Do pobre escrivão ao poderoso chanceler

Ilustração de Akáki Akákievitch, protagonista de “O capote” Foto: Libre de droit

Ilustração de Akáki Akákievitch, protagonista de “O capote” Foto: Libre de droit

Que tal uma espiadinha naquela “variedade de departamentos, chancelarias e regimentos” de que fala Gógol em “O capote” e de que falam os grandes nomes da literatura russa do século 19 em várias de suas obras?

Encontraremos lá uma série de personagens famosos. O escrevente Akáki Akákievitch (O capote), sempre “no mesmo lugar, na mesma posição e no mesmo cargo”, tão zeloso de seu ofício que, se “fosse condecorado de acordo com o empenho que demonstrava, talvez, para sua própria surpresa, chegasse até mesmo ao cargo de conselheiro de Estado; porém, como diziam seus colegas trocistas, ganhou um laço no pescoço e hemorróidas nos fundilhos”. O general civil Brizjalov perseguido pelo oficial de justiça Ivan DmítritchTcherviakóv  (“A morte do funcionário”), atormentado pela obrigação de pedir desculpas ao superior hierárquico, sobre quem espirrara, casualmente, na platéia do teatro. O conselheiro titular Makár Diévuchkin (Gente pobre), que, na repartição onde trabalha, fica “sentado como um ursinho, como um pardal depenado”, consumido de vergonha porque a sua “roupa deixa à mostra seus cotovelos nus e está com os botões pendendo da linha”...

No passeio pelos vários escalões da hierarquia do funcionalismo tsarista, nosso guia será Iúri Fiedociuk, autor do livro “O que não se entende nos clássicos ou Enciclopédia da vida russa no século 19”. No capítulo VI, ele explica tudo sobre os funcionários ou burocratas, os tchinóvniki, aqueles que possuíam um tchin: ordem, patente, grau ou título especialmente concedido pelo governo.

Em 1722, o tsar Pedro I, o Grande, criou a primeira tabela de classificação dos tchinovniki, dividida em três grupos – militares, civis e palacianos. Com algumas modificações ao longo do tempo, ela perdurou até 1917, quando foi abolida por um decreto do Comitê Central do novo governo. Pertencer à classe dos tchinovniki significava ter certo grau de liberdade, uma vida mais abastada, uma carreira progressiva e, para alguns, até a ascensão à nobreza. A todas as categorias, inclusive à mais baixa, concediam-se direitos especiais. Estavam livres, por exemplo, das penas de açoitamento aplicadas com frequência pela justiça.

Na base da hierarquia, ficava o copista, responsável por passar rascunhos a limpo. Em “O idiota”, o general Iepántchin surpreende-se com os conhecimentos do príncipe Míchkin: “Então sabe ler e consegue escrever corretamente? [...] Isso é que é modelo de caligrafia! E de uma caligrafia rara! [...] nisso aqui há uma carreira.” De fato, uma boa letra era o principal requisito para ingresso na função de copista; a burocracia estatal consumia grande número deles. Acima dos copistas, estavam os funcionários que redigiam documentos: além de dominar a arte da caligrafia, deviam conhecer bem a gramática e escrever corretamente.

A partir daí, o funcionário já possuía um tchin ou título, embora, na maioria das vezes, o nome do cargo nada tivesse a ver com a realidade do trabalho. O registrador não registrava, o conselheiro não aconselhava... Apenas homens podiam ingressar nas 14 classes da carreira burocrática, portanto, a funcionária, conselheira ou assessora era a esposa desses tchinóvniki. Para cada categoria previa-se uma forma oficial de tratamento.

Categoria

Título

 Tratamento

I

kantsliér

visokoprievosrrodítielstvo

II

deistvítielni táini soviétnik

visokoprievosrrodítielstvo

III

táini soviétnik

prievosrrodítielstvo

IV

dieistvítielni státski soviétnik

prievosrodítielstvo

V

státski soviétnik

visokoblagoródie

VI

kolliéjski soviétnik

visokoblagoródie

VII

nadvórni soviétnik

visokoblagoródie

VIII

kolliéjski asiéssor

visokoblagoródie

IX

tituliárni soviétnik

blagoródie

X

kolliéjski siecrietár

blagoródie

XI e XII

gubiérnski siecrietár

blagoródie

XIII e XIV

kolliéjski rieguistrátor

blagoródie

Na literatura russa publicada no Brasil, encontramos várias soluções de tradução em português para todos esses títulos e formas de tratatamento. Em contos de Anton Tchékhov, Boris Schnaiderman usa “Vossa Nobreza” (IX a XIV), “Vossa Alta Nobreza” (V a VIII), “conselheiro-titular” (IX), “conselheiro-civil” (V), “assessor-colegial” (VIII). Em novelas de Nikolai Gógol, Paulo Bezerra usa “conselheiro titular” (IX), “conselheiro de Estado” (V), “conselheiro de Corte” (VII), “registrador de colégio” (XIV), “assessor de colegiado” (VIII). Ambos comentam em notas que os títulos da hierarquia do funcionalismo civil correspondiam aos graus da carreira militar e, por isso, os burocratas às vezes eram chamados, por exemplo, de general.

Sugestão de leituras

A dama do cachorrinho, de Anton Tchékhov. Trad. Boris Schnaiderman. Editora 34

Gente pobre, de Fiódor Dostoiévski. Trad. Fátima Bianchi. Editora 34.

O beijo e outras histórias, de Anton Tchékhov. Trad. Boris Schnaiderman. Editora 34.

O capotee outras histórias, de Nikolai Gógol. Trad. Paulo Bezerra. Editora 34.

O idiota, de Fiódor Dostoiévski. Trad. Paulo Bezerra. Editora 34.

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