Criado na Rússia, jogo Máfia ganha novo status e quer virar esporte

Foto: TASS

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Enquanto a maioria das pessoas considera o jogo como uma maneira divertida de passar uma noite na companhia de amigos, alguns empresários enxergaram no jogo um negócio promissor e criaram várias versões do jogo: corporativas, infantis, assim como opções de treinamento psicológico baseadas em Máfia.

O que pode fazer em Moscou em uma sexta-feira à noite uma pessoa cansada de discotecas e restaurantes? Uma partida do jogo intelectual Máfia, desenvolvido há 26 anos na Rússia pelo estudante de psicologia Dmítri Davidov, seria uma boa opção.

Precedido por jogos como Lobisomem e Assassino, conhecidos na Europa desde meados do século 20, Máfia é jogado atualmente em clubes especiais de Moscou e é visto como um negócio promissor.

Muito popular entre universitários na época da URSS, Máfia se espalhou por todo o mundo e agora tem várias versões.

Na mais famosa, o banqueiro distribui cartas entre os jogadores (entre 8 a 16 pessoas): dois ou três viram mafiosos, um vira um oficial de polícia e os demais, civis. O banqueiro anuncia o anoitecer e a cidade vai dormir. A máfia, então, acorda e "mata" um morador. Durante a noite, o policial e o banqueiro tentam descobrir qual dos jogadores poderia ter ligação com a máfia. Quando os moradores despertam, começa a discussão de quem poderia ter sido o autor do crime. Por votação, o menos convincente ao negar sua implicação no crime vai para a cadeia.

Os dias e noites se alternam até a máfia conquistar a superioridade numérica ou todos os bandidos ficarem atrás das grades. Cada partida dura cerca de meia hora.

Negócio

Enquanto a maioria das pessoas considera o jogo como uma maneira divertida de passar uma noite na companhia de amigos, alguns empresários enxergaram no jogo um negócio promissor e criaram várias versões: corporativas, infantis, assim como opções de treinamento psicológico baseadas em Máfia.

“Verificou-se que o jogo pode ser um instrumento eficaz nas mãos de um especialista em recursos humanos, assim como pode ajudar a verificar um parceiro de negócio ou a encontrar um bom companheiro”, afirma a psicóloga clínica Lika Mikeladze.

Segundo Mikeladze, grandes empresas costumam organizar sessões de Máfia para seus funcionários para conhecê-los melhor.

"Se você prestar atenção nos jogadores, pode aprender muita coisa sobre eles, notar sinais não verbais que ocorrem durante os debates, ou seja, aprender a ver se eles estão ou não mentindo e o que eles estão tentando esconder. Essa técnica pode ser usada também em negociações comerciais", diz Mikeladze.

Uma partida custa, em média, US$ 32,50 por pessoa e envolve normalmente 10 jogadores.

Terminada a partida, especialistas em recursos humanos podem dizer quais dos jogadores têm qualidades de líder e se podem ser eficazes em situações difíceis.

Outras opções

O jogo também tornou-se uma excelente técnica utilizada também por políticos para treinar o timbre de voz, linguagem corporal e o tom persuasivo.

Algumas variedades podem ser usadas para ajudar as crianças com problemas de aprendizado e com colegas ou que não conseguem se concentrar, diz Mikeladze.

"Durante o jogo, a criança aprende a se concentrar: para não perder, ela deve fingir ou compreender quem é o mafioso. Enquanto estiver jogando, ela sai do estado caótico em que se encontrava e aprende a se comunicar com seus colegas", esclarece a psicóloga.

A versão do jogo em inglês é uma boa opção para treinar o idioma, especialmente quando se tem ao lado um nativo da língua.

Para os estrangeiros que trabalham na Rússia e têm, muitas vezes, problemas para encontrar atividades fora do trabalho, o jogo pode ser uma boa oportunidade para conhecer novas pessoas.  

Empresas

Não é difícil encontrar empresas especializadas em Máfia em Moscou. A Mafliga é uma delas. Seu presidente, Kamil Magomedov, encara o jogo como uma ótima oportunidade para as pessoas de um mesmo status social se comunicarem entre si.

Os clubes se classificam em classic, gold e platinum, em função do preço médio cobrado por sessão. Há clubes fechados, espaços onde os jogadores não pagam nada e lugares que cobram US$ 17 por noite.

Segundo Magomedov, Máfia é uma diversão elitista em termos de público e não de preço. Normalmente é jogado por pessoas de 25 anos que já estão cansadas de festas ruidosas e buscam se divertir com algo mais intelectual.

A Mafliga ainda não dá lucros , diz Magomedov. O dinheiro pago pelos jogadores é gasto com os salários dos banqueiros, gerentes e psicólogos.

Um formato mais atrativo é o de torneios e jogos em massa. Um jogo em massa, o TwiGame, no Tunning Hall (boate de Moscou), reuniu cerca de 1.000 pessoas através de redes sociais sem quaisquer anúncios publicitários.

Outra vertente promissora são jogos online por voz e vídeo –tais portais já existem e estão se desenvolvendo.

Federação

Na Rússia e em países vizinhos, Máfia está chegando a outro nível. A Federação do Jogo intelectual Máfia tem o objetivo ambicioso de transformar o jogo em esporte.

Seu presidente, Iliá Rogachév, acredita que a organização chegará à dimensão de federação nacional em dois anos. Depois disso, nada impede que Máfia vire esporte. A organização promove torneios, desenvolve padrões comuns pra o jogo e realiza campanhas de esclarecimento.

"Nossa missão é simples: esclarecer. Máfia é um instrumento de crescimento pessoal e uma excelente plataforma para a comunicação", disse Rogachev. "Talvez não tenhamos, por enquanto, uma noção clara sobre as potencialidades desse negócio e a importância de suas funções sociais, mas acreditamos que suas perspectivas são enormes."

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