Rússia e Europa: uma questão de negócios

Ilustração: Natalia Mikhailenko

Ilustração: Natalia Mikhailenko

Os parceiros ocidentais terão de assumir que a Rússia tem sua própria opinião sobre as relações entre o Estado e a sociedade, ou a Rússia começará a se adaptar às atuais normas políticas da Europa, ou a interação econômica começará a sofrer das contradições políticas.

Atualmente, as relações entre a Rússia e a Europa têm duas tendências principais: a crescente distância ideológico-política e o aumento de interesse econômico. Isso foi revelado na última reunião entre Rússia e Alemanha.

Se esperava um escândalo porque, na véspera do evento, o Bundestag aprovou uma dura resolução sobre o estado da democracia na Rússia, precedida pelas divergências públicas devido às ações e declarações do coordenador alemão das relações com a Rússia, Andreas Schockenhoff.

Vários meios de comunicação informaram que as relações entre os dois países, consideradas recentemente como dois aliados próximos, estão passando por uma crise profunda.

No entanto, não houve conflito aberto. Houve uma troca de opiniões sobre a situação política interna na Rússia, mas, como sempre acontece entre Moscou e Berlim, na sombra de temas de negócios.

Politicamente, a Rússia se recusa a seguir o modelo que até recentemente era considerado como padrão. Nos anos 1990 e 2000, Moscou entrava em conflito com os seus parceiros europeus sobre questões políticas e éticas, e a Rússia sempre afirmou a sua "particularidade nacional" e sua incapacidade de alcançar tão rapidamente o nível de democracia dos ouros países europeus.

Em outras palavras, a Rússia sempre mostrou seu direito de seguir seu próprio caminho em seu próprio ritmo.

Agora tudo é diferente. O modelo europeu não é mais considerado como uma referência, e seu conteúdo ético é questionado constantemente.

Dois pontos de vista

A situação da banda Pussy Riot mostra claramente o desacordo entre os dois pontos de vista. Na Europa se fala sobre perseguições políticas, violação da liberdade de expressão, enquanto na Rússia os atos são enxergados como sacrilégio, blasfêmia e  insulto de sentimentos religiosos.

É verdade que nessa discussão existe um conflito propagandístico, mas também há um choque de ponto de vista mundiais: o ponto de vista liberal, profundamente enraizado na Europa moderna, e o ponto de vista tradicional da Rússia.

Em um contexto de desaparecimento de paradigmas morais e ideológicos da época soviética e pós-soviética, a sociedade russa começa a procurar outros suportes. 

De outro lado, a Rússia finalmente entrou na OMC (Organização Mundial do Comércio), o que criou novos mecanismos que ajudarão a defender os interesses dos investidores estrangeiros.

Os empresários europeus estão realmente interessados em que as divergências políticas não impeçam o funcionamento do mercado russo, assim como não impediram os investimentos na China. 

Uma questão interessante seria até que ponto será possível conciliar essa duas tendências divergentes: a crescente distância ideológico-política e o aumento de interesse econômico.

O encontro russo-alemão mostrou que agora não há contradições fatais.

No entanto, essa dissonância não pode durar para sempre. Os parceiros ocidentais terão de assumir que a Rússia tem sua própria opinião sobre as relações entre o Estado e a sociedade, ou a Rússia começará a se adaptar às atuais normas políticas da Europa ou a interação econômica começará a sofrer das contradições políticas. 

Fiódor Lukianov é editor-chefe da revista Russia in Global Affairs Originalmente publicado pela agência de notícias RIA Nóvosti

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