A grande jornada de Anton Tchekhov: de 1890 ao século 21

Ilha Sacalina Foto: Andrêi Chapran

Ilha Sacalina Foto: Andrêi Chapran

Tarefa cumprida. Se pudesse ler a matéria “Reservas de petróleo promovem releitura da Sakhalin de Tchekhov”, publicada na Gazeta Russa no último 22 de julho, o escritor russo ficaria satisfeito. Afinal, ele enfrentou meses de preparação e leitura, meses de viagem em trens, seges, balsas e navios, anos de elaboração do texto (publicado em 1895) justamente para apresentar à sociedade russa um retrato fundamentado da colônia de degredo e trabalhos foçados mantida pelo governo tsarista na ilha Sacalina.

Para explicar as condições atuais da Sacalina, situada no extremo leste da Rússia, ao norte do Japão, Ajay Kamalakaran tomou o livro de Anton Pávlovitch Tchekhov (1860-1904) como referência, traçando um paralelo entre as impressões do escritor-pequisador e o rumo do desenvolvimento da região em nossos dias. Nada melhor para comprovar a atualidade das mais de trezentas páginas de Ilha Sacalina.

A obra de gênero híbrido, resultante de uma equilibrada combinação de trabalho jornalístico, científico e literário, surpreende o leitor habituado à concisão dos contos de Tchekhov. Há nela grande riqueza de detalhes estatísticos, geográficos e históricos sobre os povoados visitados pelo escritor. Ao lado da profusão de informações demográficas, destacam-se a sensibilidade e o rigor estilístico do autor que produziu passagens e, às vezes até capítulos inteiros, de narrativas essencialmente literárias, em que o tratamento da linguagem supera o elemento factual.

Vale a pena espiar alguns trechos:

“Em cinco de julho de 1890, num vapor, cheguei à cidade de Nikoláievsk, um dos pontos mais orientais da nossa pátria. Ali o rio Amur é bem largo, até o mar restam apenas 27 verstas. O lugar é grandioso e belo, mas as lembranças do passado dessa região, as histórias contadas pelos companheiros de viagem sobre os invernos medonhos e os não menos medonhos costumes locais, a proximidade da colônia de trabalhos forçados e até a própria visão da cidade abandonada e agonizante acabam completamente com qualquer desejo de apreciar a paisagem.” (Capítulo 1)

“Quinta linha: idade. As mulheres que já passaram dos quarenta, pouco se lembram dos seus anos e ficam pensando antes de responder. Os armênios da província de Erivan não fazem ideia da própria idade. Um deles respondeu assim: ‘Acho que uns trinta, mas também pode ser cinquenta’. Nesses casos, fui obrigado a calcular uma idade aproximada, a olho, para depois confirmá-la na lista oficial..” (Capítulo 3)

“O riacho Arkai desemboca no estreito da Tartária, umas oito a dez verstas ao norte do Duika. Até pouco tempo, era um rio de verdade, nele pescavam salmão; agora, no entanto, em decorrência de incêndios nos bosques e derrubadas de árvores, baixou de nível e seca completamente já pouco antes do verão. Por outro lado, na época de chuvas fortes, transborda como na primavera, rebelde e barulhento, e então dá sinal de si. Mais de uma vez já aconteceu de arrasar com suas águas as hortas das margens, levando o feno e toda a colheita para o mar. Resguardar-se dessa desgraça é impossível, pois, neste vale estreito, para fugir do rio, só subindo as montanhas”. (Capítulo 8)

“Enquanto eu percorria as isbás de Palevo, um carcereiro, ex-degredado, natural de Pskov. seguia-me sem se distanciar. Vem-me à lembrança que lhe perguntei: hoje é quarta ou quinta? Ele respondeu:

– Não estou conseguindo me lembrar, vossa excelência.” (Capítulo 10)

 “No posto de Korsakov, as mulheres recém-chegadas também são instaladas em uma barraca especial. O administrador da região e o carcereiro-chefe do povoado decidem juntos quais degredados e camponeses merecem receber uma mulher. Dão preferência aos que já se instalaram, aos que gostam da vida doméstica e têm bom comportamento. A esses poucos escolhidos é enviada uma ordem para que compareçam tal dia e tal hora ao posto, à prisão, para receber as mulheres.” (Capítulo 16)

“A colônia é chamada de correcional, mas, na Sacalina, não há instalações nem pessoas que possam se ocupar especialmente da correção dos criminosos. Também não há nenhuma instrução e nenhum artigo no ‘Estatuto dos degredados’ a esse respeito, a não ser indicações sobre em que casos um oficial da escolta ou um sargento pode fazer uso da arma contra um degredado ou quando um sacerdote deve ‘dar um sermão sobre as obrigações da fé e da moral’ [...].” (Capítulo 19)

“O carrasco fica de lado e bate de tal modo, que o açoite corta o corpo na transversal. A cada cinco vergastadas, ele muda, lentamente, para o outro lado, permitindo um descanso de meio minuto. Os cabelos de Prokhorov grudam-se na testa, o pescoço incha; após cinco a dez golpes, o corpo, coberto de vergões dos açoites anteriores, torna-se rubro e azulado; a superfície da pele abre-se a cada golpe.” (Capítulo 21)

“O clima rigoroso, todo tipo de privação suportada durante os trabalhos forçados, as fugas e o encarceramento em solitárias, a vida agitada nas celas comuns, a insuficiência de gordura na alimentação, a saudade da terra natal – eis as principais causas da tísica na Sacalina.” (Capítulo 23)

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