Torcida organizada do Zenit lança manifesto racista

Foto: TASS

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Declarações racistas da torcida do clube de São Petersburgo podem ter consequências negativas para a imagem do país, que se prepara para sediar a Copa do Mundo de 2018.

A torcida organizada do time de futebol russo Zenit divulgou uma carta em que declarou ser contra a contratação de jogadores negros e homossexuais pelo clube.

Para os autores do manifesto, o clube deve contar apenas com jogadores locais ou de nações eslavas, bálticas ou escandinavas.

"O manifesto foi intensamente discutido em nosso fórum de internet e obteve mais de 90% dos votos favoráveis", disse um representante da torcida organizada do Zenit citado pelo jornal Metro.

"O manifesto não tem um caráter de ultimato e representa uma opinião coordenada de pessoas que têm apoiado a equipe por muitos anos", completou.

Os autores do manifesto não consideram sua postura como racista.

"Não somos racistas, mas consideramos a ausência de jogadores negros no Zenit uma tradição importante", afirma a carta.

"A torcida do Zenit escreveu tudo certo. Quando o Barcelona coloca em campo 11 jogadores formados pelo clube, todo o mundo fica admirado", disse o torcedor Maksim Karotin em entrevista ao Gazeta.ru a respeito do manifesto.

Em comunicado divulgado por sua assessoria de imprensa, a  diretoria do clube disse que os principais critérios para a contratação de um jogador são suas qualidades e realizações esportivas e não sua origem étnica ou cor da pele.

Especialistas em futebol, no entanto, são mais categóricos e fizeram comentários mais duros.

O ex-jogador soviético e primeiro vice-presidente da União de Futebol da Rússia, Nikita Simonian, condenou o manifesto.  

"É muito estranho ler coisas como essas em um momento em que todo o mundo está tentando se unir, e pessoas de credos e cores diferentes vivem juntas", disse Simonian em entrevista ao jornal Izvéstia.

"Acho que a postura da torcida de São Petersburgo é errada e prejudica a imagem do clube e do país", ressaltou.

O ex-jogador do Zenit e campeão com a URSS em 1984 Sergêi Vedeneev acredita que interesses alheios estão por trás do manifesto.

"Muitas pessoas de diferentes origens étnicas vivem e estudam em São Petersburgo. Pessoas normais nunca se permitirão declarações como essa. Se isso acontece, então alguém deve estar por trás disso. Os jovens são facilmente sugestionáveis. Portanto, alguém tem interesse em fomentar a raiva e a agressividade tanto em São Petersburgo quanto em todo o país", disse o atleta.

Já o presidente da Sociedade de Torcedores de Futebol da Rússia, Aleksandr Chprigin, disse ter pedido a juristas para qualificarem juridicamente o manifesto publicado.

"Quase todo o mundo apresenta os autores da carta como racistas", disse Chprigin ao jornal Gazeta.ru.

"Li com muita atenção o manifesto e não encontrei nele nada de condenável. Cada fã-clube, cada associação de torcedores tem o direito de ter sua própria posição", salientou.

Mais polêmicas

A atual temporada de futebol russo foi marcada por uma série de escândalos, cuja personagem mais frequente foi o clube de São Petersburgo Zenit.

Depois da polêmica contratação do atacante Hulk, por conta do alto valor pago pelo jogador brasileiro, e do meia Axel Witsel, o capitão do time, Ígor Denissov, se recusou a jogar e exigiu o aumento salarial. Acabou, entretanto, relegado para a equipe B.

Outro escândalo aconteceu após uma partida em Moscou, quando o goleiro do Dínamo Moscou, Anton Chunin, foi atingido por um foguete lançado em sua área pela torcida do Zenit.

No final do ano, a torcida do clube voltou a causar polêmica ao publicar um manifesto intitulado Seleção-12 em seu site oficial. No documento, a torcida se declara contrária à contratação de jogadores negros, gays e daqueles que, segundo eles, correm de um clube para outro em busca de dinheiro.

Reportagem combinada com materiais dos veículos Izvéstia, Kommersant e Gazeta.ru

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