“Esperamos que o Brasil continue a fornecer carne à Rússia”

Segundo Benedito Rosa do Espirito Santo, diretor de Assuntos Comerciais Externos do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil, expectativas são de que um certo número de frigoríficos de Mato Grosso, Paraná e Rio Grande do Sul deverão ser reabilitados para vender carne para a Rússia já no início do próximo ano

O Programa Voz da Rússia tem realizado uma serie de entrevistas com diversas personalidades relacionadas à visita que a presidenta Dilma Rousseff fará a Rússia entre amanhã e sexta-feira.

O engenheiro agrônomo Benedito Rosa do Espirito Santo, diretor de Assuntos Comerciais Externos do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil falou sobre o nível das relações comerciais envolvendo os produtos agrícolas fabricados no Brasil e na Rússia.

Voz da Rússia: Se perguntarmos na Rússia quem é o principal fornecedor de carne para o país, teremos seguramente diversas respostas, tais como Estados Unidos, Canadá, Argentina, Austrália, mas nunca a resposta correta, que é o Brasil. Por que o Brasil não faz valer mais o seu peso como principal fornecedor de carne para o mercado russo?

Benedito Rosa do Espírito Santo: O Brasil é um fornecedor de larga escala de carne bovina para mais de 160 mercados. Entretanto, tal fato tomou essa dimensão apenas há poucos anos. Logo, o Brasil ainda está construindo a sua imagem de grande fornecedor para um número enorme de mercados. É verdade que o mercado russo é muito importante, e eu concordo com o que está implícito na pergunta, de que é necessário ao Brasil realizar maiores investimentos em imagem.

VR: O senhor não considera que seria mais recomendável resolver os problemas pendentes com o serviço de controle veterinário da Rússia em torno da carne brasileira, de forma a passar para os consumidores russos a verdadeira imagem da carne brasileira, de que ela é um produto de altíssima qualidade?

BR: Sim, eu diria que há esforços nessa direção e que, faz alguns anos, há momentos em que fazemos avanços e que recuamos. Ultimamente, no entanto, percebo que os avanços têm sido mais consistentes. As inconformidades, as diferenças de interpretação de normas, problemas com fornecimento de dados, relatórios, inclusive de laboratórios, compõem um contexto complexo. Eu reconheço que, ao longo dos últimos anos, tem havido problemas, mas há uma tendência para um trabalho na área da equivalência e nós todos acreditamos que, com a entrada da Rússia na OMC (Organização Mundial do Comércio), esse processo ficará um pouco mais ágil.

Do lado brasileiro, também reconhecemos que o universo de frigoríficos e abatedouros é enorme, que há sempre um número muito grande de frigoríficos solicitando habilitação, alguns deles já em vias de processo para a sua acreditação. Mas a própria seleção natural está indicando que, de agora em diante, teremos menores dificuldades para resolver essas inconformidades.

VR: Como estão, neste momento, as restrições estabelecidas pelas autoridades russas para alguns frigoríficos brasileiros, oficialmente impostas pelos sanitaristas russos em 15 de junho de 2011?

BR: Efetivamente, em 15 de junho de 2011, a missão veterinária excluiu os estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso da lista de Estados autorizados para o fornecimento de carne à Rússia. Posteriormente, o serviço veterinário russo enviou uma missão, que apresentou seu relatório. Este relatório foi analisado pelo Ministério da Agricultura, que identificou as inconformidades, deu explicações aos sanitaristas russos e fez um plano de correção, que está sendo enviado à Moscou.

O relatório russo chegou ao Brasil no final de setembro e, desde então, tem havido um trabalho sistemático por parte do Ministério da Agricultura. Nossa expectativa é de que uma lista de frigoríficos, que está sob análise pelo serviço veterinário da Rússia, seja autorizado a voltar a fornecer carne para o mercado russo e, com isso, o problema estará bastante diminuído em relação aos três Estados (Mato Grosso, Paraná e Rio Grande do Sul). Mas há de se reconhecer que existem mais 35 estabelecimentos de outros Estados brasileiros que estão habilitados a exportar carne para a Rússia.

VR: Logo depois da Perestroika, a Rússia importava 70% dos produtos agrícolas. Quem conhece um pouco a história do país sabe que essa festa não iria demorar muito tempo para os exportadores, como, de fato, não demorou. Quando a Rússia implantou o programa de agrobusiness, privatizou terras e aplicou recursos monstruosos no agronegócio, a situação começou a melhorar para os produtores russos e a piorar para os exportadores. Para o bom observador, ficou claro que os produtos de proteína animal, como suínos e aves, logo seriam produzidos pela Rússia, o que acabou acontecendo, permitindo que o país esteja hoje numa posição de praticamente autossuficiência. Por que razão os fabricantes brasileiros desses produtos não procuraram, e continuam a não procurar, parceiros russos e se conformam em perder mercado?

BR: Efetivamente, houve problemas com o setor de aves e suínos, mas eu diria que talvez tenha havido interferências de natureza comercial também. A questão abordada é muito importante. Por parte da Rússia, com o fim da Perestroika, aconteceram privatizações de estabelecimentos e a modernização do sistema produtivo russo. Já o Brasil se afirmou, nos últimos dez anos, como grande fornecedor do mercado de aves e, mais recentemente, os suínos criaram uma situação bastante positiva.

Hoje, do lado brasileiro, existe uma escala produtiva grande, mas temos deficiências que precisam e serão melhoradas, sobretudo em termos de logística de terminais nos portos, nos transportes, e na gestão de tecnologia de ponta, que deverão ser introduzidas no Brasil.

Quero dizer que os empresários russos podem e devem participar de um esforço de modernização de toda a cadeia produtiva de alimentos, desde a introdução de tecnologias no Brasil até a chegada ao consumidor russo. Acho que esse será um caminho proveitoso para ambos os lados, no qual há espaço para investimento dos empresários russos no que diz respeito a um trabalho conjunto com os brasileiros.

VR: Voltando à questão da carne bovina: será que não chegou o momento de procurar parcerias na área da alimentação, da produção e da reprodução do gado? Da mesma forma, na área da fabricação dos produtos industrializados da carne, estas medidas poderiam evitar que se repita o que aconteceu com a carne suína e com a carne de aves do Brasil, que diminuíram, significativamente, a sua presença na Rússia?

BR: Sem dúvida. Por exemplo, problemas de natureza burocrática, inconformidades, custo de produção indevido em função de problemas de logística, cronogramas de comercialização na Rússia e inconformidades do ponto de vista fitossanitário são enfrentados por todos os países que exportam. São problemas que existem e que os países buscam resolver.

Eu diria que este caminho requer uma atenção maior e, repito, é necessária a participação conjunta dos empresários russos em investimentos, de forma a resolver esses problemas do ponto de vista comercial. Ou seja, também tirando proveito de facilitação de negócios, da redução de custos e dos ganhos conjuntos com empresas brasileiras. Entendo que este é um caminho a ser construído conjuntamente pelas duas partes, russa e brasileira.

VR: Entre os produtores de carne do Brasil existe a convicção de que o mundo sempre vai precisar da carne brasileira. Não seria razoável buscar parceiros mais sólidos a longo prazo ao invés de, simplesmente, apostar na simples necessidade material do produto?

BR: Sim. Nós todos esperamos que o Brasil continue a ser um grande fornecedor de carne bovina para o mundo, especialmente para a Rússia, em função das condições naturais que o Brasil dispõe para produção e do nível de tecnologia já introduzida. Esse quadro nos apresenta uma situação de alta competitividade. O Brasil pode hoje mostrar ao mundo que o boi criado no país é essencialmente alimentado em regime de pastagem, que tem um nível de sanidade excelente. Não existem reclamações quanto a problemas de saúde por parte dos consumidores.

Há muitos anos, o Brasil exporta e não há problemas nessa área. Estamos conseguindo produzir uma tonelada de carne bovina a um custo da ordem de um terço do que se consegue na Europa. Portanto, esse quadro geral credencia o Brasil a receber parcerias importantes e a trabalharmos juntos com outros empreendedores. O Brasil é um nome em construção, assim como o empresariado russo é bem-vindo para trabalhar conjuntamente.

VR: Grandes cidades russas têm o costume de consumir sucos de frutas em quantidades muito próximas às das principais capitais do mundo. As lojas russas estão cheias de sucos produzidos em outros países mas, dificilmente, encontram-se na Rússia sucos de frutas tropicais. Como se explica isso? Estes fatos ocorrem por desconhecimento ou por inércia? Há falta de interesse em promover o produto nacional?

BR: Noventa por cento do suco de laranja consumido na Rússia é, praticamente, procedente do Brasil, mas comercializado através de outras grandes empresas de trading. Falta, realmente, mais informação e um trabalho consistente sobre a imagem do suco de laranja. Talvez a deficiência seja maior do lado brasileiro e não do russo.

VR: Esta mesma pergunta serve para as frutas tropicais. Os russos adoram melão, mamão papaia e manga, frutas autenticamente brasileiras. Por que estas frutas não chegam até eles?

BR: Infelizmente, o Brasil ainda não é um grande exportador de suco de frutas naturais, à exceção do suco de laranja. Cremos, firmemente, que esta é uma tendência natural. Por enquanto, o Brasil é um fornecedor de destaque de algumas das frutas mencionadas, e está aí um bom exemplo de onde os empresários russos podem se juntar conosco e produzir sucos de frutas diretamente para o mercado russo.

VR: A imprensa brasileira tem falado muito da importação pelo Brasil do trigo russo. Até que ponto esta informação procede? Não seria o início da exportação do trigo russo para o Brasil uma maneira de acalmar os ânimos e continuar daqui para frente a manter as relações do agrobusiness de uma forma mais tranquila e produtiva para ambas as partes?

BR: Sim, poderia. Agora, é preciso deixar claro que o Brasil é membro do Mercosul e da Organização Mundial do Comércio. Assim, estamos submetidos à algumas regras, que incluem uma tarifa externa comum de 10% para importação de trigo extra na zona do Mercosul. Os governos e empresários russos têm pedido o fim da cobrança desta tarifa. Infelizmente, não podemos retirá-la simplesmente para um único fornecedor pois teríamos, se fosse o caso, de retirá-la de todos os países que queiram exportar trigo para o Brasil.

Isso depende de um acordo com o Mercosul, mas, além desse item específico, não há nenhuma restrição à entrada do trigo russo no Brasil. Já foram feitas muitas tratativas junto à Associação Brasileira das Indústrias de Trigo, e nos informam que, em relação ao trigo russo, a disposição é a mesma da importação concedida a qualquer país, desde que o produto russo tenha preço e qualidade. Talvez possamos fazer um trabalho de maior divulgação conjuntamente com os órgãos do governo russo, e também da iniciativa privada, no sentido de divulgar melhor a qualidade e as possibilidades de exportação do trigo russo. Um dos problemas que podem ocorrer é a questão do frete, mas há possibilidades que precisam ser exploradas.

VR: O Brasil está demonstrando ao mundo os bons resultados obtidos com a agrociência. Não seria essa troca de experiências com a Rússia o início de um excelente relacionamento no setor agrícola?

BR: Sem dúvida. Hoje, as cadeias do agronegócio são longas. No Brasil, o processo produtivo absorve tecnologia de ponta e a Rússia é bastante avançada em diversos segmentos da ciência e da tecnologia, que podem ser incorporados ao processo produtivo brasileiro. A Rússia dispõe de tecnologia desde a engenharia genética e a biologia até o uso mais eficaz de defensivos agrícolas, de fertilizantes e da agricultura de precisão. Tudo isso abre uma grande possibilidade de troca de experiências em proveito mútuo.

VR: Em que, do seu ponto de vista, a visita da presidenta Dilma Rousseff poderá contribuir para que todos os aspectos que abordamos se tornem realidade?

BR: Os últimos entendimentos, no mais alto nível de governo entre nossos dois países, ocorreram entre os então presidentes Dmítri Medvedev e Luíz Inácio Lula da Silva. Posteriormente, o vice-presidente Michel Temer esteve em Moscou. Penso que a ida da presidente Dilma Rousseff à Rússia significará uma continuidade desse trabalho de aproximação de natureza geopolítica, que é fundamental para incentivar e empurrar as negociações para um campo pragmático e que, a partir dessa definição de prioridades, a presença de Dilma em Moscou certamente será entendida como uma declaração factual e firme de atenção e de prioridade com a nação russa e o governo russos.

Creio que essa aproximação e a definição de prioridades nos abrirão perspectivas para movimentos mais específicos, tanto por parte da burocracia, como do empresariado, para realizar investimentos e aumentar o comércio bilateral. A economia brasileira está em processo de construção. O país é muito grande. Temos deficiência na área estrutural, de transportes, infraestrutura portuária e homogeneização de procedimentos tecnológicos.

Do outro lado, a Rússia tem um nível bem desenvolvido nessas áreas e o país, repito, é muito bem-vindo para um trabalho conjunto no Brasil. A corrente de comércio entre Rússia e Brasil, que está em torno de US$ 8 bilhões, representa um valor muito aquém do que essas duas grandes nações podem fazer, e nós podemos avançar muito nessa área.

De um lado, temos a Rússia como um grande exportador de energia, armamentos, tecnologia, e bens de capital. Do outro, temos o Brasil como um grande exportador de produtos agrícolas. Em torno desses fatos, não se criou uma base para que essa corrente de comércio pudesse se multiplicar. Acho que esse deve ser um dos pontos que os dois presidentes, Dilma Rousseff e Vladímir Putin, devem tratar, de modo a que se abram perspectivas para que essa prioridade de natureza geopolítica se converta em prioridade de natureza comercial e de investimentos.

É uma grande tarefa de cooperação que precisa ser estudada, analisada e racionalizada para que os investimentos façam deslanchar a relação comercial, que interessa aos dois países, num cenário em que a China está ocupando um espaço crescente na América do Sul e no Brasil, em que a Europa apresenta dificuldades e recessão econômica e os Estados Unidos e o Japão registram crescimento mais lento.

Portanto, tudo indica que há um caminho comum que convém muito à aproximação crescente entre Brasil e Rússia. Com essa maior aproximação, deverão se multiplicar não só a corrente de comércio, como também as relações culturais entre os dois países.

VR: Vamos voltar à questão dos frigoríficos brasileiros temporariamente impedidos de exportar carne para a Rússia. O sr. disse que esses frigoríficos, dos estados de Mato Grosso, Paraná e Rio Grande do Sul, estão prestes a concluir os entendimentos com as autoridades sanitárias russas. É possível estabelecer um período de tempo em que os produtos desses frigoríficos poderão voltar ao mercado russo?

BS: Sim. Os últimos relatórios encaminhados pelo Ministério da Agricultura ao serviço veterinário russo comentam as deficiências e as consistências encontradas e citadas pela missão russa e abordam um plano de trabalho com a correção dessas inconsistências. Como esses relatórios já estão sendo encaminhados a Moscou, nossas expectativas são as de que um certo número de frigoríficos desses três Estados deverão ser reabilitados em um futuro próximo.

VR: O senhor acredita que isto poderá acontecer no início de 2013?

BR: Sim.

VR: Quando exatamente?

BR: O fluxo burocrático é lento e talvez nenhum de nós possa fixar uma data precisa, mas acreditamos o esse processo não será demorado.

VR: O importante a destacar é que os entendimentos entre Rússia e Brasil estão avançando?

BR: Sem dúvida, há um entendimento mútuo. Nós, pelo lado brasileiro, temos uma percepção de que a Rússia tem um plano de trabalho para atingir a autossuficiência na produção de carne de aves e suínos e pretende diminuir a sua dependência da carne bovina vinda do exterior.

Porém, nós temos a percepção de que a Rússia necessitará de carne bovina durante um bom tempo, e o Brasil é um fornecedor confiável, com um sistema produtivo que respeita o meio ambiente e está em condições de complementar o abastecimento do mercado russo.

Com relação à carne de ave e suína, e esta é uma opinião pessoal, o plano do governo russo encontra similaridade em outros países também. É natural que existam essas metas. Nós, do lado brasileiro, entendemos que se a Rússia tiver necessidade de um produto que estamos em condição de produzir com custos menores, podemos complementar a sua demanda com um produto que possa contribuir para o controle de preços a nível de consumidores. O Brasil está, felizmente, trabalhando com custos baixos em produtos como milho, um dos itens principais na formação de custos na avicultura e na suinocultura.

Por outro lado, a participação de capitais russos no processo ao longo da cadeia produtiva, desde a produção até a comercialização, incluindo a introdução de tecnologia de ponta, só reforçará essa aproximação e a possibilidade de novos negócios. Devemos então destacar que, entre russos e brasileiros, há uma simpatia e uma amizade recíprocas. Certamente isso aumentará no futuro e nos aproximará mais.

Publicado originalmente no site diariodarussia.com.br

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