Coreia do Norte lança míssil e provoca polêmica na comunidade internacional

Foto: AP

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"Esse lançamento não é mais assustador do que os anteriores", disse à imprensa russa Aleksandr Khramchikhin, chefe do setor de análise do Instituto de Análise Política e Militar. "A Coreia do Norte lança mísseis para chantagear a comunidade internacional, sobretudo os EUA, para obter ajuda humanitária."

Na última semana, a Coreia do Norte lançou um míssil de longo alcance, que colocou em órbita o satélite Kvanmenson-3. Podemos agora encarar a Coreia do Norte como país capaz de construir mísseis nucleares? O que o país quis demonstrar ao mundo ao lançar um satélite?

Essa não foi a primeira vez que a Coreia do Norte lançou um míssil balístico do tipo.

"Esse lançamento não é mais assustador do que os anteriores", disse à imprensa russa Aleksandr Khramchikhin, chefe do setor de análise do Instituto de Análise Política e Militar. "A Coreia do Norte lança mísseis para chantagear a comunidade internacional, sobretudo os EUA, para obter ajuda humanitária." 

Há várias décadas que o país intimida a comunidade internacional com um conflito armado. O colapso da URSS no final dos anos 1980 obrigou o governo norte-coreano a buscar novas fontes de subsistência. Como resultado, o país anunciou que usaria suas instalações nucleares civis para a construção de armas nucleares.

Os EUA se indignaram e se intimidaram. Como resultado, em 1994, surgiu o chamado "acordo-quadro de Viena" e a Organização para o Desenvolvimento Energético da Península da Coreia (KEDO, na sigla em inglês).

A comunidade internacional começou a fornecer à Coreia do Norte combustível e a ajudá-la a construir uma usina atômica. Em agosto de 1998, o país lançou um míssil balístico, que sobrevoou o Japão e deixou o Ocidente, já intimidado com os boatos sobre um programa secreto de enriquecimento de urânio de Pyongyang, novamente nervoso.

O sucessor de Bill Clinton na Casa Branca, George W. Bush, chamou a Coreia do Norte de país renegado. Assim começou a atual crise nuclear norte-coreana.

Em 2006, a Coreia do Norte realiza seu primeiro teste nuclear e consegue, na nova rodada das negociações multilaterais em Pequim, em fevereiro de 2007, a promessa de um milhão de toneladas de óleo combustível ou uma quantidade equivalente de eletricidade.

Até o final de 2008, a Coreia do Norte deveria desmantelar a instalação nuclear de Yongbyon, que, nos anos da "crise nuclear", produziu plutônio militar, e entregar aos negociadores internacionais uma lista de todas as suas instalações nucleares sujeitas à destruição. No entanto, Seul ameaçou encerrar sua cooperação com Pyongyang se não houvesse progressos no domínio nuclear.

Agora o "irreconciliável" George W. Bush teve que intervir para persuadir os sul-coreanos a serem mais contidos. Prometeu ainda retornar com a ajuda econômica e retirar a Coreia do Norte da lista dos suspeitos de ajudarem terroristas, caso o país continuasse desmantelando suas instalações nucleares conforme o acordo de fevereiro de 2007 e apresentasse a lista completa das mesmas.

Prometeu ainda que as sanções econômicas à Coreia do Norte seriam levantadas e os EUA iriam examinar a possibilidade de estabelecer relações diplomáticas com o país.

No final de junho de 2008, a lista das instalações nucleares foi entregue à delegação chinesa e distribuída entre todos os negociadores internacionais. Como resultado, em 10 de julho, as negociações multilaterais foram retomadas, em Pequim.

Em maio de 2010, o governo norte-coreano realizou o segundo teste nuclear para consolidar seu sucesso diplomático.

Potência nuclear?

Podemos encarar a Coreia do Norte como potência nuclear após ter lançado com êxito seu satélite? Podemos, mas apenas em teoria.

Um estoque de material capaz de sustentar uma fissão nuclear em si não é uma arma. É preciso criar munições e testá-las em um campo de provas para verificar sua funcionalidade e identificar seu poder real de destruição e sua capacidade de se integrar a uma arma nuclear, que representa um sistema complexo e tecnologicamente sofisticado.

Se um país lança com êxito um foguete multiestágio e coloca em órbita um satélite, isso não significa que ele já seja capaz de desferir golpes nucleares e lançar mísseis.

Prova disso é a experiência soviética no final dos anos 1950, que, já naquela época, era muito mais rica do que a atual experiência norte-coreana.

O famoso primeiro satélite do mundo foi nada mais do que um subproduto do programa de mísseis nucleares soviético.

Em 21 de agosto de 1957, uma maquete de ogiva do míssil R-7, desenvolvida pelo chefe do programa de mísseis soviético, Sergêi Korolev, percorreu 5.600 km e quase atingiu um campo de provas na península de Kamchatka.

No entanto, apesar dos relatos vitoriosos da imprensa soviética, o R-7 estava muito longe de ser uma arma realmente perigosa. Levava 10 dias para ser preparado para o lançamento e 12 horas para ser abastecido. Além disso, a maquete de ogiva não conseguia atingir a superfície terrestre por se desintegrar nas camadas densas da atmosfera.

Ciente de que esse problema não podia ser resolvido em pouco tempo, o Conselho de Projetistas decidiu desviar a atenção da liderança soviética para lançamentos espaciais. Assim, surgiu a ideia de lançar o primeiro satélite artificial da Terra.

O presidente da Academia de Problemas Geopolíticos, Leonid Ivachov, acha que a confusão em torno do míssil norte-coreano é exagerada porque o lançamento, ainda que bem sucedido, não representou nenhuma ameaça à segurança internacional.

"Acho que não há motivos para uma reação tão ativa ao lançamento do míssil norte-coreano. Simplesmente alguém está interessado em aumentar ainda mais a tensão no mundo", disse Ivachov.

Hoje não representou, mas o governo de Pyongyang tem paciência. 

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