Qual será a nova ordem internacional?

Ilustração: Sergêi Iólkin

Ilustração: Sergêi Iólkin

Estão terminando processos de diferente duração: desde a Guerra Fria, com sua inércia intelectual e geoestratégica, até a predomínio de 500 anos do Ocidente na política, economia e nas finanças globais.

As relações internacionais, assim como toda a evolução mundial, estão em transição para, possivelmente, uma nova época histórica. Ao mesmo tempo, estão terminando processos de diferente duração: desde a Guerra Fria, com sua inércia intelectual e geoestratégica, até o predomínio de 500 anos do Ocidente na política, economia e nas finanças globais.

O que está acontecendo tem razões objetivas e não devemos cair em pânico. É importante analisarmos os processos operados de forma sensata em um contexto histórico mais amplo e em termos que extravasem os restritos conceitos ideológicos dos discursos dos tempos de Guerra Fria. A história e as relações internacionais não começaram em 1945. Uma visão tão ampla e imparcial das coisas poderia levar, inclusive, a conclusões encorajadoras e ajudar a identificar um potencial real para a convergência e a síntese na política euro-atlântica.

Consultar a história não é apenas útil, mas também necessário. Por exemplo, a Guerra da Crimeia quebrou o equilíbrio europeu, que se manteve em paz  durante 40 anos, e se tornou um ponto de partida para a Primeira Guerra Mundial e todas as tragédias posteriores da Europa e do mundo no século 20. Foi naquela época que os países líderes da Europa começaram a demonizar uns aos outros de forma agressiva sob a bandeira nacionalista para justificar não só a guerra, mas também a subsequente humilhação dos países vencidos e sua divisão territorial. Após a Rússia, chegou a vez da Dinamarca, Áustria, França, e, finalmente, da Alemanha. A ordem europeia e internacional entrou em colapso.

Em meados do século passado, Karl Jaspers escreveu que havia duas opções de nova ordem mundial: um império global e uma ordem internacional. A experiência dos últimos 20 anos mostra que a primeira opção é impossível. Resta, portanto, a segunda.

A experiência histórica nos ensina que não devemos menosprezar aquilo que temos. Em primeiro lugar, temos a ONU (Organização das Nações Unidas), criada para lidar com nosso mundo diverso e multipolar. O confronto bipolar causou deformações do tempo. Não é possível arrasar tudo para começar a construir a partir do zero, negando aos outros o "direito à salvação", como tentaram fazer os bolcheviques e antes deles, os fanáticos puritanos.

A questão é saber como adaptar a ONU à realidade. A principal característica de nossa época histórica é a indefinição e uma grande variedade de opções de desenvolvimento de quaisquer fenômenos. Daí a necessidade da diplomacia possuir um conjunto flexível de instrumentos. Não há mais razões para volumosas alianças político-militares semelhantes às criadas no passado. A alternativa é uma diplomacia de rede e de múltiplas opções. Essa escolha está consagrada no Conceito de Política Externa da Rússia, aprovado em julho de  2008. Desde então, essa ideia vem tomando conta de outros países, entre os quais os EUA e o Reino Unido.

Há um denominador comum mais importante: os problemas do desenvolvimento assumem importância primordial para todos os países do mundo. Todo o mundo reconhece que o desenvolvimento socioeconômico sustentável e o desenvolvimento de outras esferas é um desafio fundamental de política externa. Isso deve nos unir, porque, ao contrário da era colonial, o  desenvolvimento internacional não pode mais ser um jogo de soma nula.

Novos desafios e ameaças tornam ainda mais relevante a necessidade de igualar os níveis de desenvolvimento, tanto mais que o potencial de crescimento das grandes economias dinâmicas e dos países em desenvolvimento deve ser a principal fonte de reativação econômica nos países industrializados. Para acabar com sua insegurança, eles devem debelar a crise e recuperar sua solvência.

A globalização (Gordon Brown falou também sobre a ameaça de "desglobalização") deve ser repensada. Infelizmente, até agora, a globalização exercia as mesmas funções dos impérios do passado, proporcionando as oportunidades de desenvolvimento segundo o princípio do jogo de soma zero. Como resultado, só as camadas populacionais "intensivas em capital" ganhavam com isso, o que desunia a sociedade. Com fontes de renda no exterior, as camadas abastadas não se interessavam pelos problemas do desenvolvimento nacional. Parece ter sido exatamente esse esquema de globalização que se tornou uma das causas da atual crise nos países ocidentais, crise essa que quase fez desaparecer a classe média em um país europeu.

Os "novos" atores conseguirão, mais cedo ou mais tarde, o que estão procurando. Mas isso vai acontecer com base nos resultados positivos de seu desenvolvimento nacional entrelaçado com o desenvolvimento de outros. Já os "velhos" atores devem pensar em como ajudá-los a formular seus objetivos políticos no cenário internacional de modo a compatibilizá-los com os interesses da comunidade internacional em geral.

Isso poderia ser feito no âmbito dos esforços verdadeiramente colaborativos em todo o espectro de questões internacionais e sob a forma de liderança coletiva dos principais países do mundo. Esse engajamento mútuo prevê que os países abdiquem da prática de reação unilateral, inclusive militar, a desafios. Se conseguirmos isso na busca de uma solução para a crise síria, conseguiremos fazer isso nas demais questões.

Aleksandr Iakovenko é embaixador da Rússia no Reino Unido

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