Importância das mulheres na administração do orçamento familiar cresce na Rússia, aponta pesquisa

Foto: Getty Images/Fotobank

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Na maioria das famílias de baixa renda, dinheiro é gerido pela mulher; já nas famílias mais abastadas, a execução financeira segue a cargo do marido.

Nos últimos 20 anos, as finanças da família russa sofreram grandes mudanças.

Para muitas delas tornou-se comum que o dinheiro seja gerido pela mulher. Essa é a conclusão de um estudo sobre o orçamento familiar realizado recentemente pela Escola Superior de Economia.

A transição da "democracia" para a "ditadura" de um dos cônjuges tem uma     explicação simples e se deve à diferença nos níveis de renda. Se, nos anos 1990, ambos os cônjuges trabalhavam e ganhavam um salário mais ou menos igual, na primeira década dos anos 2000, a igualdade financeira nas famílias russas acabou. É o que mostra o estudo realizado recentemente pela professora associada do departamento de sociologia econômica da Escola Superior de Economia Dilara Ibragimova,.

A diferença nos níveis de rendimentos dos homens e das mulheres, assim como mulheres donas de casa vivendo por conta de seus maridos ou maridos desempregados vivendo à custa de suas mulheres empreendedoras bem sucedidas, deixaram de ser algo exótico.

Isso deixou sua projeção no modelo de gestão das finanças familiares. Vale notar que, na maioria das famílias de baixa renda, o orçamento doméstico é gerido pela mulher. Já nas famílias mais abastadas, a execução financeira segue a cargo do marido.

"O modelo de gestão financeira depende da estratégia escolhida pelo casal: se a família opta por cortar despesas, a responsabilidade pela execução do orçamento familiar é da mulher, porque ela sabe economizar. Se a prioridade é buscar um emprego de alto padrão remuneratório ou um rendimento extra, o orçamento, na maioria dos casos, é controlado pelo marido", afirma Ibragimova.

Se ambos os cônjuges têm nível universitário, as finanças familiares são geridas geralmente em pé de igualdade. Na verdade, isso ocorre com as famílias em que ambos os cônjuges têm emprego. Se a mulher, ainda que com vários cursos superiores, é dona de casa, as finanças da família estão, em regra, concentradas nas mãos do marido.

Mesmo a cogestão do orçamento doméstico significa, na maioria das vezes, que o marido não somente traz para casa o dinheiro ganho, mas concede a sua mulher os poderes para decidir como gastá-lo.

Histórico

Não foi ontem que essa distribuição das responsabilidades surgiu. Já o famoso poeta russo Aleksandr Puchkin descreveu, em sua obra "A Filha do Capitão", uma típica família russa usando como exemplo o comandante da fortaleza e sua esposa: "Descuidado, ele era comandado por sua esposa. Ela governava a fortaleza com a mesma escrupulosidade com que cuidava de sua casa."

Em uma pesquisa realizada em meados dos anos 1990 por especialistas britânicos,  80% dos entrevistados disseram que participavam da administração do orçamento familiar em condições de igualdade com seus cônjuges. Quinze anos depois, esse percentual diminui para 45,6%, enquanto 25% dos entrevistados deram prioridade ao cônjuge do sexo feminino e 23%, ao do sexo masculino.

Sociólogos britânicos citados por Ibragimova também assinalam que a  administração financeira conjunta nem sempre significa que ambos têm o direito de voto igual na execução orçamentária. Mesmo quando todo o dinheiro da família se junta em um pé-de-meia comum, a última palavra cabe, via de regra, a um dos dois.

Dona de casa

Por outro lado, em algumas famílias russas, só o marido pode ser considerado formalmente o mais importante na solução de questões financeiras. A professora catedrática da Universidade Lomonosov de Moscou, Anna Pavlovskaia, que estuda há muitos anos a vida cotidiana e o caráter dos russos, acredita que até uma mulher bem sucedida, com um alto salário, prefere demonstrar, em casa, que depende do marido.

"Se ela não compartilhar esse jogo, tem todas as chances de ficar novamente solteira. Mais do que isso, ela precisa desse jogo para poder se sentir uma mulher, frágil e necessitada de cuidados, mesmo se, no trabalho, seja a chefe severa e decidida", afirma Pavlovskaia.

Em algumas famílias russas (4%), os cônjuges têm orçamentos separados. De acordo com pesquisas, no entanto, esse modelo de gastos não será dominante em um futuro próximo no país.

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