O amor na pena dos russos

Turguêniev (1818-1883) retratado por Repin.

Turguêniev (1818-1883) retratado por Repin.

“Minha impressão é que tenho amado sempre”, escreve Mário de Andrade no relato do primeiro amor da vida de Juca, narrador e personagem do conto “Vestida de Preto”. A verdade é que todos temos amado sempre e a constante presença do amor na literatura reflete isso. Nas obras russas, não faltam exemplos clássicos.

São muitos os contos russos que tratam do amor em suas diferentes acepções, como sinônimo de atração sexual, relação amorosa, afeição devotada, amizade, comunhão íntima, compaixão, fascínio, entusiasmo, interesse, dedicação... Em algumas obras, o amor é o tema central; em outras, a sua representação é tão singular que, mesmo secundária, chama a atenção e encanta. “Mumu”, de Ivan Serguêievitch Turguêniev (1818-1883), exemplifica esse último tipo. 

O título do conto é o nome dado pelo servo Guerássim a uma cadelinha que se debatia na margem lodosa do rio Moscou. Surdo-mudo de nascença, mas fisicamente comparado a um bogatyr (herói alto, forte e corajoso dos contos maravilhosos russos), Guerássim levava uma vida simples e solitária num vilarejo, onde fazia sozinho o trabalho de quatro camponeses. Transferido para Moscou por sua senhora, uma viúva rica e cheia de caprichos, ele custa a se acostumar ao cotidiano da criadagem doméstica. No novo lar, em vez do trabalho camponês árduo e prolongado, “todas as suas obrigações consistiam em manter o pátio limpo, encher e transportar o barril de água duas vezes ao dia, carregar e rachar montes de lenha para a cozinha e a casa, além de não permitir a entrada de estranhos e montar vigia à noite”.

Contraposta ao desprendimento e à simplicidade de Guerássim, a personagem da senhora, cercada de grande número de criados prontos a satisfazer todos os seus caprichos, é um modelo de despotismo e arbitrariedade. O zelo excessivo e atemorizado dos serviçais está comicamente retratado no poético desenho animado “Mumu” (1987), dirigido por Valentin Karaváev. Vale a pena assistir esses 18 minutos baseados no conto de Turguêniev:

No início, Karaváev apresenta a criadagem numa operação de guerra para matar a mosca que perturbara a sua senhora. Em seguida, surgem Guerássim e a sua amada, a lavadeira Tatiana.

“No início, Guerássim nem prestou atenção nela, depois começou a sorrir quando ela aparecia à sua frente, depois passou a espreitá-la e, finalmente, não tirava mais os olhos dela. Estava apaixonado: talvez pela dócil expressão do rosto, talvez pela timidez dos movimentos, sabe lá Deus por quê!” Mas o pobre Guerássim perde a sua amada para Kapitón, um sapateiro beberrão que se casa com Tatiana por ordem da senhora.

Passado um ano, o casal é mandado para uma aldeia distante e Guerássim, tristonho, vai caminhando lentamente pela margem seca do rio Moscou, quando encontra uma cadelinha à beira da morte. Ele salva o animalzinho e dedica-lhe todo o seu amor. “Guerássim entrou em seu quartinho, colocou a cadelinha sobre a cama, cobriu-a com o casaco de lã comprido e pesado, correu primeiro à estrebaria em busca de palha, depois à cozinha para pegar uma xícara de leite.” Assim como cuidara de Tatiana, protegendo-a das brincadeiras maldosas dos outros criados, ele cuidou de Mumu, até que...

Bem, o melhor é ler o conto inteiro. Este resumo despretensioso só teve a intenção de destacar o amor singelo, puro e devotado de Guerássim por Tatiana e Mumu.

 

“Mumu” em português

O relógio e Mumu. Adaptação em português de Tatiana Belinky. Editora Scipione.

 

Outras leituras

Várias obras de Turguêniev foram traduzidas para o português, as mais recentes diretamente do russo. Vão aqui três sugestões.

Rúdin. Tradução de Fátima Bianchi. Editora 34

Pais e filhos. Tradução de Rubens Figueiredo. Editora Cosac Naify.

Primeiro amor. Tradução de Tatiana Belinky. Editora L&PM.

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