A força por trás do balé

Aleksêi Ratmanski Foto: TASS

Aleksêi Ratmanski Foto: TASS

Coreógrafo Aleksêi Ratmanski está revitalizando o mundo do balé com um misto de sátira e reverência.

Aleksêi Ratmanski tem uma presença calma e elegante, e sua aparência é simultaneamente aristocrática e informal. O ex-diretor artístico do Balé Bolshoi e bailarino veterano do Teatro de Dança da Holanda amadureceu como artista, tornando-se, indiscutivelmente, um dos maiores coreógrafos do mundo. E, embora o seu trabalho consistentemente reflita suas raízes russas, ele vem prosperando nos Estados Unidos. Desde 2009, Ratmanski está no comando da companhia de dança American Ballet Theatre (ABT), e fez de Nova York sua casa – ou pelo menos uma delas.

 

Raio-X

Aleksêi Ratmanski nasceu em São Petersburgo (então chamada Leningrado), em 1968. Seu pai era um famoso desenvolvedor de componentes para o programa espacial soviético. Entre 1978 e 1986, estudou na Academia de Coreografia de Moscou, onde teve sua primeira experiência no balé. Foi o principal solista de uma série de balés, incluindo o Balé Real de Winnipeg e o Balé Real da Dinamarca. Sua primeira produção completa foi em 1998 no Teatro Mariinsky, em São Petersburgo. De 2004 a 2008 trabalhou como diretor artístico do Bolshoi antes de se tornar o coreógrafo da companhia American Ballet Theatre, em Nova York.

No último dia 9 de novembro, Ratmanski foi consagrado com um título intercultural à altura de seu trabalho. Recebeu o Prêmio Liberdade no consulado russo, em referência aos dons e capacidade de se mover habilmente como um embaixador cultural entre Moscou e Nova York, e todas as principais cidades de balé entre elas.

O prêmio e a quantia em dinheiro não revelada são outorgados todos os anos desde 1999 por três russo-americanos proeminentes – a artista Gricha Bruskin e os escritores Aleksandr Genis e Salomon Volkov. Entre os vencedores das edições passadas estão os escritores Vassíli Aksionov e Vladímir Sorokin, e a empresária e editora Irina Prokhorova.

Esforçando-se para falar em meio ao burburinho da celebração no consulado em Nova York, Ratmanski agradeceu aos organizadores pelo prêmio. “Acima de tudo, sou grato à minha profissão”, disse. “Tenho a sorte de que no balé é possível ser um patriota com toda a inocência”, continuou, ao dizer que se sente fortunado de servir seu país por meio da arte. Ratmanski também falou sobre sua direção em solo norte-americano, que em muitos aspectos tem sido mais encorajadora e menos polêmica do que seu período como diretor artístico do Bolshoi, onde aprendeu as limitações de dirigir artistas e ser um deles ao mesmo tempo.

“Se você propõe uma boa produção, eles vão abraçar a ideia e recebê-lo com entusiasmo”, disse Ratmanski sobre os EUA. “Quando falamos sobre repertório de balé clássico, mais da metade tem origem russa. É motivo de prestígio ser um coreógrafo russo nos EUA, onde existe esse respeito por Petipa, Fokine e outros grandes coreógrafos”.

“O respeito que as pessoas têm por esses nomes são refletidos em mim também”, acrescentou, dirigindo-se ao público majoritariamente russo. “Esse apoio é inestimável.”

Quebra-Nozes revitalizado de Ratmanski


Em 2010, Ratmanski corajosamente assumiu o previsível espetáculo de férias “O Quebra-Nozes” nos Estados Unidos, e o transformou em algo mais profundo. “Feito com autoridade teatral do primeiro ao último segundo, o espetáculo revela as diversas qualidades de Ratmanski: satirista, contador de histórias, dramaturgo e poeta”, escreveu o jornal “The New York Times”.

Ratmanski não só tentou revolucionar uma galinha dos ovos de ouro como “O Quebra-Nozes”, mas conseguiu melhorar o balé. Ironicamente, essa peça é a única razão pela qual muitas companhias de balé sobrevivem financeiramente. O balé, baseado no conto infantil de E. T. A. Hoffmann, não foi bem recebido na Europa e na Rússia quando estreou em 1892 – de um modo geral, os críticos massacraram as primeiras produções. Tchaikovsky não viveu o suficiente para apreciar o seu eventual e indomável apelo popular.

O coreógrafo de 44 anos de idade, nascido em São Petersburgo (então Leningrado), disse em várias entrevistas que nunca foi um grande fã do balé original. Ele sentia que a música já estava desgastada e era difícil senti-la mais uma vez. Ratmanski deu então vida ao trabalho, revelando um amadurecimento da protagonista Clara, um papel originalmente representado pela virtuosa dançarina Veronika Part.

Ratmanski também optou por mudar o clímax, e coreografá-lo entre Clara e o príncipe, que são os personagens principais do balé, em vez de o príncipe e Fada Açucarada. O dueto é mais poderoso e maduro em sua interpretação. Nos ensaios antes da estreia, Ratmanski aparecia tranquilo e confiante no estúdio da ABT.

“No American Ballet Theater, eu não tenho que perder tempo explicando por que quero fazer isso ou aquilo ou convencer as pessoas a me seguir”, disse ele na época. “Eles entendem que esse é o seu trabalho.”

No Bolshoi, Ratmanski relembrou que “há um culto de veneração chamado ‘somos o Bolshoi’. Por um lado, é limitador, mas, por outro, há um certo brilho. Às vezes, a presunção leva a grandes atuações.”

“Não diga a ele, mas o Bolshoi vai mudar, em parte por causa de seus balés, e que assim seja”, previu a crítica de dança da revista “New Yorker”, Joan Acocella, em 2005. E ela estava certa. Em 2011, Acocella se referiu a Ratmanski como “o homem mais procurado no balé”. Os críticos então notaram sua queda por histórias antigas, e uma reverência pela tradição, embora crie o que Acocella chama de “modernismo renovado”.

Quando Ratmanski estava no comando do Bolshoi, a companhia experimentou pela primeira vez a coreografia moderna de Twyla Tharp. Ele também restaurou o esquecido balé da era soviética “A Corrente brilhante” para integrá-lo à música de Chostakovitch, em homenagem ao seu 100º aniversário.

A paixão de Ratmanski pela vanguarda russa é algo que os devotos têm certeza de que verão mais no futuro. Os críticos e os apreciadores dessa arte concordam: Ratmanski teve um profundo impacto sobre a dança na última década. Recentemente, o Balé Mariinsky levou sua “Cinderela” obscura, para o Centro Kennedy. O balé, apresentando uma visão contemporânea e um tom sinistro, é polêmico. No entanto, reflete a ideia de que o balé é uma expressão de arte viva, com um futuro dinâmico.

O musicólogo e autor Solomon Volkov compõe o júri do Prêmio Liberdade desde seu início há 14 anos. Volkov disse que os balés de Ratmanski são “muito ricos em contextualização”, mas o significado exato de seus balés só é claro para os russos que se lembram da história soviética. Essa é, na verdade, “a força de seu trabalho”, segundo Volkov. “Entendo perfeitamente as alusões de Ratmanski, mas os críticos ficam mistificados. Ele é um enigma, uma ligação com um mundo que as pessoas não conhecem.”

Isso se aplica não só ao público norte-americano, aponta Volkov. “As pessoas mais jovens na Rússia são iguais. Elas não sabem exatamente o que foi a União Soviética, e a maneira como veem Ratmanski não é muito diferente do público norte-americano.”

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