De Meca para o mundo

Na Rússia, cerca de 10% da população é muçulmana, datando do século 8 o início da presença islâmica em território russo Foto: PhotoXPress

Na Rússia, cerca de 10% da população é muçulmana, datando do século 8 o início da presença islâmica em território russo Foto: PhotoXPress

Política está arraigada na origem do Islã, segunda maior religião do mundo à qual 10% da população russa é adepta.

Estava em Chambéry com a família, no sopé dos Alpes franceses, quando vi na TV a notícia do atentado ao semanário Charlie Hebdo. Nosso retorno estava previsto para aquele dia 7 e assim se deu. Já em Moscou, continuei acompanhando o assunto pela imprensa. Por curiosidade, pesquisei sobre a história do Islã, tema que eu desconhecia. Como carioca educado em escola católica, conheço a história do Cristianismo, incluindo o pouco que se sabe sobre Jesus Cristo.

Achei interessante e útil o que li sobre o Islã, por isso compartilho aqui um resumo (e, desde já, peço paciência e compreensão aos iniciados no tema). Os muçulmanos creem que o Alcorão ou Corão é a palavra de Deus revelada ao profeta Maomé pelo anjo Gabriel ao longo de 23 anos, entre 609 d.C. - quando Maomé tinha 40 anos - e 632 d.C. O Islã é uma religião monoteísta e, a partir do Corão, define regras para as relações sociais, interpessoais e familiares, incluindo o Direito Islâmico ou Charia. Maomé é considerado o último profeta, tendo sido precedido por outros, como Adão, Noé, Abraão, Moisés e Jesus.  

Maomé foi, além de profeta, líder político. Em 622, ele teria sido obrigado a abandonar Meca devido a sua pregação religiosa, tendo se mudado para Yathrib (atual Medina), onde se tornou chefe da primeira comunidade muçulmana. Após longa guerra entre Meca e Medina, com vitória dos muçulmanos, Maomé derrotou também as demais tribos da Arábia, logrando unificar, em vida, praticamente toda a região sob o signo de uma nova religião e lançando as bases de um futuro império islâmico que se estendeu da Pérsia (atual Irã) à Península Ibérica.  

A biografia de Maomé é bem mais rica do que isso. Ressaltei sua dimensão política para contrastar com a pregação essencialmente espiritual e focada na esfera privada de Jesus Cristo. A doutrina cristã teve cunho reformista em relação ao Judaísmo da época (Jesus, em momento algum, renega sua condição de judeu), sobretudo ao enfatizar a universalidade da Palavra de Deus e da Salvação, em oposição à noção judaica de Povo Escolhido. Séculos após a crucificação, o Cristianismo virou religião oficial do Império Romano e foi, mais tarde, utilizado como ideologia política pela Igreja Católica e por diversos Estados europeus, mas, ao contrário do Islã, não tem a política em seu DNA.

No Brasil, país majoritariamente cristão, temos pouco acesso à cultura islâmica. Na escola, estudamos a Reconquista da Península Ibérica por reinos cristãos, região que foi ocupada por muçulmanos provenientes do norte da África (mouros) entre os séculos 8 e 15. Ao visitar a Andaluzia, no sul da Espanha, sobretudo as ruínas do Alhambra, complexo de palácios que abrigava a corte do Reino de Granada, tive uma visão clara da grandeza da civilização islâmica que vicejou na península (chamada de Al-Andalus pelos árabes). Aliás, os mouros tentaram em vão cruzar os Pirineus para ocupar parte do que é hoje a França, tendo sido repelidos pelos francos.

Meu primeiro contato com a cultura muçulmana ibérica foi através do conto de Jorge L. Borges intitulado “La busca de Averroes”. Averróis foi um filósofo e médico nascido no Califado de Córdoba, famoso por seus comentários sobre a obra de Aristóteles. Escreveu em árabe e foi traduzido inicialmente para hebraico e latim, tendo influenciado a filosofia europeia da Idade Média, a começar por São Tomás de Aquino.

Na Rússia

Na Rússia, cerca de 10% da população é muçulmana, datando do século 8 o início da presença islâmica em território russo. O primeiro Estado muçulmano na região foi o Volga-Bulgária, que existiu entre os séculos 8 e 13. Tanto no Império Russo, quanto na ex-URSS, a política estatal referente aos muçulmanos incluiu repressão político-religiosa e deslocamento de populações. Na Rússia atual, há muçulmanos por todo o país, em particular no Cáucaso, na região do Cáspio e em Moscou, onde há cerca de 2 milhões de muçulmanos residentes, além de milhares de trabalhadores migrantes. 

A religião islâmica é a segunda mais numerosa do planeta depois da cristã, com 1,5 bilhão de fiéis concentrados sobretudo na Ásia (63% do total) e África. Os árabes perfazem 20% do total de muçulmanos atualmente. No Brasil, apenas 0,1% da população ou cerca de 200 mil pessoas se declaram muçulmanas. Na França, são quase 5 milhões ou 8% da população.

Há atualmente vários Estados laicos que contêm minorias muçulmanas. Tem havido também, talvez devido a um viés anti-islâmico de parte da mídia internacional, um fluxo constante de notícias sobre conflitos entre integrantes dessas minorias e o poder dominante. Como vimos, há um ingrediente político original no Islã. Em que medida isso vai influir na evolução da comunidade muçulmana francesa, em particular em sua relação com um Estado laico que incorpora valores político-sociais da tradição ocidental? Uma pergunta que deixo em aberto, por demandar análise que ultrapassa o escopo deste artigo.

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