Contos de Natal

Foto: RIA Nóvosti

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No posfácio “Leskov, humanista e satírico” do volume Homens interessantes e outras histórias, o mestre e amigo Noé Oliveira Policarpo Polli dedica quinze páginas a um gênero literário muito cultivado entre os russos, o conto de siávtki (período de festejos que vai do Natal ao Dia de Reis), e faz uma importante distinção. Esse gênero “constitui a plasmação, na literatura, da atmosfera de ditosa expectativa do maior feriado cristão por parte de católicos, protestantes e ortodoxos. Em russo, há duas denominações para os contos cuja ação se passe no sviátki, com um conjunto invariável de motivos (para além dos prodígios ou milagres associados a essas datas: predições, sonhos e algum quadro de desarmonia, como cataclismos naturais e conflitos nas relações humanas); são elas: ‘rojdiéstvenski rasskaz’ (literalmente, ‘conto natalino’; de rojdestvó, Natal) e ‘sviátotchni rasskaz’ (conto de sviátki)”. O conto de sviátki origina-se dos mistérios medievais baseados em temas bíblicos, enquanto o conto natalino provém da tradição europeia fundada por Charles Dickens, com base em uma filosofia edificante de valorização da “alma” humana.

Além de Leskov, com exemplos na coletânea citada e em A fraude e outras histórias, vários autores russos escreveram contos nesse mesmo espírito. São característicos “Noite antes do natal”, de Nikolai Gógol; “Noite de terror”, de Anton Tchekhov; “O pianista” e “O médico maravilhoso”, de Aleksandr Kuprin; “Anjinho”, de Leonid Andrêiev; “A árvore de Natal de Mitritch”, de Nikolai Telechov.

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Na matéria “Escola de Papai Noel ensina como aplicar corretamente uma barba de algodão”, Andréi Raskin conta como os russos se preparam para desempenhar o papel de Died Moroz e Snegúrotchka, duas personagens indispensáveis nas festas de final de ano. O Died (avô) Moroz (frio glacial) lembra o Papai Noel, com sua longa barba branca e roupa vermelha. A mocinha Snegúrotchka (de snieg, neve), neta do Died Moroz, distribui presentes para as crianças.

Na literatura, a representação do velhinho remonta aos Contos maravilhosos do vovô Irinei, de Vladímir Fiodorovitch Odóevski (1803-1862). Em uma das histórias, Moroz Ivánovitch, de cabelos brancos-bem-brancos, aparece sentado num banquinho de gelo, comendo bolinhas de neve. Quando ele balança a cabeça, uma geada fininha desprende-se de seus cabelos; quando ele deixa escapar o ar, um vapor cerrado sai de suas narinas. A casa de Moroz Ivánovitch é toda feita de gelo: as portas, as janelinhas e o piso são de gelo; nas paredes, há estrelinhas de neve, iluminadas pelos raios frios do sol, que faz tudo brilhar como diamante. Sobre a cama, em vez de cobertor, um tapete felpudo de neve e, debaixo dele, uma vegetação verdinha, bem guardada. Sobre ela deita-se o velhinho, para protegê-la durante o inverno. Essa é a personificação do frio bondoso, necessário ao inevitável ciclo da vida, agente das “maravilhas” invernais, em contraposição ao frio implacável, que congela o sangue nas veias e causa destruição.

Snegúrotchka está diretamente ligada ao Died Moroz tanto pelo parentesco quanto por sua função. Símbolo da eterna juventude, já que nunca envelhece, ela acompanha o avô e serve de intermediária entre ele e as crianças na entrega dos presentes. Sua origem estaria na história popular de uma bonequinha de neve que ganha vida. A menina de neve ora sai para passear no bosque e se perde, ora salta sobre uma fogueira e derrete. Aleksandr Nikoláievitch Afanássiev (1826-1871), estudioso do folclore russo, coletou e analisou variantes dessa história, relacionando-a ao mito climático da mudança de estações. Em 1873, influenciado pela visão de Afanássiev, Aleksandr Nikoláevitch Ostróvski (1823-1886) escreveu a peça Snegúrotchka, que oito anos depois inspirou a ópera homônima de Nikolai Andréievitch Rimski-Korsakov (1844-1908).

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