Milhares protestam contra lei que proíbe adoção por norte-americanos

Foto: RIA Nóvosti / Ilia Pitalev

Foto: RIA Nóvosti / Ilia Pitalev

Em protesto no centro da capital, manifestantes expressam indignação com tratamento aos órfãos russos e acusam deputados da Duma (Câmara Baixa do parlamento russo) de hipocrisia.

Diversos moscovitas foram às ruas da cidade na tarde fria deste domingo (13)  para protestar contra a nova lei que proíbe a adoção de crianças russas por famílias norte-americanas.

A norma foi colocada adiante em contraposição à Lei Magnitski, assinada pelo presidente dos EUA, Barack Obama, impondo restrições financeiras e de vistos a funcionários russos supostamente envolvidos na morte do advogado Serguêi Magnitski em 2009, quando cumpria pena em prisão preventiva.

A polícia moscovita estima a presença de 9 mil manifestantes, mas o líder da oposição de esquerda Serguêi Udaltsov sugere que o evento tenha contado com 50 mil participantes.

Embora a marcha tenha sido dirigida contra a proibição de adoção, muitos manifestantes protestaram contra o governo do presidente Vladímir Pútin de uma forma geral, assemelhando-se às manifestações que seguiram os processos eleitorais no ano passado.

“Esse governo é ilegítimo, fomos enganados nas eleições”, disse o engenheiro identificado como Nikolai,  enquanto assinava uma petição para a dissolução da Duma de Estado e revogação da atual lei. “A corrupção está presente em todos os níveis do poder. Quero que eles percebam que as pessoas desejam mudanças. Eu não me importo quem está lá em cima, mas este deve ser um Estado de direito.”

Apesar de os líderes da oposição terem participado da marcha, nenhum deles se pronunciou oficialmente no final do protesto. “[As autoridades] não têm nada que responder [à Lei Magnitski]. Não poderiam ter tido uma resposta mais infeliz do que essa lei envolvendo crianças órfãs”, disse Guennádi Gudkov, ex-legislador da oposição pelo partido Rússia Justa que foi destituído de seu mandato na Duma sob alegação de conflito de interesses comerciais no ano passado, a uma multidão de repórteres durante a marcha.

Em comentários publicados pelo jornal pró-oposição “Novaia Gazeta”, ele comentou ainda que “a elite política do país percebe que os atuais ladrões do governo serão amanhã acrescentados na lista Magnitski”.

Histórias comoventes

A psicóloga infantil Svetlana, cujo sobrenome não foi revelado, protestou segurando um cartaz com uma passagem bíblica que dizia: “Para desviarem os pobres do seu direito, e para arrebatarem o direito dos aflitos do meu povo; para despojarem as viúvas e roubarem os órfãos!”

“Conheci crianças em orfanatos que ninguém vai adotar aqui”, disse Svetlana. “Missionários dos Estados Unidos vieram aos nossos orfanatos e prisões nos anos 90 para cuidar dos órfãos e internos. Os cristãos familiarizados com a Lei do Senhor jamais estarão a favor dessa lei.”

Alguns dos participantes da marcha também tinham histórias comoventes sobre adoções para compartilhar. A pensionista Irina Semionovna contou que seus vizinhos haviam adotado um menino, mas o devolveram ao orfanato depois de dar à luz aos seus próprios filhos. “[A mãe adotiva] o tratava tão mal, ele dormia no chão e era tão subnutrido que tínhamos que dar comida ao garoto”, disse Semionovna. “Ainda assim, ele  queria ficar. Você já esteve em um orfanato? Você sabe como é estar lá?”, ele repetia para mim.

Petições

O parlamento será provavelmente obrigado a considerar as petições dos manifestantes em decorrência da proposta apresentada pelo então primeiro-ministro Pútin em fevereiro do ano passado. “Sugiro que o parlamento avalie iniciativas públicas apoiados por 100 mil assinaturas coletadas on-line”, escreveu Pútin em um artigo de campanha antes da votação presidencial de março. A respectiva legislação ainda está sendo elaborada.

Em dezembro, o “Novaia Gazeta” entregou uma petição assinada por mais de 100 mil pessoas para a Duma, pedindo pedir a suspensão da lei de adoção. O vice-porta-voz da Duma, Serguêi Jelezniak, disse na ocasião que a petição seria avaliada em janeiro. Pouco tempo depois, o jornal russo recolheu novamente 100 mil assinaturas em outra petição exigindo a dissolução da Duma e a realização de novas eleições.

Neste domingo, cerca de 600 pessoas marcharam segurando fotografias grandes de deputados da Duma, e até mesmo de , com a palavra “vergonha” sobre as imagens.

No entanto, é pouco provável que as exigências dos manifestantes sejam atendidas pelas autoridades. “As pessoas preocupadas com o destino dos órfãos estão absolutamente certas”, disse Dmítri Peskov, porta-voz de Pútin, em uma entrevista ao canal de TV on-line “Dojd” neste domingo. “Mas, ao mesmo tempo, eles não podem deixar de ver e ouvir a clara intenção da liderança do país, em particular do presidente Pútin, de tomar um conjunto de medidas para melhorar a situação desses órfãos com tudo o que necessitam”.

“Eu não acho que tais apelos merecem qualquer atenção”, Peskov sobre os pedidos de dissolver a Duma. “A Duma é o nosso parlamento, foi eleito por voto popular.”

Os deputados da Duma foram alvo de críticas por muitos manifestantes, representados pela classe trabalhadora de Moscou. “Esse corpo da Duma vem trabalhando há um ano, mas até agora não aprovou uma única lei para o povo. Eles estão apenas aumentando as multas e preços de serviços públicos. Mandaram seus filhos para [estudar no] exterior, mas o que podem fazer pelos pobres e indefesos órfãos do país?”, disse a aposentada Larissa Alekseievna.

“Eles dizem que vão alocar fundos para apoiar órfãos, mas quando será isso? Quando essas crianças morrerem? Em novembro eles assinaram um acordo com os norte-americanos permitindo as adoções, e de repente voltaram atrás”, finalizou Alekseievna.

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