Paraná participará de criação de cadeia produtiva na Crimeia

Aumento e diversificação de trocas comerciais agrícolas são esperados

Aumento e diversificação de trocas comerciais agrícolas são esperados

Reuters
Instalação de plantas com envolvimento de empresas brasileiras pode abrir portas para o mercado russo. Modelo de parceria poderá ser empregado em outros países do Brics.

O projeto Tavrida, que pressupõe a criação de cadeias produtivas na Crimeia com a participação de empresas do setor do agronegócio do Estado do Paraná, vem mobilizando nos últimos meses autoridades e empresários dos dois países. A expectativa é que empresários e autoridades crimeanas e russas viajem ao Paraná em setembro para viabilizar os respectivos acordos.

“A designação da Crimeia como zona franca abriu grandes perspectivas de negócios para ambas as partes”, explica Rubens Gennaro, presidente do Ibrics (Instituto Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul de incentivo a Indústria, ao Comércio, a Ciência e a Cultura), uma iniciativa de acadêmicos e empresários dos países-membros com o objetivo de “gerar prosperidade entre os povos do Brics”.

“O Ibrics tomou a iniciativa de fazer a ponte entre a Crimeia e o Paraná para estreitar as distâncias e abrir as negociações, não esquecendo que essa região brasileira também pode vir a ser a porta de entrada aos produtos paranaenses na Rússia”, acrescenta Gennaro. O projeto Tavrida nasceu sob os auspícios do Brics, em julho de 2015.

Do lado brasileiro, já estão envolvidos no projeto Tavrida (palavra grega para denominar a Crimeia) a Agência Paraná de Desenvolvimento, o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul-BRDE, o Sistema OCEPAR (Organização das Cooperativas do Paraná), a Federação da Agricultura do Estado do Paraná-FAEP, a empresa GCE do Brasil e a LAZ Audiovisual, além de empresários.

“Pretendemos estabelecer uma via de mão dupla entre as nações, onde, além de oferecer carnes, grãos e demais produtos agroindustrializados, possamos também importar fertilizantes e tecnologia de produção de alimentos, entre outros”, afirma o engenheiro agrônomo José Roberto Ricken, presidente do Sistema OCEPAR.

Trata-se também de uma oportunidade para as cooperativas ampliarem sua participação no exterior, segundo Ricken.

“O Paraná é o Estado brasileiro com maior representatividade no agronegócio e no segmento cooperativista. Independentemente do momento desfavorável vivido pelos mercados russos (embargos comerciais, conflitos e queda do preço do petróleo), é uma oportunidade a ser explorada”, concorda o economista Gilmar Mendes Lourenço,  mestre em Gestão de Negócio e professor do curso de Economia da FAE Business School, em Curitiba.

O governo do Paraná está criando um grupo de trabalho para agilizar a sua participação no projeto Tavrida. “A ideia também é de organizar uma missão empresarial para conhecer in loco, ainda neste ano, as áreas na Crimeia onde poderão ser montados os centros de processamento e distribuição dos nossos produtos agroindustrializados”, diz o deputado estadual Reinhold Stephanes Júnior.

Aumento de exportações

Apesar da queda dos preços do petróleo e do gás ter reflexo negativo no poder de compras da Rússia no mercado externo, economistas consultados pela Gazeta Russa foram taxativos ao considerar o país como uma grande oportunidade para o agronegócio brasileiro não só a curto, como a longo prazo.

“Mesmo estando em baixa os valores de dois importantes itens da exportação russa, considero a Rússia detentora de um grande potencial para vir a consumir boa parcela dos produtos gerados pelo agronegócio do Brasil”, afirma Marcelo Luiz Curado, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

“Classifico a Rússia como um mercado importante tanto pelo seu tamanho como também pelo fato de possuir uma economia de escala”, acrescenta Curado.

As exportações de produtos agrícolas do Estado do Paraná bateram recorde nos primeiros quatro meses de 2016. De janeiro a abril deste ano foram exportadas 8,51 milhões de toneladas, o que representa um aumento de 43% em relação ao registrado no mesmo período em 2015. Os dados são do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, divulgados em maio, e foram compilados em levantamento da Federação da Agricultura do Paraná (Faep).

Assim como ocorreu com os embarques agrícolas de todo o Brasil no período, a soja foi quem teve a maior participação no volume de exportações do Paraná no período. Em seguida vieram as carnes – principal produto brasileiro procurado pelo mercado russo –, com aumento de 22% nas exportações.

A China é o principal parceiro econômico do Brasil, seguido por EUA, Argentina, Holanda e Alemanha. A Rússia ocupa o 31° lugar na lista, segundo dados divulgados pelo governo brasileiro.

Porta para a Rússia

A balança comercial do agronegócio brasileiro encerrou 2015 com US$ 88,2 bilhões em exportações. O montante caiu 8,8% em relação aos US$ 96,7 bilhões exportados em 2014 devido à desaceleração da economia chinesa. A redução deve-se também à queda dos preços das principais commodities agrícolas vendidas pelo Brasil, como soja e carne.

“Se levarmos em conta que o principal parceiro comercial do Brasil, a China, está com desaceleração na economia prevista para os próximos anos, a busca de novos mercados se torna imperativa”, afirma Curado, da UFPR.

“Vejo iniciativas como a do Tavrida – criando pontes entre a economia da Crimeia com a do Paraná – com otimismo. Não se trata de uma simples relação comercial, mas de uma parceria estável de médio e longo prazo”, continua. “É um modelo que pode ser empregado com êxito em outros países.”

A criação de cadeias produtivas ligando, sem intermediários, o produto agroindustrial paranaense aos consumidores da Crimeia e da Rússia também é vista por Dmítri Lobkov, vice-presidente do Ibrics, como um modelo de parceria estratégica aplicável a outros países-membros do grupo. 

“Não se trata da venda pura e simples de produtos, mas de as empresas e cooperativas paranaenses instalarem suas próprias plantas industriais na Crimeia e a partir dali distribuir seus produtos não somente para aquela região, como também para as demais regiões da Rússia”, explica Lobkov, que participou no ano passado das primeiras negociações do projeto Tavrida, em Moscou. 

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