Colônia em Primavera do Leste (MT) preserva tradições da Rússia antiga

Foto: Sasha Yakovleva

Foto: Sasha Yakovleva

Blogueira russa visitou vilarejo que abriga a colônia russa mais tradicional do Brasil.

Passando de carro pelas ruazinhas tortas de barro vermelho, eu via casas pequenas e coloridas, algumas com a típica cruz ortodoxa no topo, outras com janelas que tinham molduras artesanais. “Ei! Tem alguém em casa? Estamos procurando uma colônia russa!”, gritou minha colega, baixando o vidro do carro e parando em frente a uma das casinhas.

Uma moça de vestido longo e colorido, vestido por cima de uma blusa bordada e com um lenço na cabeça, apareceu na porta. “É a colônia russa sim! Só que somos divididos em várias partes, acredito que a pessoa que vocês estão procurando mora do outro lado do campo de soja”, exclamou. Para minha surpresa, mesmo parecendo uma Alionushka (personagem folclórico russo) do século 18, ela falava um português perfeito, com um leve sotaque. Eu não estava acreditando: depois de três horas de voo e cinco horas dentro de um carro, finalmente chegamos à colônia russa mais tradicional do Brasil e, provavelmente, a mais afastada da Rússia, em Primavera do Leste, no estado do Mato Grosso.

Alionushkas da vida real:

Eu tentando parecer uma Alionushka moderna Foto: Sasha Yakovleva

Meninas russas colhem mangas e abacates mesmo na chuva

Foto: Sasha Yakovleva

Dobro Pojalovat’! (Bem-vindos!)

Construção de tijolo vermelho onde funciona a igreja Ortodoxa

Dentro de casa, os russos têm duas coisas muito necessárias para um lar: um gato e uma rede

É um lugar russo que não tem absolutamente nada a ver com a Rússia, tirando o povo, que fala a mesma língua (de um jeito arcaico, mas fala). Os jardins não têm maçãs ou cerejas, mas estão cheios de mangas, chuchu e abacate. O clima é muito quente e bastante úmido! Os animais e insetos são muito exóticos não só para um russo, mas para qualquer brasileiro que mora distante da natureza. Gritei de alegria quando, em cima de minha cabeça, passou um casal de araras vermelhas, e de dor quando fui picada pelos mosquitos da região. Mas seus moradores amam esse “paraíso escondido”, como é conhecido o vilarejo.

Esse besourinho também existe na Rússia.

O pôr do sol em Primavera do Leste é tão imponente quanto o da Rússia. Fiquei hipnotizada!

Foto: Sasha Yakovleva

A colônia russa é um vilarejo no meio do nada…

Abacate é algo bem exótico para um russo, mas o povo daqui come todo dia!

“A nossa colônia, nasceu mais ou menos em 1950…”, começou o “líder”, Larion Ovchinnikov. “Na época da revolução, em 1917, nossos bisavós fugiram da Rússia para a China, perseguidos por bolcheviques (comunistas) que queriam roubar as terras e destruir a nossa religião. De lá, cada família tomou um rumo diferente… Muitos foram para o Canadá, Estados Unidos, Argentina, Chile… Mas, claro, quem mudou para o Brasil, se deu melhor!”, conta aos risos.

Segundo Ovchinnikov, os moradores da colônia não podem casar com ninguém da mesma família até a sétima geração. “Assim diz a nossa religião cristã ortodoxa”, afirma. Portanto, quando os meninos e as meninas alcançam a idade de casar, normalmente aos 15 ou 16 anos, os pais os enviam para colônias russas em outros países ou convidam os russos desses lugares para visitar a colônia, para que os jovens possam se conhecer melhor e começar um namoro.

As famílias dos russos de Primavera do Leste são bem grandes. Ali, ter quatro filhos é considerado pouco. Quando eu contei isso para uma amiga russa que mora em São Paulo, ela me respondeu: “Se eu tivesse uma vida tranquila assim, longe da loucura da cidade grande, eu também me dedicaria aos filhos, e teria uns 10!”. Bom, ela tem razão. A correria da cidade grande, estudos e emprego não ajudam nem a encontrar um namorado, imagine criar uma família?

Outra coisa interessante é que esses russos, que também são chamados de staroveri (aqueles que seguem a religião antiga), não vivem em 2014. Para eles, agora é o ano de 7523. As datas também são diferentes, pois conta-se 13 dias para trás. Por exemplo, se hoje é dia 30 de janeiro, para eles é dia 17. Isso porque enquanto o mundo inteiro usa o calendário Gregoriano, eles decidiram continuar seguindo o calendário da Rússia antiga, o Juliano. Justamente por isso, o Natal na Rússia até hoje é comemorado no dia 7 de janeiro e o Ano-Novo é celebrado duas vezes – no dia 31 de dezembro (versão moderna) e no dia 13 de janeiro (versão antiga).

O calendário dos staroveri também mostra os pratos que você pode comer no dia a dia, de acordo com a religião

Tive a chance de visitar a escola onde estudam os pequenos russos e também pequenos brasileiros. Sim, a escola de lá é misturada. Por isso a criançada desde cedo já aprende a falar duas línguas: português e russo. Em algumas casas, as crianças também são incentivadas a falar grego, por causa das preces da Igreja Ortodoxa, que todos devem saber de cor.

Foto: Sasha Yakovleva

Estar na escola com as crianças foi a melhor experiência durante minha estadia na colônia

Quando entrei na escola, me surpreendi porque os russos não entendiam o simples cumprimento “privet!”, que na Rússia significa “oi!” e é falado em todos os lugares. Em vez disso, eles me falavam: “zdarova!”, um tipo de cumprimento bem pouco usado na Rússia. As roupinhas das crianças eram tão fofas! Todas bordadas e coloridas à moda antiga. Queria abraçar todos os pequeninos que corriam pela escola e escalavam as árvores do quintal. Amei seus nomes também! Descobri que quando uma criança nasce na colônia ela recebe o nome do santo do dia em que nasceu. Normalmente são nomes bem antigos, como Virinia, Pelagieya, Andron e Aftonom, mas eu os acho lindos. Sei que na Rússia, as pessoas religiosas fazem de modo diferente: eles registram um nome (mais moderno) do filho na certidão de nascimento e na hora de batizar pedem para o padre se referir ao bebê por outro nome, que realmente bate com o santo do dia em que a criança nasceu. Esse nome é registrado apenas na certidão de batismo e é como se fosse o nome do seu anjo da guarda.

Fiquei na escola por um tempo observando as atividades do dia a dia das crianças e adolescentes. Tomei coragem e comecei a falar com eles em russo, perguntado como está a vida na escola e quais são os planos para as férias. A coisa mais linda foi vê-los rindo da minha cara, porque não esperavam que alguém com roupas do século 21 pudesse falar com eles na língua materna. “Ela fala russo! Você acredita?”, sussurravam cabecinhas brancas. Na hora em que eles perceberam que sou uma russa de verdade, vinda de fora de Primavera do Leste, e não alguém quem saiu de uma máquina do tempo, choveram perguntas como “Você já viu neve?”, “Já andou no gelo?”, “Do que as crianças brincam na Rússia?”…

As crianças da colônia russa não param quietas: pulam corda, correm, jogam bola…

Senti um doce aperto no coração. Essas crianças são tão russas, mas nunca viveram a realidade que eu vivi e que milhões de outras crianças estão vivendo neste momento. Decidi que quando viajar para a Rússia da próxima vez, vou contar para a criançada de lá que em algum lugar muito, muito longe existe um país chamado Brasil onde moram meninos e meninas muito parecidos com eles que também falam russo e brincam de esconde-esconde e gato mia. Porém essas crianças, também russas, nunca andaram de sanki (trenó), não sabem como é divertido fazer um boneco de neve e ao invés de maçã ou pera, levam uma manga suculenta como lanche para a escola. Será que eles vão acreditar na minha história? Porque até eu, se não tivesse visto tudo isso com meus próprios olhos, iria desconfiar da existência de um povo russo tão tradicional em um lugar totalmente diferente da Rússia.

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