Armas climáticas: mito ou verdade?

Ilustração: Aleksêi Iosch

Ilustração: Aleksêi Iosch

Acredita-se que os EUA e a Rússia possuam armas climáticas e tenham aprendido a usá-las para provocar desastres naturais. Será que tais armas existem? Quais trabalhos nesse sentido têm sido realizados no mundo?

Por arma climática se entende, segundo dicionários de terminologia militar, um conjunto de equipamento capaz de alterar condições meteorológicas e climáticas para causar danos ao inimigo e que utiliza a instabilidade microscópica das partículas que compõem as nuvens e se encontram em estado livre na atmosfera.

Os trabalhos para a materialização da ideia de agir sobre a natureza começaram nos EUA nos anos 1960. Em 1962, o país lançou um projeto chamado "Tempestade Violenta", para minimizar o efeito dos furacões por meio de dispersão de iodeto de prata nas nuvens. Em 1983, o projeto foi encerrado. Apesar de o objetivo máximo não ter sido atingido, os cientistas aprenderam a provocar chuvas, o que não passou despercebido para o Pentágono.

Durante a Guerra do Vietnã, aviões americanos pulverizaram iodetos de prata nas nuvens de chuva para causar aguaceiros com a intenção de tornar intransitável o caminho Ho Chi Minh, usado pelo Vietnã do Norte para o  transporte de armas, alimentos e combustível para as unidades rebeldes da Frente Nacional de Libertação do Vietnã do Sul. Mas a operação, com o nome de código "Projeto Espinafre", envolveu despesas muito grandes e teve um efeito passageiro.

Depois da guerra no Vietnã, em 1977, as Nações Unidas assinaram a Convenção sobre a Proibição do Uso Militar ou Hostil de Técnicas de Modificação Ambiental, que proibiu o uso do meio ambiente como arma de guerra.

A URSS também fez várias tentativas de domar a atmosfera. Cientistas do Instituto de Pesquisa de Processos Térmicos (atualmente, Centro de Pesquisa Keldich) tentaram agir sobre a atmosfera da Terra através da magnetosfera [uma espécie de envoltório do nosso planeta, formada pela interação entre o nosso campo magnético e o vento solar].

Um submarino estacionado na região circumpolar lançava mísseis com uma fonte de plasma com capacidade de até 1,5 MW. A intenção era conseguir a invisibilidade de objetos aos radares e estudar a possibilidade de usar tempestades magnéticas como arma ecológica. Experiências semelhantes foram realizadas pelo 40º Instituto da Marinha em um campo de provas especial nos arredores da cidade de Viborg, no noroeste da Rússia, e tiveram como objetivo simular o impacto de um impulso eletromagnético sobre as condições meteorológicas. Agora, esse campo de provas está abandonado.

A União Soviética também mexeu com furacões. No âmbito de pesquisas geofísicas no final dos anos 1970, perto da cidade de Vasilsurskm, na região de Nijni Nóvgorod, foi construído o complexo de rádio multifuncional Surá, destinado aos estudos da ionosfera. O Surá está sob a responsabilidade do Instituto de Radiofísica e continua em operação até hoje, funcionando apenas por cerca de 100 horas por ano devido à falta de recursos financeiros.

Alguns anos mais tarde, os americanos levaram à prática o projeto HAARP (em português, Programa de Investigação de Aurora Ativa de Alta Frequência). A instalação matriz está localizada na cidade de Hakon, no Alaska, e ocupa uma área de 14 hectares. O complexo compreende antenas, um emissor de radiação incoerente, uma antena de 20 metros de diâmetro, radares de laser, um magnetômetro e computadores para o processamento de sinais e controle do campo de antenas.

Desastres?

Para entender se os complexos HAARP e Surá são armas, é preciso saber se a energia produzida por esses emissores de alta frequência em pequenas quantidades é capaz de colocar em ação os poderosos processos de desastres naturais.

A maioria dos cientistas especializados em fenômenos atmosféricos duvida disso. Basta lembrar que o Sol ataca todos os dias a ionosfera com uma carga energética muito maior e que as explosões de testes nucleares direcionam à crosta terrestre, em um segundo, uma energia não comparável à emitida por até mesmo milhares de antenas semelhantes às do HAARP.

Numerosas experiências internacionais realizadas em aquecedores ionosféricos do Observatório de Arecibo, em Porto Rico, e outras instalações mostraram ser impossível produzir alterações prolongadas na ionosfera: todas as perturbações provocadas pelo homem desaparecem em poucos segundos ou minutos.

Segundo Vladímir Kuznetsov, da Academia de Ciências da Rússia, membro efetivo da Academia Internacional de Astronáutica e diretor do Instituto de Magnetismo Terrestre, Ionosfera e Propagação de Ondas de Rádio Nikolai Puchkov, hoje, as armas climáticas não existem. Os cientistas ainda discutem a viabilidade de tais projetos.

Kuznetsov nega que o projeto HAARP seja o responsável pelos atuais desastres naturais e considera que seu objetivo é estudar a interação de ondas de rádio com a ionosfera. Na sua opinião, a única coisa que o HAARP pode fazer é dispersar os sinais do sistema de localização GPS e de telefonia celular. No entanto, seu efeito acaba assim que a instalação é desativada.

De acordo com Kuznetsov, para pôr em ação uma arma climática, é preciso compreender bem os processos naturais operados na atmosfera. Como muita coisa até agora não está clara, não pode haver projeto relevante nesse sentido.

"Hoje em dia, realizam-se experiências para estudar os mecanismos-chave dos processos naturais no espaço circunterrestre e a possibilidade de usá-los para o controle do ambiente geofísico, mas esses mecanismos têm uma dimensão planetária", salienta  o cientista.

Nesse contexto, parece que seria mais lógico que os governos nacionais investissem mais no estudo da Terra como sistema aberto no Universo insondável em vez de buscarem armas climáticas utópicas.

Andrêi Kisliakóv - analista da emissora “Voz da Rússia”

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