Mãe, desculpa… Nasci assim

Na foto, a modelo Natalia e sua irmã Oksana se divertem durante as férias em sua cidade natal, Níjni Novgorod.

Na foto, a modelo Natalia e sua irmã Oksana se divertem durante as férias em sua cidade natal, Níjni Novgorod.

Não são todos os russos que têm o pensamento nazista de “eliminar os fracos e doentes” caso seus filhos nasçam com algum problema. Mas será que eles são a maioria?

Quando estava em Odessa [cidade costeira ucraniana situada às margens do Mar Negro], em julho deste ano, reencontrei-me com duas amigas minhas da infância. Uma estava grávida e a outra queria engravidar o mais rápido possível. Ambas têm 24 anos.

Chamei as duas para minha casa, para tomar um chazinho (de samovar, claro), acompanhado de bombons e bolachas, e falar da vida. E nossa conversa foi longe. Talvez longe pra mim, mas não pra elas (rs). Acabamos só falando sobre gravidez e filhos.

Contei para as amigas que pretendo ter um filho lá por volta dos 35 anos porque acho que isso é uma responsabilidade imensa. Quero viajar, focar na carreira, escrever um livro…Quero viver a minha vida primeiro, antes de dar vida a alguém. E claro que elas não entenderam o meu pensamento. Acharam que sou uma egoísta! Mas eu já sabia que seria assim e, por isso, ignorei os comentários. Em vez disso, mudei de assunto e revelei que sou a favor da adoção. “Eu adotaria um filho! Por que não?”, joguei na cara delas. “Tem tantas crianças que precisam de um lar, uma família!”

Elas me encararam de uma maneira tão estranha que parecia que eu havia falado alguma besteira. “Adotar? Sasha, você entende o que você está dizendo?”, uma delas me perguntou. “Pensa na genética dessa criança que estava em orfanato? Os pais biológicos dela provavelmente eram drogados ou bandidos! Quer criar mais um no mundo?”, completou a outra de maneira agressiva. Juro que naquela hora pensei em largar a minha caneca de chá e me servir algo mais forte para me acalmar. Levantei-me e disse: “Gente, se tudo fosse pela genética, eu estaria ferrada faz tempo! Alguns parentes meus são alcoólatras, usuários de drogas e prisioneiros. E nem por isso eu tomei o mesmo caminho. Pelo contrário, o lado negro da minha família me ajudou a entender desde cedo o que era bom e o que era ruim. Os valores e ideais que eu tenho hoje não vieram com a genética, mas foram adquiridos com as experiências da vida”.

Enquanto eu falava, as meninas continuaram tomando chá totalmente caladas. Gostaria que elas me entendessem. Depois de uma longa pausa, continuamos a conversa. “Vou fazer o meu ultrassom na semana que vem!”, falou uma das amigas. “Pra saber o sexo do bebê?”, questionei. “Não, pra saber se a criança tem a possibilidade de nascer com síndrome de Down!”, rebateu ela. “Mas… e se tiver?”, perguntei um pouco surpresa. “Uai, se tiver, vou abortar, lógico!”, respondeu minha amiga. “Eu também abortaria!”, acrescentou a outra. “Prolongar a vida de doente? Para quê? E outra coisa, que homem vai querer ficar com uma mulher que lhe deu um filho deficiente? Você já pensou nisso, Sasha?”

Dessa vez quem ficou quieta fui eu. Depois de tudo isso que ouvi, pensei que era melhor não falar mais nada. Não adianta. A cultura de todos os países da ex-União Soviética é assim. É menos sensível, é mais obsoleta e mais ignorante.

“Mas será que realmente a maioria das pessoas tem esse pensamento?”, comecei a pensar comigo mesma. Já no Brasil, li uma entrevista da supermodelo russa, Natalia Vodianova. Em uma das perguntas, ela conta a história de Oksana, sua irmã deficiente. A modelo diz que o dia que a irmã nasceu, os próprios médicos insistiram para que a mãe deixasse a filha “ruim” no hospital. E o pai, quando soube da situação da criança, abandonou a família. “Foi muito difícil para a nossa mãe superar o preconceito das pessoas, que toda hora diziam como ela foi burra por não deixar minha irmã num orfanato, e questionavam como ela podia sacrificar a própria vida desse jeito”, conta a modelo na entrevista. “Ela sofreu muito, mas nunca, nunca mesmo, pensou em voltar no tempo e se livrar da Oksana. Para minha mãe, era a coisa mais natural do mundo aceitar, amar e criar o bebê que veio dela.”

Depois que terminei de ler a entrevista, entendi que não são todos os russos que têm esse pensamento nazista de “eliminar os fracos e os doentes”. Realmente, tem gente que sabe dar valor a vida e não se importa em dividir o amor com todo mundo e não somente com os que estão “dentro do padrão”. Mas será que eles são a maioria?

“Te amo muito irmã, viu?”. 

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