Novo status da Palestina deve servir de incentivo para a retomada das negociações de paz com Israel

Foto: Reuters / Vostock-Photo

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"Seguimos com a posição de lutar por nossos direitos de forma pacífica e por meio de negociações. Não teremos medo e continuaremos fazendo o possível para conseguir nosso objetivo final de forma pacífica”, disse Mahmoud Abbas, líder da ANP (Autoridade Nacional Palestina).

Ao conseguir a elevação de seu status para Estado Observador na ONU (Organização das Nações Unidas) nesta quinta-feira (29), a Palestina conquistou uma vitória psicológica. No entanto, a questão é saber em que medida esse passo aproxima os palestinos da criação de seu próprio Estado.

O fato de o pedido palestino ter sido aprovado por vasta maioria, de 138 votos a 9, mostra que a maioria esmagadora dos países da ONU simpatiza com os palestinos. Além disso, agora, os palestinos podem pedir ao Tribunal Penal Internacional de Haia a investigação dos crimes de guerra de Israel.

Aparentemente, tal situação deve servir de incentivo à retomada das negociações palestino-israelenses.

"Esperamos que Israel acolha isso como sinal sério da comunidade internacional, cansada com a falta de solução para o conflito palestino-israelense", disse o embaixador da Rússia na ONU, Vitáli Churkin, após a votação.

O presidente francês, François Hollande, seguiu a mesma linha:

"As negociações diretas são a única maneira eficaz de acabar definitivamente com o conflito. A França está pronta a contribuir para isso como país amigo de Israel e da Palestina.”

O líder da ANP (Autoridade Nacional Palestina), Mahmoud Abbas, também se manifestou pronto para as negociações:

"Seguimos com a posição de lutar por nossos direitos de forma pacífica e por meio de negociações. Não teremos medo e continuaremos fazendo o possível para conseguir nosso objetivo final de forma pacífica.”

Enquanto isso, o governo de Tel Aviv ainda não anunciou sua posição a esse respeito. Mesmo assim, é pouco provável que ela seja diferente da dos EUA.  

"Infelizmente, a resolução aprovada é contraproducente e ergue novos obstáculos no caminho da paz", disse a embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, após a votação. "Foi por isso que os EUA votaram contra", esclareceu a diplomata.

"Aquilo que foi proclamado hoje solenemente, perderá rapidamente seu brilho. Amanhã os palestinos vão acordar e verão que pouca coisa mudou em suas vidas, mas as perspectivas de alcançar uma paz duradoura ficaram reduzidas", disse Rice.

Um dos problemas está na divisão entre os palestinos da Cisjordânia e os palestinos da Faixa de Gaza.

Ontem, em entrevista à imprensa, Abbas disse: "Nós, palestinos, temos problemas internos. Agora é tempo de superarmos a divisão e unirmos todos os palestinos.”

A Cisjordânia, dominada pela ANP e com Abbas à frente, defende uma solução negociada do conflito, enquanto a Faixa de Gaza, governada pelo Hamas, tem opinião diferente.

De acordo com Aleksandr Chumilin, diretor do Centro de Análise de Conflitos no Oriente Médio do Instituto de Estudos sobre os EUA e o Canadá da Academia de Ciências da Rússia,  "a liderança da Faixa de Gaza, representada pelo Hamas, não contesta a resolução aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, embora nunca a tenha almejado. Seus comentários a respeito da iniciativa de Mahmoud Abbas foram pautados pelas críticas no sentido de este ser mais um passo rumo à capitulação de Abbas, inclusive perante Israel, e ao encerramento do problema palestino."

"A liderança do Hamas considera que a solução do problema palestino passa pela extinção de Israel como Estado", completou.

A questão é saber se Abbas conseguirá unir os palestinos, que assumem posições tão diferentes.

Outro problema gerado pela resolução aprovada na ONU é a desvalorização dos princípios fundamentais das negociações.

O processo de paz é baseado no acordo de Oslo, de 1993. Seu principal resultado foi o reconhecimento recíproco e o estabelecimento da ANP. Continuam pendentes os problemas do status de Jerusalém, das colônias de judeus e dos refugiados. Esses problemas deveriam constituir objeto de novas conversas, mas o processo ficou parado.

Outro aspecto importante: em conformidade com os entendimentos alcançados, esses temas deveriam ser tratados diretamente por Israel e pela ANP sem a intervenção de terceiros. A presente resolução da ONU modifica o status da Palestina sem consulta com Israel e dá motivos para falar sobre o abandono do acordo de Oslo. Não podemos descartar que Israel não aproveite isso para exercer pressão sobre a outra parte nas próximas negociações, que são inevitáveis.

A elevação do status da Palestina foi apoiada por quase todos os países da União Europeia, além de Rússia, China e dos países árabes. Isso mostra que, por mais controversa que seja a resolução aprovada, o conflito palestino-israelense exige uma solução urgente face à desestabilização vivida atualmente pelo Oriente Médio.

Ao que tudo indica, o próximo passo pode ser uma reunião do Quarteto para a paz no Oriente Médio. Segundo o embaixador Churkin, "a Rússia propõe convocar, em um futuro próximo, uma reunião ministerial dos mediadores internacionais da paz no Oriente Médio: Rússia, EUA, ONU e a União Europeia.”

A julgar pelos resultados da votação na ONU, três dos quatro membros do Quarteto estão prontos para iniciar consultas.

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