Funcionário do Cern comenta possível entrada da Rússia no centro

Foto: public.web.cern.ch

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Em entrevista à Gazeta.ru, Tadeusz Kurtyka explicou o significado da possível entrada do país no centro.

No final do ano passado, a Rússia formalizou seu pedido de filiação ao Cern (Centro Europeu de Investigação Nuclear), em Genebra, na Suíça.

Em entrevista à “Gazeta.ru”, Tadeusz Kurtyka, funcionário do departamento de relações internacionais do Cern designado para contatos sobre as questões relativas à cooperação com a Rússia, explicou o significado da possível entrada do país no centro.

Gazeta.ru:Qual a relação atual da Rússia com o Cern?

Tadeusz Kurtyka:  A Rússia tem cerca de 50 anos de cooperação com o Cern. Atualmente, o país possui status de observador: o representante russo está sempre presente nas reuniões do conselho do centro, que agrupa 20 países membros e "dois membros associados a caminho de se tornar membros plenos" (Sérvia e Israel).

Eles contribuem para o orçamento da organização e participam de licitações.

Os países não membros, incluindo a Rússia, mantêm cooperação com o Cern.

O Cern é uma organização focada sobretudo em experiências na área de física de partículas, inclusive aquelas no LHC (Grande Colisor de Hádrons). As experiências são realizadas por colaborações internacionais (comunidades científicas reunidas para a solução de um determinado problema científico).

Essas comunidades estabelecem suas próprias regras financeiras e possuem seus próprios orçamentos. No passado, os fornecimentos de equipamentos da Rússia eram regulamentados pelos acordos assinados entre a Rússia e o Cern no início dos anos 1990.

Assim foi construído o LHC. A contribuição da Rússia para a construção do acelerador e a realização de experiências de detecção foi muito grande.

G.R.:  Como se calculam as contribuição dos países membros?

T.K.: O orçamento anual do Cern é de cerca de um bilhão de francos suíços e representa contribuições dos 20 países membros e, recentemente, de Israel e Sérvia. A contribuição anual de cada país membro é tomada como fatia do PNL (Produto Nacional Líquido), mais ou menos proporcional ao PIB, e tem um valor fixo.

G.R.:Qual lugar nesse sistema pode ser ocupado pela Rússia?

T.K.: A Rússia pediu a adesão como membro associado e não reivindica, por enquanto, o status de membro pleno. No momento, não temos membros associados. Israel e Sérvia são "membros associados a caminho de se tornar membros plenos" e devem contribuir para o Cern com 25% daquilo que pagariam como membros plenos.

Quando um país vira membro pleno, começa a pagar 100% de sua contribuição. O status de membro associado foi criado em 2010. Nesse mesmo ano, o Cern levantou as restrições geográficas à filiação.

Esperamos que a Rússia venha a se tornar um membro associado. Nesse caso, irá pagar 10% daquilo que pagaria como membro pleno. Esse valor é fixo e se manterá inalterado até que o país decida se tornar membro pleno do Cern.

Com a criação de status de membro associado, a condição de observador em que se encontram atualmente Rússia, EUA, Turquia, Índia, Japão, UNESCO e a Comissão Europeia será gradualmente extinta. A filiação como membro associado é requerida também por Ucrânia e Brasil

G.R.:O que dará à Rússia a filiação como membro associado?

T.K.: Quanto ao Cern (as experiências obedecem a um outro esquema), o centro só encomenda equipamentos de países membros. A filiação como membro associado permitirá à Rússia disputar licitações para a construção de equipamentos.

As regras são simples: o vencedor é aquele que oferece um preço melhor. Além disso, o centro conta com 2.300 funcionários do quadro, que mantém a organização e o acelerador em funcionamento e presta apoio ao trabalho de cerca de 11 mil cientistas usuários.

O centro emprega ainda cerca de 1.000 funcionários temporários, que ocupam cargos de cientistas ou estudantes.  Se a Rússia se tornar um membro associado, cidadão russos poderão se candidatar a todos esses cargos.

G.R.:Como a Rússia se encaixará no esquema geral de trabalho do Cern?

T.K.: O Cern tem quatro missões básicas: o desenvolvimento da ciência fundamental na área de física de altas energias, o desenvolvimento de novas tecnologias, que se tornam disponíveis a todos os países membros, a formação de físicos e engenheiros para missões futuras e a união de pessoas de diferentes países, com diferentes credos políticos e culturas.

Com a promoção a membro associado, a Rússia vai mudar o formato de sua participação no centro e obter um maior acesso a todos os recursos do Cern.

G.R.:Quando a Rússia receberá o status de membro associado?

T.K.: Na maioria das vezes, isso depende da rapidez com que o respectivo acordo é ratificado. Se as formalidades legais são cumpridas sem demora, o processo leva alguns meses. Esperamos que, em breve, comemoremos a adesão da Rússia ao Cern como membro associado.

 

Para a versão na íntegra da entrevista em russo, acesse: http://www.gazeta.ru/science/2012/12/24_a_4904193.shtml

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