“Até agora não entendemos as razões do embargo russo à carne brasileira”

Célio Porto Foto: agricultura.gov.br

Célio Porto Foto: agricultura.gov.br

Secretário de Relações Internacionais do Ministério da Agricultura do Brasil, Célio Porto, fala com exclusividade sobre as restrições da Rússia.

O Secretário de Relações Internacionais do Ministério da Agricultura e Abastecimento, Célio Porto, recebeu em seu gabinete em Brasília o jornalista Aleksander Krasnov, da Rádio Voz da Rússia, a quem concedeu uma entrevista exclusiva que teve como tema principal a questão das restrições temporárias à importação da carne brasileira para o mercado russo.

O Secretário Célio Porto, que acompanhou a Presidenta Dilma Rousseff na visita presidencial à Rússia, em dezembro, também fala com autoridade sobre alguns outros assuntos importantes do relacionamento comercial bilateral entre os dois países. A seguir, a transcrição da entrevista.

Voz da Rússia: Secretário, a primeira pergunta do interesse tanto na Rússia como do Brasil é a questão das restrições que a Rússia impõe aos Estados brasileiros produtores de carne. O senhor participou das extensas negociações com a Rússia sobre isso, e nós gostaríamos de saber como está (se está) evoluindo essa questão delicada.

Célio Porto: Antes de mais nada, acho que é importante dizer que a Rússia é um dos principais parceiros comerciais do Brasil na área agrícola. Para a agricultura brasileira, a Rússia é um parceiro estratégico. Seja porque nós temos a Rússia como um dos principais clientes... Na verdade, em três produtos a Rússia é o principal cliente do Brasil, na carne suína, na carne bovina e no açúcar, e existe comércio de frango, soja e outros produtos também. E, por outro lado, a Rússia é o principal fornecedor de fertilizantes. O Brasil, entre os grandes exportadores agrícolas do mundo, é o que mais depende de importação de fertilizantes. Nós importamos esse produto do mundo todo, mas a Rússia é o nosso principal fornecedor.

Além disso, o governo russo tem manifestado reiteradas vezes o interesse em exportar trigo para o Brasil. E o Brasil importa a metade do trigo que consome. Portanto, se nós já importamos metade do que consumimos, podemos perfeitamente ter a Rússia como um dos nossos fornecedores. É interesse nosso até que isso ocorra para haver um maior equilíbrio no comércio. Porém, existem pragas, doenças nas áreas de produção da Rússia que não existem no Brasil. Porque aqui o clima é tropical, e lá, temperado. Então, isso gera um pouco de restrição na importação.

Já está em negociação há algum tempo a definição de regras para assegurar que a entrada do trigo russo no Brasil não implique em entrarem também, junto com o trigo, algumas doenças que aqui não existem. Isso já está discutido entre os serviços fitossanitários do Brasil e da Rússia, e nós vamos ter uma reunião bilateral com as autoridades do Ministério da Agricultura russo agora no mês de janeiro, nos dias 16 e 17, em Berlim. Pois, nesse período de 16 a 19 de janeiro, ocorre naquela cidade a Semana Verde Internacional, que é uma grande feira agrícola na qual há uma participação muito forte de empresas da Rússia. E, por conta disso, há também uma presença muito forte das autoridades do Ministério da Agricultura da Rússia. Então, na última reunião que nós tivemos em Moscou, houve esse acordo de se aproveitar o fato de que tanto o Brasil como a Rússia mandariam delegações mais robustas para a Feira para realizar reuniões técnicas a fim de se tentar avançar nessas pendências bilaterais. E uma das coisas que se espera sejam concluídas e assinadas lá é exatamente essa norma que vai permitir a entrada do trigo russo no Brasil.

Ainda restará uma restrição quanto ao local de entrada do produto: vai ser permitida a entrada do produto apenas nos Estados que não são produtores de trigo. Mas isso não é um problema, porque o Estado que é produtor não importa, pois ele, ao contrário, exporta para o resto do Brasil. Então, Estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, que são grandes produtores de trigo, não importam esse produto da Argentina nem de outras origens, e, assim, não teriam por que importar da Rússia. As regiões que mais importam trigo são as regiões que não produzem, como, por exemplo, a região Nordeste, o Estado do Rio de Janeiro... Então, o que está sendo negociado é exatamente autorizar a importação para essas regiões.

Agora, o governo da Rússia, o Ministério da Agricultura da Rússia, tem insistido que o Brasil retire uma tarifa de10% que é cobrada sobre o trigo importado. E o que nós temos explicado para as autoridades russas é que essa retirada da tarifa não é unilateral. Essa é uma tarifa aplicada pelo Mercosul, e não pelo Brasil, para importações de fora do Mercosul. É uma margem de preferência que se dá aos países membros do Mercosul. Então, para qualquer país do Mercosul importar trigo do outro, paga zero. Mas qualquer país do Mercosul que quiser importar de terceiros, de fora do Mercosul, paga 10%. Assim, para o Brasil retirar essa tarifa, ele precisa do consentimento da Argentina, do Uruguai e do Paraguai. Hoje, o Paraguai está suspenso do Mercosul – e tem agora a Venezuela –, mas, enfim, a resistência maior é sempre da Argentina, porque é a grande fornecedora para o Brasil. Porém, este ano, a Argentina teve uma grande quebra de safra de trigo. Então, a gente acha que talvez este ano seja possível avançar nessa questão. Está prevista uma reunião dos vice-ministros da Agricultura do Brasil e da Rússia, também em Berlim, no dia 18. Então, nessa reunião do dia 18, provavelmente, vai se tratar desse assunto.

VR: E quanto à carne?

CP: Ah, sim. Eu dei muitas voltas e não respondi à pergunta principal. Esse embargo ou essa suspensão das importações de carne de três Estados brasileiros teve um impacto comercial mais significativo na carne suína. A Rússia continua sendo o principal mercado para o Brasil, mas o principal fornecedor de carne suína para a Rússia não é mais o Brasil. É o Canadá. O Canadá conseguiu superar o Brasil nas exportações para a Rússia no ano passado, por causa desse embargo aos três Estados. O principal Estado que exportava carne suína para a Rússia era o Rio Grande do Sul, e, ao suspender as importações do Rio Grande do Sul, houve um impacto muito forte, muito maior na carne suína do que nas outras carnes.

Essa suspensão entrou em vigor no dia 15 de junho de 2011. Então, no dia 15 de dezembro de 2012 completaram-se 18 meses. No dia anterior à próxima reunião [entre as autoridades brasileiras e russas] estarão sendo completados 19 meses de embargo. É muito incomum uma suspensão de importações por parte de um país durar tanto tempo assim. Nós fizemos inúmeras tratativas, inúmeras reuniões, missões e sempre ficamos na expectativa de que poderíamos superar o embargo, mas não conseguimos ainda. Tínhamos uma grande expectativa de que isso pudesse ocorrer com a visita da Presidenta Dilma a Moscou em dezembro. Principalmente porque, no caso particular do Rio Grande do Sul, é o Estado de origem do ministro [Mendes Ribeiro] e é o Estado de origem política da presidenta. Então, para eles dois, teria um símbolo especial se tivesse sido possível superar esse impasse.

Eu estive em Moscou acompanhando a visita da presidenta. Mas um dia antes de ela chegar, no dia 14 de dezembro, eu estive lá no Serviço Veterinário com o senhor Serguei Dankvert, que é o chefe do Serviço Veterinário, e discutimos as pendências. Aparentemente, não havia dúvidas substantivas, dúvidas a mais para serem esclarecidas, e eu saí da reunião otimista, achando que no dia seguinte, quando ela se encontrasse com o Primeiro-Ministro Medvedev, ou na sexta, quando se encontrasse com o Presidente Putin... Eu tinha expectativa de que houvesse o anúncio. Mas não houve. Então, agora nós vamos retomar as discussões no âmbito técnico no dia 16.

VR: E o senhor tem alguma explicação das razões de não ter havido esse anúncio?

CP: Não, eu confesso que nós até agora não entendemos a razão do embargo. As missões russas que vêm ao Brasil analisam principalmente a situação dos frigoríficos. E a supervisão dos frigoríficos é federal, ela é feita pelo Ministério da Agricultura. Então, a qualidade do serviço, no nosso modo de ver, é a mesma em todo o Brasil.

VR: É, essa também é a grande dúvida por parte da Rússia. A imprensa russa às vezes não entende por que um Estado brasileiro pode, e outro, não.

CP: Nós também não.

VR: Essa é a grande dúvida. Na verdade, eu queria até perguntar sobre isso, porque na Rússia as pessoas também não entendem. “Será que existe no Brasil um controle centralizado, padronizado em nível federal?” E, se existe, por que, por exemplo, outro dia – se a minha informação estiver correta – Santa Catarina recebeu autorização para exportar produtos suínos para os Estados Unidos? Diz essa nota que esse foi o primeiro Estado brasileiro a ser autorizado a exportar para os EUA. Por que os demais não receberam essa autorização, se está tudo padronizado, tudo igual em tese? E, no caso desses embargos, também. Quer dizer, um Estado não pode exportar, e outros podem.

CP: Tem uma coisa que é importante ficar clara: o serviço de saúde animal é estadual. A inspeção de abates é federal. Então, grosso modo, podemos dizer o seguinte: enquanto o animal está vivo, quem zela pela sanidade dele é o Estado. Agora, depois que o animal foi abatido, a responsabilidade é nossa. Só que as missões russas que vêm ao Brasil focam o seu trabalho nos estabelecimentos de abate. Então, é isso que a gente não entende. Se as missões não analisam a parte de saúde animal, como podem dizer que o serviço veterinário estadual do Rio Grande do Sul é pior do que o de Minas Gerais ou do que o de São Paulo, que são Estados que estão autorizados?

VR: Há também essa substância, a ractopamina, que seria uma das causas dessa suspensão, não é?

CP: Não. Uma coisa não está vinculada à outra. Eu vou explicar sobre a ractopamina, mas, antes, deixe-me falar sobre os Estados Unidos. Os EUA não importavam carne suína do Brasil por causa de uma doença que é a aftosa. Já está provado, tecnicamente, que a carne em si não representa risco, principalmente se ela estiver sem o osso, no caso da aftosa. Mas alguns países, infelizmente, não reconhecem essa realidade científica. É o caso dos Estados Unidos, é o caso do Japão e é o caso da Coreia. Então, nós temos comércio de carne bovina e carne suína com vários mercados, apesar de o Brasil ainda ter regiões que não são totalmente livres de aftosa. Só que não são regiões que exportam para esses países.

Ou, em alguns casos, como é o caso da União Europeia, carne bovina a gente exporta mesmo da região que eles fazem habilitação Estado por Estado e região por região. O sul do Pará, por exemplo, exporta para a União Europeia. Há alguns países que, enfim, teimam em ignorar as conclusões científicas muitas vezes por barreira comercial; outras vezes, por excesso de zelo. No caso dos Estados Unidos, tudo indica que é barreira comercial. Por exemplo, a Argentina tem uma pendência de longa data na área de carne bovina com os EUA porque eles têm uma área livre de aftosa sem vacinação na região da Patagônia e o comércio americano aprovou uma lei proibindo que o Executivo gastasse um tostão que fosse para viabilizar a análise do processo de aprovação da carne argentina. Então, isso claramente é uma barreira comercial, completamente à revelia das regras internacionais.

No caso do Japão, aparentemente é um excesso de zelo. Mas, como Santa Catarina foi reconhecida pela OIE [Organização Mundial de Saúde Animal] como livre de aftosa sem vacinação – é a única região do Brasil que é livre sem vacinação, pois as demais são livres com vacinação –, os Estados Unidos reconheceram Santa Catarina para carne bovina também. Só não tem exportação porque o Estado não exporta carne bovina, só suína. Então, a gente fala assim: “Ah, os Estados Unidos autorizaram a importação de carne suína de Santa Catarina.” Mas não foi só de suína, foi de bovina também, só que eles não exportam carne bovina.

VR: Então, uma região livre sem vacinação é melhor do que uma região livre com vacinação, certo?

CP: Está provado cientificamente que o risco é o mesmo, desde que seja feita a vacinação e seja exportada a carne sem osso, que é o que se exporta. Mas alguns países teimam em não reconhecer isso.

VR: E essa substância, a ractopamina?

CP: Ractopamina é um produto que estimula a transformação de gordura em carne. Eu não sei por que os humanos não usam isso... Eu, por exemplo, estou precisando de um pouco de ractopamina se ela puder ser regionalizada só para tirar a barriga, né [risos]? É um produto que está aprovado para uso animal no mundo todo, mas alguns países não aceitam.

VR: A Rússia diz que a União Europeia, por exemplo, também não aceita. Não sei se essa informação é correta.

CP: É, é correta. Há um país e um bloco econômico de grande porte que não aceitam. A União Europeia terminantemente não aceita, nunca aceitou, e a China tem restrições mais brandas, mas também tem restrições.

Agora, quando a Rússia entrou para a OMC, o chefe do serviço veterinário começou a acenar com essa hipótese de que a Rússia iria suspender a importação de carne proveniente de animal que foi alimentado com ractopamina. E a Rússia se baseia no fato de que uma das regras da OMC é que você pode estabelecer uma restrição a um país desde que você use isso também para o seu mercado interno. Então, o serviço veterinário russo informa que essa é uma substância proibida na Rússia e que, portanto, para ter condições de igualdade entre o produtor local e o produtor que exporta para lá, eles suspenderam a autorização para importação de países que usam a ractopamina. E somente aquele país que atestar que o animal não foi alimentado com esse produto é que poderia exportar. Essa medida entrou em vigor no dia 7 de dezembro, para embarques realizados a partir do dia 7 de dezembro.

VR: Agora, desse ano?

CP: É, 7 de dezembro de 2012.

VR: Então, essa não pode ser a causa desses embargos vigentes, que são bem mais antigos, não é?

CP: Não, não pode. E aí é para todos os Estados, não é só para aqueles três Estados.

VR: Então, qual é a história verdadeira desses três Estados?

CP: Se eu soubesse, acho que eu ganharia um prêmio.

VR: Só para ilustrar o que está acontecendo na cabeça das pessoas: por exemplo, uma das versões divulgadas pela imprensa russa recentemente foi de que o acordo do qual o senhor participou da negociação final não foi fechado devido a pressão política. Por exemplo, uma matéria jornalística especula que a Rússia queria que o Brasil aceitasse o avião de caça Sukhoi na licitação internacional de onde já tinha sido excluído. Isto pode ter algum fundamento? O senhor admite isso como uma hipótese?

CP: Eu não acredito. Eu acho que até pode ter pressão comercial do lado russo, mas não do lado de equipamentos bélicos. Eu acreditaria mais que seja por parte dos produtores locais, o que é o mais comum. Isso ocorre em todo lugar. Por que o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma lei proibindo gastar dinheiro com a análise da Argentina? Porque eles não querem a concorrência da carne argentina no mercado deles. Então, certamente foi algum deputado ou senador que é de alguma região produtora de carne e que conseguiu aprovar uma lei dessas. Então, em geral, temos problemas com a África do Sul e outros países, e essas medidas normalmente surgem por pressões dos produtores locais. Eu acho isso muito mais provável do que o problema do avião.

VR: Isso tem uma relação direta com a próxima pergunta, sobre o investimento que a Rússia tem feito na produção local, principalmente de suínos e de frango. Nós ouvimos de alguns empresários, inclusive brasileiros, que no começo o Brasil não dava muita importância a esse esforço russo, não acreditando que a Rússia poderia ter algum sucesso nesse negócio, ou seja, produzindo suínos e frangos internamente, substituindo, assim, as importações. E hoje, o senhor pode dizer que esse esforço russo já alterou um pouco a balança comercial? Já afetou as exportações brasileiras de frango ou de suíno, por exemplo?

CP: O impacto maior foi em açúcar e frango. A produção de beterraba aumentou muito, e, em consequência, aumentou a produção de açúcar, e isso reduziu as importações de açúcar por parte da Rússia. E também na área do frango, que é um animal que fica pronto para o abate em menos de dois meses. Então a resposta foi mais rápida na produção de frango do que na produção de suínos. Mas eu não sei se o setor privado brasileiro estava desatento a este fato ou se não acreditou, mas nós, por parte do governo, já tínhamos essa análise, de que a Rússia entrou na OMC em 2012, e, como parte do acordo de entrada, a Rússia poderá conceder subsídios à produção doméstica até 2016 ou 2017, se não me engano. Depois esse volume de subsídios vai cair substancialmente, e a partir de 2020 reduz também as tarifas de importação, pelo menos no caso da carne suína.

VR: Isso é uma obrigação, segundo as regras da OMC?

CP: É, estará no acordo. Há um sistema de cotas também que não vai existir mais. Então, eu acho que o movimento que o governo russo fez é um movimento natural: “Eu vou usar o guarda-chuva que me foi dado pelo acordo da OMC para aumentar a produção interna de forma competitiva, de forma que quando eu tiver que me expor ao mundo, que minha produção seja competitiva e, se possível, grande para que eu dependa menos de importação, ou até possa exportar.” Então, isso é um movimento natural. O único senão que eu vejo aí, que coloca a Rússia em uma pequena desvantagem em relação ao Brasil, é que frangos e suínos dependem de ração para sua alimentação, e essa ração tem dois componentes principais: um produto que vai fornecer caloria e um produto que vai fornecer proteína. Para caloria, nós aqui no Brasil usamos milho, que é o nosso carboidrato para alimentação de frangos. No caso da Rússia, como ela tem uma produção abundante de trigo, o natural é que se use trigo, e é isso que se faz. Mas a soja não é um produto típico de regiões de clima frio, então a Rússia vai continuar dependente de importações de farelo de soja.

VR: Soja, no caso, é a proteína?

CP: Sim, a proteína. Há outros produtos que podem ser de proteína também, como o farelo de girassol, de amendoim, de outros grãos oleaginosos. Mas o mais barato e mais usado no mundo é a soja.

VR: Então, nesse aspecto, o Brasil é mais autossuficiente na fonte de alimentos?

CP: Exatamente. O Brasil tem as duas matérias essenciais para a alimentação de suínos e aves: a soja, em que o Brasil é o segundo maior produtor e maior exportador mundial, e o milho, do qual o Brasil tem aumentado muito a produção e também as exportações.

VR: E a situação das cotas também deve jogar a favor das exportações brasileiras daqui a sete anos, em 2020. Então o senhor vê essa autossuficiência russa, ou crescente produção nacional, como algo que pode ser temporário?

CP: Eu não diria isso. Eu diria assim: o governo russo fez um movimento correto. Negociou um acordo que lhe dá a possibilidade de fazer investimentos em condições subsidiadas e em maior volume nesses primeiros anos de adesão à OMC, e sabe que terá que ter uma suinocultura e uma agricultura competitivas em 2020, porque em 2020 as regras ficam mais liberais. Então tem sete anos para fazer esse esforço de aumentar a produção e torná-la mais competitiva. As informações que a gente tem do nosso adido agrícola em Moscou e de empresários brasileiros que representam empresas brasileiras, com as quais eu estive em Moscou, são de que há muitos técnicos brasileiros especializados em produção de suínos e produção de aves, que estão sendo contratados para trabalhar nesses grandes projetos que foram financiados pelo governo russo.

VR: Mas não é uma ameaça de longo prazo? O Brasil não vai perder mercado por causa disso?

CP: Eu acho que é uma ameaça, sim, sem dúvida. Só que, como o mundo vai continuar a crescer em população e renda, a demanda vai continuar crescendo. Então, há lugar para todo o mundo.

VR: Existe uma opinião corrente de que o produtor brasileiro é tão confiante de que o país dele é maior produtor, talvez o único que pode suprir a demanda mundial, que ele fica pouco flexível nas negociações, porque ninguém pode fazer o que o Brasil pode. Então, às vezes ele não cede a algumas exigências fitossanitárias, achando que cedo ou tarde os importadores vão voltar a importar do Brasil, por ser a única fonte que tem um volume de carne que o mundo precisa. Isso existe?

CP: Existe um pouco disso, sem dúvida. Porque, desde 2008, quando os preços agrícolas dispararam e se começou a falar muito de mudanças climáticas globais e seus impactos na agricultura, o que se está vendo na realidade é isso mesmo. O mundo está demandante. E tem o efeito China, que está comprando cada vez mais. Então, na cabeça de muitos exportadores brasileiros, a realidade que eles veem é dessa forma mesmo, de que se a Rússia não quiser comprar vai ter outro país que vai comprar. E o fato é que a realidade do dia a dia está mostrando que isto está acontecendo, o que não significa que irá continuar, mas nos últimos quatro anos, à exceção de 2009, quando houve aquela queda pós-crise da bolha imobiliária americana, as exportações têm sido muito fortes e os preços muito altos. Caíram em 2009, subiram de novo em 2010, em 2011 e em 2012. Então, continuam preços remuneradores, e o mundo carente. Agora mesmo, hoje de manhã, a gente estava conversando sobre a Argentina, que é o nosso grande fornecedor de trigo. A Argentina já chegou a produzir 16 milhões de toneladas de trigo. Este ano, a previsão é de que produza 10 milhões por causa de problemas de seca. Então, a gente vê muito os jornais do Brasil falando sobre falta de água para as usinas hidrelétricas para gerar eletricidade, que os reservatórios estão baixos, que isso é preocupante. Mas isso vale para a agricultura também.

VR: E é um bom momento para, quem sabe, o trigo russo entrar?

CP: Sim, sem dúvida.

VR: E sobre essa previsão que o senhor fez, existe uma grande possibilidade de se fechar um acordo na Feira de Berlim?

CP: Eu não diria uma grande possibilidade. A parte fitossanitária, sim, eu acho que já está tudo praticamente certo. A parte de reduzir a tarifa é que a gente vai depender de a Argentina concordar, mas, como eles tiveram quebra de safra, está mais fácil de convencer os argentinos este ano do que em outros anos.

VR: Mas é feito à base anual, ou seja, a cada ano deve ser fechado um novo acordo?

CP: Este seria o problema, teria que ser numa base anual.

VR: O Brasil estuda outros produtos que poderiam ter procura na Rússia, pois existe, por exemplo, uma grande demanda crescente na Rússia por frutas tropicais, ou seja, lá não tem como fazer produção própria e o mercado está crescendo, talvez não como o chinês, mas o consumidor russo está ficando cada vez mais exigente. Eles querem novos produtos, como café gourmet, ou frutas de que não têm outra fonte. Quem sabe esse poderia ser um novo nicho para o Brasil. Existem alguns estudos ou expectativas quanto à entrada de novos produtos que não faziam parte dessa pasta de exportações brasileiras?

CP: Sim. Existem alguns produtos de que a gente tem maior expectativa no comércio bilateral, como as bebidas, incluindo o vinho e a cachaça, a maçã, produto do qual a Rússia é uma grande importadora e o Brasil é exportador, café, sem dúvida nenhuma. Agora, quanto às frutas tropicais, existe um problema de distância, pois as frutas de clima temperado têm a característica de suportar mais o frio já que elas são de clima frio, então é possível armazenar a maçã por 12 meses numa câmara fria. Já com a banana e o mamão [papaia] você não pode fazer isso. Então, o grande desafio é fazer o produto chegar ainda em condições boas de consumo. Então você precisa colher a fruta um pouco antes do tempo ideal, por isso dificilmente você vai encontrar na Rússia um mamão-papaia produzido no Brasil com a mesma qualidade que tem aqui. Para ele chegar lá a tempo de ser consumido em condições ideais, tem um longo período de transporte, deve ser colhido mais cedo, o transporte deve ser rápido, são condições de logística mais complicadas. Eu não sei o caso da Rússia, mas, por exemplo, no caso da Ásia, existem outros fornecedores de clima tropical mais próximos. Por exemplo, as Filipinas são um grande exportador de manga, de mamão, de banana, então é muito mais fácil as Filipinas exportarem para o Japão do que o Brasil, que tem que atravessar o mundo para chegar lá. A gente perde competitividade por isso. No caso da Rússia, não sei se há algum país de clima tropical mais próximo.

VR: Há a Tailândia, que é um pouco mais perto.

CP: Sem dúvida, a Tailândia está mais perto. O próprio México está mais perto, há países do norte da África que estão mais perto também. Então, nós perdemos na logística.

VR: Aliás, as culturas cítricas que nós vemos na Rússia vêm principalmente do norte da África. As laranjas, por exemplo, vêm basicamente da Tunísia e do Egito, além do limão e da tangerina marroquinos.

CP: Quanto aos cítricos, o Brasil só é forte nas exportações de suco de laranja. Quanto à laranja para consumo, nós somos até importadores. O Brasil não tem essa tradição de produzir uma boa laranja para consumo. Nós importamos uma boa laranja do Chile, da Argentina. A nossa laranja é mais para fazer suco.

VR: Aliás, o suco de laranja é agora muito procurado na Rússia.

CP: Acreditamos que o suco é um dos produtos que têm um grande potencial para aumentarmos o comércio.

VR: Que bom, porque, no quesito dos cítricos, o clima não permite que eles façam parte desse caminho para a autossuficiência russa.

CP: Por isso que, no caso da carne bovina, a gente sempre verifica por parte das autoridades, tanto do Ministério da Agricultura quanto do serviço veterinário, uma maior disponibilidade de tratar desta questão do comércio com mais carinho, porque não existe a pressão do produtor local, já que a produção de carne bovina é pequena. Segundo meu adido agrícola, somente na região sul da Rússia existem condições um pouco melhores para produzir carne bovina, o que não acontece na parte mais fria. Portanto, o que eu tenho de análise sobre o potencial do mercado de carnes na Rússia é que no caso da carne bovina a Rússia continuará sendo uma grande importadora, mas carne de aves e de suínos vai cada vez mais ter uma produção doméstica e vai depender menos da importação. É o diagnóstico que eu tenho: que o mercado de carne bovina continuará favorável para as exportações brasileiras, mas, no que diz respeito ao mercado de carne de aves, já tenho um resultado de imediato, as importações russas caíram muito nos últimos anos.

VR: Há um número aproximado de quanto o Brasil perdeu de exportações de frango para a Rússia?

CP: O Brasil nunca foi grande exportador de frango para a Rússia. Os grandes exportadores eram os Estados Unidos. Quem mais perdeu com o aumento da produção russa de carne de frango foram os americanos, pois eles eram os grandes fornecedores. Mas, se não me engano, a cota de importação de frango do mundo era de 1 milhão e 750 mil toneladas por ano, e caiu para 200/300 mil toneladas por ano.

VR: Dr. Célio Porto, agradecemos pela exclusividade desta entrevista e pelos esclarecimentos que o senhor nos prestou, e que serão divulgados aqui no Brasil e na Rússia. Muito obrigado.

 

O texto foi originlmente publicado no site diariodarussia.com.br

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.