Geração “baby boom” russa ganha força

Ilustração: Alena Repkina

Ilustração: Alena Repkina

Assiste-se àquilo que aconteceu com os “baby boomers” americanos nos anos 1960: a revalorização estética dos valores das gerações anteriores através de mudanças na cultura e artes redundou na luta pelos direitos civis, direitos dos homossexuais, das mulheres, dos deficientes e dos afro-americanos.

Chega sempre um momento na vida em que você deixa de se sentir a pessoa mais jovem e inexperiente. No meu caso, essa metamorfose ocorreu há dois anos, talvez no momento em que comecei a perceber que meus colegas, chefes, professores e as mães passeando com filhos pequenos no recinto de jogos infantis eram de minha idade.

Quase todos têm cerca de 27 a 30 anos de idade. Muitos deles estão à frente de conselhos de redação e agências de publicidade, publicam livros, criam fundos de caridade, apresentam programas de TV, lecionam em universidades e procuram fazer negócios.

De acordo com dados do censo de 2010, o grupo formado por pessoas com idade de 25 a 29 anos é o segundo mais populoso na Rússia, com cerca de 12 milhões.

Já estou acostumada a ver nas ruas de Moscou cartazes de shows de minha ex-colega de faculdade Vera e imagens de minha outra ex-colega de estudos, Katia, que empresta seu rosto à publicidade. Quando a pasta das Comunicações foi entregue a Nikolai Nikiforov, de 30 anos, entendi que não se tratava de um acidente, mas de uma tendência.

Talvez não haja nada de surpreendente no fato de os 30 anos serem para muitas pessoas um pico de atividade profissional e a maioria de meus contemporâneos ter subido na carreira. Mas não posso deixar de constatar que somos não só numerosos, mas também bastante influentes.

Basta lembrar as manifestações do inverno passado (a maioria dos manifestantes tinha entre 25 e 30 anos), a iniciativa de mobilizar observadores voluntários para as eleições da primavera passada ou a ascensão do LiveJournal (a principal blogosfera russa) e do Facebook.

Origem

De onde vieram todas essas pessoas? O “baby boom” da década de 1980 foi, em parte, uma consequência da explosão populacional do pós-guerra e das mudanças na política demográfica do país. Em outras palavras, todos nós somos frutos da Resolução do Comitê Central do PCUS (Partido Comunista da União Soviética) de 1981 "Das medidas para aumentar a assistência do Estado às famílias com filhos". Para incentivar a natalidade, a então liderança do país decidiu atribuir subsídios por nascimento do primeiro filho e pagar salário-materinidade, assim como manter ininterrupto o tempo de serviço para as mulheres sob licença de maternidade. Outro incentivo à natalidade foi a Lei Seca, de 1985 a 1987.

Nós somos a última geração soviética. Eu me lembro, por exemplo, de como levei uma bronca no jardim de infância por ter me esquecido de perguntar a meus pais quem foi Vladímir Lênin. Mas o ritual de iniciação para jovem leninista, antigamente praticado na escola primária, já foi extinto. Minha geração não tem ilusões sobre a União Soviética. Eu, por exemplo, me lembro muito bem de enormes filas nas lojas e talões de racionamento de macarrão, cigarros e açúcar.

Nós éramos muito pequenos quando a Casa Branca (naquela época, sede do parlamento russo) se opôs ao presidente Iéltsin e foi bombardeada por tanques. Ao contrário de nossos irmãos mais velhos, nascidos nos no final dos anos 1970, a década de 1990 não nos trouxe expectativas nem frustrações.

No início dos anos 2000, fomos prestar vestibular para ingressar em universidades. Sobre isso, minha tia, professora da Universidade Lomonosov de Moscou, disse: "Chegou a hora do vestibular da primeira geração crescida com os desenhos animados de Walt Disney."

Na verdade, fomos as primeiras crianças do país a correr para casa depois das aulas para assistir às aventuras do Mickey Mouse e do Pato Donald.

Dúvidas

Quando os “baby boomers” russos cresceram, eles se dedicaram ao consumo. Quando ficaram satisfeitos, olharam ao, estranharam e começaram a fazer perguntas: para onde vão nossos impostos? Por que há tantas filas nas policlínicas? Para quem são feitos os programas de TV? Estamos fartos de ir à Europa, dá para trazê-la até aqui? E, finalmente, como eu posso contribuir para tornar meu país diferente?

A partir de 2008, minhas contemporâneas começaram a dar à luz. Entre 2007 e 2011, a taxa de natalidade aumentou 20%. O Ministério da Saúde não tardou a declarar que o mérito disso tenha sido exclusivamente dele. Porém, se esqueceu de acrescentar que esse “baby boom” foi uma consequência do “baby boom” passado.

E aí começou o ativismo cívico: protestos de grávidas em frente ao Ministério da Educação pela atualização do salário-maternidade, manifestações de pais cujos filhos não foram matriculados em jardins de infância, coleta de assinaturas pela retirada de alimentos vitaminizados dos jardins de infância e escolas. Se alguém me perguntar se quero dizer com isso que, antes, todas as crianças sem exceção eram matriculadas no jardim de infância ou se minha geração é mais exigente do que as outras, eu vou dizer que sim. Minha geração é mais exigente e, além disso, é capaz de se unir.

Acho que a busca de uma atividade e vida conscientes é uma característica marcante dos “baby boomers” russos. A compreensão de que a vida não é como deveria ser e a mudança de rumo dos jovens tem assustando, por vezes, familiares e amigos. Minha amiga Rita, por exemplo, fez um curso de gestão comercial em Ekaterimburgo e trabalhou em uma agência de publicidade. Um dia, largou tudo e chegou a Moscou para estudar design gráfico. Já Dima é formado em programação e se ocupa da proteção de computadores. Hoje, me ligou de uma pequena cidade budista dizendo que  trabalha como foguista.

Não me admiro mais de nada porque os conceitos de carreira e sucesso na forma como eram entendidos por nossos pais são entendidos por nós de forma diferente. Para nós, sucesso é autoexpressão e carreira é a sensação de que algo depende de você.

Daí as manifestações e campanhas de voluntariado e projetos de caridade. Como o grupo de pessoas da mesma idade unidas por laços sociais é bastante numeroso, esses processos são visíveis.

Assiste-se àquilo que aconteceu com os “baby boomers” americanos nos anos 1960: a revalorização estética dos valores das gerações anteriores através de mudanças na cultura e artes redundou na luta pelos direitos civis, direitos dos homossexuais, das mulheres, dos deficientes e dos afro-americanos.

O que vai acontecer a seguir? Alguns anos mais tarde, aqueles que têm hoje entre 27 e 31 anos de idade se tornarão o grupo etário mais numeroso do país. Se eles se aliarem àqueles que têm hoje entre 22 e 26 anos, poderão constituir uma força poderosa, capaz de fazer mudanças incríveis.

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