foi criada em 1953, com o monopólio da exploração, produção, transporte e refino de petróleo e gás. Suas primeiras descobertas foram decepcionantes, mas, a partir dos anos 1970, descobriu e passou a explorar grandes reservas de óleo e gás no mar (Bacia de Campos e, mais recentemente, do Espírito Santo e de Santos), processo que culminou na presente epopeia do Pré-Sal e, de certa forma, desestimulou a exploração em terra (esta teve algum êxito apenas no Recôncavo Baiano e em pequena parte da Bacia do Solimões; na última década, a empresa privada Petra Energia incorporou a Bacia do Parnaíba ao mapa produtivo nacional).

Não se pode, portanto, igualar a Petrobras a uma estatal com o DNA marcado pela expropriação de ativos de terceiros. Os ativos produtivos (também os de transporte, refino e distribuição) da Petrobras foram construídos por brasileiros a partir do nada.

Sempre houve cooperação tecnológica da Petrobras com outros países, como Estados Unidos e Noruega, mas a tecnologia necessária para explorar petróleo e gás “offshore” na Bacia de Campos, em águas rasas e depois profundas, foi basicamente desenvolvida pela própria Petrobras, que veio quebrando sucessivos recordes mundiais de exploração em águas cada vez mais profundas.

Hoje, a produção de petróleo no Brasil (basicamente da Petrobras) é de aproximadamente 2,6 milhões de barris/dia, enquanto a da Rússia ultrapassa 10 milhões. O Brasil está entre os doze primeiros produtores mundiais, devendo melhorar de posição quando o Pré-Sal estiver em plena atividade.

A história da Petrobras, embora não seja equivalente, em termos de empreendedorismo (já que foi uma iniciativa estatal, tendo seu risco inicial bancado pelos impostos cobrados de milhões de brasileiros e protegido pelo monopólio), à história do petróleo nos EUA ou na Rússia, é ainda assim passível de admiração e orgulho.

Por isso, não tenho dúvidas quanto à capacidade da Petrobras de superar suas atuais dificuldades financeiras, judiciais e também as relacionadas a seu plano de investimento no Pré-Sal.

Aqui, vale o truísmo do Direito “quem pode o mais, pode o menos”. Quem pode construir uma indústria produtora de 2,6 milhões de b/d e reservas provadas de aproximadamente 20 bilhões de BOE (barril de óleo equivalente), sem contar boa parte do Pré-Sal, pode superar uma crise de endividamento e de governança corporativa.

Da mesma forma, no caso russo, um país que pôs de pé a segunda maior indústria petrolífera do mundo (depois dos EUA) vai superar os desafios tecnológicos e financeiros ligados às atuais sanções ocidentais.

Nossa perspectiva aqui é empresarial, não política ou diplomática. Brasil, Rússia, EUA, Reino Unido, Noruega, França, Itália e China, entre outros países, fazem parte da indústria global do petróleo na qualidade de pioneiros tecnológicos em suas respectivas regiões, alcançando as soluções locais necessárias para explorar e produzir.

O exemplo recente do “shale gas” (gás de xisto) é mais uma mostra de que as previsões de viés malthusiano de recursos naturais finitos (a começar pelo próprio Thomas Malthus no final do século 18) são sempre refutadas pelo avanço tecnológico. Ou, como se diz em Wall Street, nunca aposte contra a criatividade humana. 

 

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