“Anna Karenina” se reinventa para atingir público jovem

Keira Knightley estrela “Anna Karenina”, de Joe Wright, que estreia no Brasil em fevereiro de 2013  Foto: Kinopoisk.ru

Keira Knightley estrela “Anna Karenina”, de Joe Wright, que estreia no Brasil em fevereiro de 2013 Foto: Kinopoisk.ru

Apesar do fracasso de suas últimas adaptações, obra de Tolstói ganha apelo com abordagem inovadora e grandes nomes do cinema internacional. Tendência de migrar dos épicos financiados pelo Estado para blockbusters com patrocínio privado indica que os filmes estão se voltando cada vez mais para o público jovem.

O filme “Anna Karenina” de Tom Stoppard e Joe Wright possui uma qualidade que falta à maioria dos exploradores de Tolstói: liberdade absoluta quando se trata de interpretar a obra-prima do prestigiado autor russo.

A corajosa decisão de Wright de mostrar a sociedade russa como um teatro gigante, onde as pessoas obedientemente executam os papéis que lhes são atribuídos, materializa a tempestade de emoções e pensamentos que o livro evoca nos leitores em vez de explorar simplesmente o enredo do romance.

O elenco do filme é impecável. Transformando a vida em uma performance teatral e uma história de famílias na qual em um problema universal, Wright não vê necessidade de retratar personagens tipicamente russos e, por essa razão, acaba mais próximo da realidade russa do que as tentativas de seus antecessores.

A expressividade teatral de Keira Knightley (Anna), Jude Law (Karenin), Aaron Taylor-Johnson (Vronsky) e Domhnall Gleeson (Levin) é fascinantemente natural e única, estabelecendo um novo padrão que supera facilmente todas as demais adaptações de “Anna Karenina”.

Embora o filme superlativa tenha chegado aos cinemas britânicos em setembro, não será lançado na Rússia antes de janeiro de 2013 (os brasileiros também terão que esperar até 15 de fevereiro para assistir ao filme). Uma quarentena tão longa para um filme feito no Ocidente é pouco comum na Rússia: as estreias em Moscou acontecem geralmente antes de Nova York e Londres.

A razão para essa demora tem provavelmente a ver com receios por parte dos distribuidores de filme na Rússia. Será que o filme baseado na obra literária irá realmente atrair espectadores? A verdade é que a última adaptação deste livro na Rússia, dirigida por Serguêi Soloviov, sequer chegou às telonas.

“Não é porque acham que é uma obra ruim. Mas a ideia de tentar vender um filme sobre Anna Karenina os deixa aterroriza. O problema é que ninguém sabe quem ela é entre os mais jovens”, disse o diretor na época.

A declaração era obviamente um exagero, já que Tolstói faz parte do programa de leitura nas escolas russas. Mas, de fato, a tradicional necessidade russa de encarar a literatura séria maneira de entender melhorar a vida já parecia estar desaparecendo. A literatura e o cinema, que costumavam ser uma espécie de escola de vida, são hoje vistos sobretudo como fonte de entretenimento.

Esse processo começou mais tarde na Rússia do que em muitos outros países, mas, uma vez iniciado, rapidamente assumiu características monstruosas: os adolescentes fazem filas para ver blockbusters, e os novos lançamentos são principalmente destinados a tal público.

Os meios de comunicação de massa estão tão focados nos adolescentes que quase pararam de transmitir filmes russos, embora continuem dando muita atenção para estrelas mundialmente famosas do cinema. O resultado tem sido um círculo vicioso com serviço orientado para indústria do cinema e a mídia de massa banalizando as expectativas de seu público.

Nesse novo contexto, os distribuidores da obra de Joe Wright estão provavelmente esperando que, após o feriado de Natal, a multidão de jovens ficará curiosa para ver o filme, uma vez que Keira Knightley encabeça o elenco. Por mais incrível que pareça, quando se trata de crianças e adolescentes, Keira Knightley é mais popular na Rússia do que a própria Anna Karenina.

Morte prematura

O produtor e diretor de cinema Serguêi Soloviov fez duas adaptações cinematográficas de “Anna Karenina”. Apesar de um elenco de estrelas conhecidas na Rússia, incluindo Oleg Iankovski (Karenin) e Aleksandr Abdulov (Oblonski), nenhuma das adaptação foi parar no cinema.

“Anna Karenina” de Soloviov levou 10 anos para ser produzido, e foi o primeiro filme a ser vítima da crise econômica dos anos 1990. Na época, os produtores estavam contando com a popularidade do romance como fórmula de sucesso, mas houve atrasos intermináveis devido à escassez de recursos financeiros.

O diretor, que estava acostumado ao financiamento estatal, teve que exercer uma nova habilidade ao pedir dinheiro para os ‘novos russos’. “Um homem me prometeu financiamento, mas acabou não dando nada. E assim aconteceu diversas vezes”, explicou Soloviov durante as filmagens.

“A última vez que falhamos ao obter recursos, tínhamos apenas mais alguns dias de filmagem; precisávamos rodar as cenas na estação onde Anna se joga debaixo do trem. É um filme caro: atores, cenas com muito figurantes, locomotivas etc. Por causa da nossa situação financeira, éramos obrigados a deixar nossa heroína viva – nem sequer tínhamos meios para matá-la.”

“E se nós a envenenássemos”, sugeriu o diretor. “Pode ser uma releitura do romance.” O dinheiro foi, entretanto, finalmente arrecadado, possibilitando que Anna realmente se atirasse sob o trem. Uma década depois de entrar em pré-produção, o filme de Soloviov ficou pronto em 2006. Mas, na época, o público russo parecia não ter ideia de quem era Anna Karenina.

Serguêi Soloviov também não era uma figura popular, mas cultivava uma imagem cult. Seus filmes dos anos 1980 anteciparam a perestroika de Gorbatchov. A música “Nós queremos mudanças”, da estrela do rock soviético Víktor Tsoi no filme “Assa”, produzido por Soloviov em 1987, havia soado como um estrondo para milhares de jovens, anunciando uma energia social até então impossível.

Os filmes de Soloviov eram ansiosamente aguardados. As pessoas ficavam em longas filas para vê-los, os heróis dos filmes tornavam-se símbolos da tão esperada mudança, e seus nomes e frases de efeito acabavam fazendo parte do folclore popular.

Apesar dos distribuidores atuais estarem convencidos de que ninguém precisa de tais esforços, Soloviov ainda nutre esperança de que os filmes possam influenciar as pessoas de novo, tornando-se um acontecimento não só para as empresas, mas para a arte e a vida em sociedade: “O romance nos ajuda a entender porque o destino nos lançou para essa vida. Esse nível de verdade humana por si só faz com que valha a pena filmar o romance”.

Karenina nos cinemas russos

1911

O diretor Maurice Maître produziu a primeira versão em cinema mudo de “Anna Karenina”, estrelada por atores de teatro de Moscou. O filme não sobreviveu e pouco se sabe sobre ele.

1914

Vladímir Gardin dirigiu uma nova adaptação com a participação de Maria Guermanova, uma estrela do Teatro de Arte de Moscou, no papel principal. O filme foi massacrado pelos críticos.

1953

Depois de muitos anos, os cineastas russos decidiram revisitar as obras de Tolstói. Tatiana Lukachevitch filmou uma performance teatral no Teatro de Arte de Moscou com Alla Tarasova como protagonista. O filme em preto-e-branco foi um sucesso de bilheteria.

1967

A primeira adaptação em cores do romance, produzida por Aleksandr Zarkhi no estúdio Mosfilm, agitou o interesse público novamente. Tatiana Samoilova desempenhou o papel de Anna, enquanto a primeira bailarina do Bolshoi, Maia Plisetskaia, incorporou Betsy.

1973

Plisetskaia assumiu o papel de Anna no espetáculo de balé concebido por Rodion Schedrin.

2006

O interesse pela obra havia diminuído mais uma vez e a nova adaptação de Serguêi Soloviov, estrelada por Tatiana Drubitch e pelos ícones do cinema russo Oleg Iankovski e Aleksandr Abdulov, foi apenas exibida em sessões privadas – os distribuidores acreditavam que o filme não teria futuro comercial.

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