Russo cria site com fotografias de alizares decorados com talha de madeira

Foto: nalichniki.com / Ivan Khafizov

Foto: nalichniki.com / Ivan Khafizov

Guarnição de madeira que cobre as ombreiras das portas ou janelas, no século 18, os alizares eram elementos importantes da arquitetura em madeira e vinham decorados com ricos trabalhos de talha.

Elemento arquitetônico transformado em forma de arte e preservado até hoje em muitas regiões da Rússia graças às tradições de construção locais, o alizar é uma guarnição de madeira que cobre as ombreiras das portas ou janelas.

No século 18, eram elementos importantes da arquitetura em madeira e vinham decorados com ricos trabalhos de talha.

As peças que até hoje maravilham por sua complexidade e delicadeza serviram de inspiração para Ivan Khafizov, que viaja pelo país fotografando guarnições de madeira de janelas e fundou um projeto de internet, o nalichniki.com, onde apresenta sua impressionante coleção de fotos.

A Gazeta Russa conversou com o fotógrafo. 

Gazeta Russa: Por que você se interessou pelos alizares? Eles possuem algo especial? Só podem ser encontrados na Rússia?

Ivan Khafizov: Os alizares são um dos poucos elementos da cultura que surgiu para se alastrar por um vasto território e assimilar elementos da cultura dos mais diversos povos. Mas são um elemento cultural despercebido pela maioria das pessoas.

Muitos conhecem as pinturas em madeira Gorodets, Khokhloma, Gjel. Elas possuem os nomes das cidades onde surgiram. O mesmo pode ser dito sobre os alizares. Cada cidade tem sua própria escola de talha, com suas tradições e leis próprias.

Eles me interessaram porque são lindos. Sua beleza não tem nenhum efeito prático, mas até os camponeses pobres decoravam as janelas de suas casas com alizares em talha. Isso distinguia sua aldeia das outras.

Quanto à sua expansão, suponho que a área de distribuição coincida com o território sob a influência do império russo no final do século 19, quando os alizares estavam no auge da popularidade. Mas essa é uma suposição.

G.R.: Qual foi a origem do seu projeto?

I.K.: Tudo começou por acaso: acho que qualquer pessoa que se interessa por história, cultura e fotografia poderia ter começado a fotografá-los.

Um dia visitei a cidade de Engels e de lá fui para Rostov e Borisoglebsk. Reparei que, em Engels, as janelas tinham adufas e alizares decorados com talha pintada. Já em Rostov, os alizares eram mais austeros e não havia adufas, enquanto em Borisoglebsk, as janelas tinham alizares entalhados.

Fiquei intrigado e comecei a fotografar alizares em todas as minhas viagens. Quando o número de cidades chegou a 20, comecei a ler literatura especial. Portanto, acho que na origem de meu projeto esteve minha coleção de fotos e não meu hobby de fotografar.

G.R.: Quaisforam a primeiras reações a suas fotografias?

I.K.: Houve quase nenhuma reação no início. Antes de alguém reparar na internet  minhas fotografias, eu já havia fotografado e processado cerca de 1.000 imagens de alizares e postado colagens com fotos tiradas em pelo menos cinco cidades e já sabia que iria continuar fazendo isso. O público mostrou interesse quando o projeto já tinha três anos de existência.

G.R.: O que se pode saber da cidade pelos alizares? Quantas pessoas na Rússia são capazes de "lê-los"?

I.K: Há um equívoco comum de afirmar que os alizares trariam uma mensagem criptografada redigida por eslavos antigos. Não é bem assim.

Os alizares decorados com talha de madeira estão presentes em uma vasta área desde o Mar do Japão até a Polônia, inclusive no Alasca, como eu soube há pouco. É pouco provável que todos os alizares tragam uma mesma mensagem.

Foram feitos por pessoas que falavam línguas diferentes, com diferentes religiões e história. Portanto, acho que as pessoas capazes de "ler" os alizares não existem. No entanto, há um pequeno grupo que entende os desenhos de um determinado tipo de escultura em madeira.

Essa escultura é utilizada em alizares de origem eslava, que são comuns em várias regiões da Rússia, principalmente nas de Iaroslavl, Vladímir, Ivanovo e Níjni Nóvgorod.

Em Krasnoiarsk (na Sibéria), por exemplo, vi que nos ornamentos de muitos alizares estava presente a letra russa "Ш" invertida.

Em um fórum de internet, um usuário viu nesse símbolo o selo da dinastia antiga dos Herai, do Cazaquistão, e disse que o selo remontava ao final do século 14 e representava um gadanho e não a letra russa "Ш" invertida. Assim, ficou claro quem vivia nessas terras há 700 anos.

G.R.: Você tem uma região ou um mestre favorito?

I.K.: Gosto muito dos alizares da cidade de Tomsk, na Sibéria. Deve ser porque são muito diferentes daqueles que podem ser encontrados perto de Moscou. Por outro lado, adoro uma imensa variedade de alizares da cidade de Egorievsk, nos arredores de Moscou.

G.R.: Você procura captar recursos para o financiamento de seu projeto por meio de crowdfunding. Esse método é eficaz na Rússia?

I.K.: Se ele é eficaz nos Estados Unidos, na Europa e na Austrália, por que deveria ser ineficaz na Rússia?

Esse método é eficaz aqui, embora a Rússia se mantenha atrasada nesse sentido em relação a outros países: a primeira experiência de crowdfunding aqui data de 2010.

Os projetos são poucos e a maioria das pessoas não sabe nada deles. Quase todos os que contribuíram para meu projeto, por exemplo, souberam por meio dele da existência do crowdfunding. 

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