Como ficaria Moscou sem Dilma?

Ilustração: Dmítri Dívin

Ilustração: Dmítri Dívin

Com possível afastamento da presidente Dilma Rousseff, acadêmico traça perspectivas para as relações Brasil-Rússia.

A política externa brasileira passou a ter, a partir do Barão do Rio Branco (ministro das Relações Exteriores entre 1902 e 1912 e maior expoente da diplomacia brasileira), três orientações básicas: a política da boa vizinhança, a prioridade dada às relações com Washington - em um período histórico ainda sob a “Pax Britannica” no qual ainda não era evidente que o século 20 seria dominado pelos EUA - e o apoio ao primado do Direito Internacional sobre as relações de força.

Nessa linha, o Brasil deu prioridade à Organização das Nações Unidas desde sua fundação em 1945, bem como à Organização Mundial do Comércio (em sua formação inicial, em 1947, como GATT, ou “General Agreement on Tariffs and Trade”).

Nas décadas de 1970 e, sobretudo, de 1980, uma quarta orientação básica foi adicionada à política externa brasileira: a promoção das exportações.

Isso derivou do acelerado processo de industrialização brasileiro a partir da década de 1960, pois antes o país exportava basicamente commodities: café, açúcar e outros.

E a Rússia?

Nessas quatro orientações, onde se encaixa a relação atual com a Rússia? Em primeiro lugar, na de promoção comercial.

As exportações brasileiras para a Rússia situam-se na faixa dos US$ 4 bilhões anuais, e os principais produtos enviados são carnes (bovina, suína e de frango), café, soja e derivados, açúcar e tabaco.

A Rússia é uma das dez maiores economias do planeta, com potencial para absorver ainda mais produtos e serviços brasileiros.

Empresas como a Rosneft (petróleo e gás) e a Miratorg (alimentos) também já investiram no Brasil, sendo ainda enorme o potencial de investimentos de outros grupos russos no país.

Mas, além da promoção comercial, há o grupo dos Brics, que virou uma das prioridades da política externa do Brasil - e que inclui a Rússia.

Ainda é cedo para saber se ele veio para ficar ou se é modismo com prazo de validade reduzido. Seja como for, o Brics reflete a transição de um mundo unipolar (centrado nos EUA) para o multipolar, em que alguns grandes países, incluindo os Brics, deverão ter crescente influência nos assuntos regionais e globais.

A importância que o Brasil confere ao Brics se deve, portanto, ao fato de se tratar do primeiro clube com protagonismo global do qual é sócio- fundador e parceiro em igualdade de condições.

Isso não acontece, por exemplo, na ONU, onde o Brasil não é membro permanente do Conselho de Segurança. Tampouco no Fundo Monetário Internacional, onde o poder de voto do país é muito inferior ao das potências ocidentais, sobretudo os EUA.

Dito isso, a pergunta inicial deste artigo fica já encaminhada. A promoção comercial com a Rússia continuará, sem dúvida, em qualquer novo governo que venha, porventura, a assumir o Brasil.

A prioridade dada aos Brics deve permanecer também, a não ser que a agenda do grupo passe a confrontar abertamente os EUA - algo improvável, já que China e Índia têm parcerias econômicas essenciais com Washington.

Por fim, as relações políticas com a Rússia sempre foram cordiais e positivas - desde o Império, por exemplo, quando D. Pedro II visitou São Petersburgo, em 1876.

Durante a Guerra Fria, o Brasil manteve-se relativamente neutro quanto à disputa Leste-Oeste e teve um diálogo fluido com Moscou.

E nos últimos vinte anos de pós-Guerra Fria, o relacionamento político bilateral estreitou-se cada vez mais.

Portanto, em caso de afastamento da atual presidente, substituída por seu vice, que já visitou Moscou diversas vezes, ou mesmo por algum político de oposição, a relação do Brasil com a Rússia deverá manter sua orientação atual, que historicamente veio sendo pautada por interesses de Estado.

Alexandre Massi é professor de Relações Internacionais.

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