Índice de felicidade está aumentando na Rússia, diz sociólogo americano

Ronald Inglehart Foto: TASS

Ronald Inglehart Foto: TASS

“Desde 2002, verifica-se um aumento geral do índice de felicidade subjetiva no país, mas o processo anda lentamente. O detalhe é que, dentre aqueles que se dizem felizes, prevalecem jovens abaixo dos 30 anos”, destaca Inglehart.

O sociólogo e cientista político americano Ronald Inglehart, há mais de 20 anos à frente do projeto World Values ​​Survey (Pesquisa Mundial de Valores), falou, em entrevista à revista Ogoniok, sobre os valores mais apreciados pelos russos.

“Desde 2002, verifica-se um aumento geral do índice de felicidade subjetiva no país, mas o processo anda lentamente. O detalhe é que, dentre aqueles que se dizem felizes, prevalecem jovens abaixo dos 30 anos”, destaca Inglehart.

Ogoniok:O que diferencia os russos do resto do mundo?

Ronald Inglehart: A dinâmica das mudanças dos valores ilustra melhor o perfil dos habitantes de um país do que os resultados das pesquisas de opinião pública realizados em um ano. Para os russos, o principal evento foi o colapso da União Soviética, que teve como consequência um vácuo ideológico na sociedade e um colapso econômico do país. Como resultado, segundo nossas pesquisas, os russos passaram a se sentir infelizes. Em 1999, o índice de satisfação com a vida no país era muito baixo e se aproximava ao registrado em países africanos.

Desde 2002, verifica-se um aumento geral do índice de felicidade subjetiva no país, mas o processo anda lentamente. O detalhe é que, dentre aqueles que se dizem felizes, prevalecem jovens abaixo dos 30 anos.

Ogoniok:É lógico, pois os jovens são mais ativos e brincalhões...

R.I: Nem sempre os jovens são mais felizes do que seus pais. Durante a nossa primeira pesquisa na Rússia, na década de 1980, não verificamos grandes divergências de opinião em amostras constituídas por pessoas de idades diferentes. Nos países ocidentais, o índice de felicidade tem, até hoje, uma distribuição por idade mais ou menos igual.

Nos anos 1970, desenvolvi um conceito de pós-materialismo. A ideia era demonstrar que, nas democracias ocidentais, jovens apreciavam mais os valores de autoexpressão, liberdades civis e proteção ambiental do que os de sobrevivência física e econômica.

Naqueles anos, o papel de liderança pertencia à geração do pós-guerra crescida no período de ascensão econômica. De modo geral, podemos dizer que suas ideias tiveram um impacto prático: as sociedades ocidentais se tornaram mais tolerantes, a desigualdade entre os sexos se tornou menor, outras esferas sociais também evoluíram em direção ao pós-materialismo.

Agora, a diferença de valores entre os europeus de 30 anos e 50 anos de idade é quase nula, o que não pode ser dito sobre a  Rússia.

Ogoniok:A geração pós-soviética poderia mudar o perfil do país?

R.I: Pode ser. Nesse caso, devemos falar não só da Rússia, mas também da Ucrânia, da Bielo-Rússia e até mesmo da China, que, apesar de ter à frente o Partido Comunista, vive pelas leis da economia de mercado e, portanto, vive uma mudança no sistema de valores sociais.

Ogoniok:Qual outra diferença entre a Rússia e os países ocidentais?

R.I: Na Rússia, há um paradoxo curioso: sendo secular, o país apresenta um  crescimento da religiosidade, ao contrário dos países ocidentais. Isso é compreensível: após o colapso da ideologia comunista, surgiu um vácuo ideológico que deve ser preenchido na sociedade.

Estamos assistindo na Rússia ao ressurgimento do cristianismo ortodoxo e do islamismo. Prova disso são os resultados de nossas pesquisas no Tartaristão. Todas as pessoas precisam de um sistema de crenças. No Ocidente, por exemplo, muita gente acredita nos direitos humanos, na igualdade dos sexos e na proteção ambiental.

Ogoniok:Há quem diga que a Rússia segue seu próprio caminho e não está pronta para a democracia. Isso é verdade?

R.I: Só posso dizer que o caminho da Rússia no século 20 foi marcado por grandes tragédias e desgraças. Como resultado, as tradições autoritárias são muito fortes no país e se refletem em um burocratismo o qual nunca vi em nenhum outro país onde vivi.

Além disso, na Rússia, apenas parte da juventude coloca os valores de autoexpressão acima dos valores que enfatizam a sobrevivência. Mas se a economia russa mantiver o atual ritmo de crescimento, em um futuro próximo, os valores que priorizam a autoexpressão se tornarão dominantes. A liberalização é uma tendência global de longo prazo. Em certo sentido, a Rússia já está nesse caminho.

Ogoniok:Isto é, a única opção é seguir em direção aos valores pós-materialistas?

R.I: Pelo menos essa é a única opção promissora. Em sociedades tolerantes, as pessoas são mais felizes do que em sociedades intolerantes: em sociedades que não se destacam pela tolerância, tanto os oprimidos quanto os opressores sofrem com a falta de tolerância, até porque os opressores andam sempre irritados e raivosos.

Para a versão completa da entrevista em russo, acesse: http://kommersant.ru/doc/2051108

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