Por que o ‘novo’ Brasil e a Rússia estão fadados à parceria

Pútin (dir) e Temer durante reunião no Kremlin em 2011

Pútin (dir) e Temer durante reunião no Kremlin em 2011

AP
Histórico diplomático mostra que relações independem de ‘cor’ do governo.

A dramática substituição do mais alto escalão de poder no Brasil terá um impacto significativo não só sobre as políticas internas, mas também sobre a política externa do maior país da América Latina.

No decorrer dos próximos dois anos que faltam para as eleições presidenciais, Michel Temer terá que resolver, em primeiro lugar, as complexas questões nacionais herdadas dos governos de esquerda, primeiro o de Luiz Inácio Lula da Silva e, em seguida, o de Dilma Rousseff.

Ambos fizeram muito em benefício das camadas mais pobres da população, mas, ao mesmo tempo, e quase que inevitavelmente, pioraram a condição dos ‘livros contábeis’ do Estado.

No entanto, o papel cada vez mais ativo desempenhado pelo país-continente sul-americano na arena internacional irá obrigar o Itamaraty a, no mínimo, não reduzir o ritmo de atividade nos principais seguimentos.

Isso se refere não só aos vetores tão tradicionais da diplomacia brasileira, como América Latina e Estados Unidos, mas também à cooperação no âmbito do Brics e na busca comum de construir um mundo multipolar.

No atual contexto de crise econômica global, queda dos preços do petróleo e de outras matérias-primas, ascensão do terrorismo internacional e instabilidade política em muitas regiões do planeta, a influência desse grupo só tende a aumentar.

Pela lógica, visando os interesses de ambos os países, a parceria entre Brasília e Moscou também deve se desenvolver. Ao longo dos últimos 15 anos, aproximadamente, as relações bilaterais se desenvolveram sobre uma sólida base comercial e econômica que é complementada pela cooperação no campo da alta tecnologia, incluindo os setores de energia, espaço, telecomunicações e militar.

Um dos frutos dessa cooperação foi, por exemplo, a permanência do primeiro astronauta brasileiro em órbita ao redor da Terra (em 2006, Marcos Cesar Pontes viajou até a Estação Espacial Internacional em uma missão que durou 10 dias).

Bom, mas pode ser melhor

O presidente russo Vladímir Pútin fez uma visita ao Brasil em 2014, e, no ano seguinte, os líderes dos dois países assinaram um acordo de parceria estratégica em Moscou que, desde então, confere uma importância política especial para as relações bilaterais. Em 2010, passou a vigorar o regime de isenção de visto entre os dois países, embora seja preciso reconhecer que o intercâmbio de turistas, por enquanto, não é grande.

Uma etapa mais ampla de cooperação em muitas áreas está delineada nos acordos firmados pelos respectivos chefes de Estado em julho de 2014, em Fortaleza, à margem da cúpula do Brics.

Comparadas com as relações entre Brasil e União Soviética, que em sua maioria possuíam caráter formal e basicamente se limitavam ao comércio de petróleo e produtos agropecuários, as estáveis relações do Brasil com a Rússia moderna apresentam melhorias significativas.

Seu potencial, no entanto, ainda está longe de ser plenamente aproveitado, fato que é reconhecido de modo autocrítico dos dois lados do Atlântico. A experiência de cooperação acumulada pelos dois gigantes pode e deve ser propagada em novas esferas de interesses mútuos.

Os brasileiros possuem know-how avançado, especialmente em agropecuária, indústria automotiva, e extração de petróleo e gás natural em águas profundas. Mas também existem muitas coisas úteis que eles podem aprender com os russos.

É lastimável que, no momento, muito pouco seja feito em áreas tão importantes como investimentos mútuos, cooperação entre grandes universidades e intercâmbio cultural. Hoje em dia, pelo menos, toca-se com frequência música brasileira nas rádios russas (o autor destas linhas se orgulha do fato de que, no programa de rádio “Globo Musical”, ainda no distante ano de 1980, apresentou aos ouvintes soviéticos pela primeira vez o trabalho de Beth Carvalho, Alcione, Chico Buarque, Gilberto Gil, Roberto Carlos e outros cantores populares daquela época. E a repercussão entre o público soviético foi enorme!).

Por outro lado, pouco se conhece na Rússia sobre o teatro, o cinema e a pintura produzida no Brasil – também a arquitetura, na qualidade de legado do grande Niemayer, merece um olhar mais atento. Os dois países tem ainda o que compartilhar na área dos esportes. Na Rússia ainda não foi esquecida, e até hoje é apreciada, a posição do Brasil há 36 anos de se recusar a participar do boicote à Olimpíada de Moscou, apesar da forte pressão de Washington.

Nem mesmo a enorme distância que separa os nossos países impediu que trocassem missões diplomáticas ainda no ano de 1828. 

Política da paz

Um conservadorismo saudável distingue, por tradição, a política externa do Brasil. O Itamaraty persegue de forma metódica seus objetivos prioritários, quase que independentemente da “cor” do governo que se encontra no poder. Dentre esses objetivos os mais importantes são a paz, o desenvolvimento e a cooperação, que coincidem com o slogan inscrito na bandeira nacional: “Ordem e Progresso”.

Mantendo-se fiéis a uma política externa em prol de interesses nacionais, os profissionais que trabalhavam no austero Palácio rodeado por um espelho d'água procuraram encontrar possíveis pontos de convergência com as posições de Moscou até mesmo durante a Guerra Fria.

Segundo o ex-ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, um diplomata brilhante com quem tive a oportunidade de me relacionar durante os briefings diários, ainda na época em que ele era assessor de imprensa desse órgão, “a parceria entre a Rússia e o Brasil tende a se desenvolver no âmbito político da coordenação de esforços em resposta a desafios como a necessidade de desarmamento, reforma e fortalecimento do papel da ONU, luta contra o terrorismo e o crime organizado e, acima de tudo, consolidação da paz, da democracia e do respeito pelos direitos humanos”. Hoje isso parece ainda mais relevante.

Em sua busca por um lugar na ONU na qualidade de membro permanente do seu Conselho de Segurança, por exemplo, Brasília está contando com forte apoio de Moscou.

Além disso, em relação à maioria dos mais importantes problemas da atualidade, os interesses geopolíticos da Rússia e do Brasil coincidem ou estão próximos, devido a uma série de circunstâncias objetivas.

Os turbulentos eventos que aconteceram no mundo nos últimos anos apenas reiteraram a importância da cooperação entre os dois países-continentes na arena internacional, tanto em nível bilateral, quanto no âmbito do Brics. A este respeito, é igualmente importante o fato de que para a Rússia o Brasil foi e continua sendo um “interlocutor privilegiado” na América Latina.

Guennádi Petrov é ex-chefe do escritório da agência de notícias TASS em Brasil, Cuba e Portugal.

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