Rússia volta novamente os olhos ao Pacífico Asiático

Dmítri Medvedev durante seu visita a Laos. Foto: Reuters

Dmítri Medvedev durante seu visita a Laos. Foto: Reuters

Entre os próximos planos está o de reorientar os contatos internacionais para a região e "corrigir a guinada" à União Européia, cuja participação no comércio exterior do país atinge 50%.

Ao anunciar sua intenção de retornar à Ásia na cúpula do Fórum da Apec (Cooperação Econômica Ásia Pacífico) em setembro passado, o governo de Moscou parece não ter tido a menor intenção de perder tempo. Prova disso é a viagem do premiê Dmítri Medvedev ao Laos para participar da cúpula Europa-Ásia e sua recente vista ao Vietnã.

Em seu manifesto eleitoral, o presidente Vladímir Pútin afirmou que a Rússia proporia à Europa a criação de um ambiente econômico e de pessoas único desde o Atlântico até o Pacífico.

"Teremos, assim, um mercado continental comum no valor de trilhões de euros. Há quem duvide que isso seja ótimo e sirva aos interesses de russos e europeus?", salientou Pútin em seu artigo de campanha dedicado à política externa do país.

Entre os próximos planos da Rússia está o de reorientar seus contatos internacionais para o Pacífico Asiático e "corrigir a guinada" à União Européia, cuja participação no comércio exterior do país atinge 50%.

Às vésperas da cúpula da Apec, em Vladivostok, o vice-primeiro-ministro, Ígor Chuvalov, disse: "Uma vez que fixamos o objetivo de diversificar nossa economia, diminuir a dependência das vendas de matéria-prima e torná-la mais forte, devemos corrigir essa situação e fazer com que as vendas aos países do Pacífico Asiático represente pelo menos 50% de nosso comércio exterior".

Durante a cúpula, a Rússia apresentou possibilidades concretas de integração ao espaço econômico da região, entre as quais a utilização do potencial da união aduaneira Rússia-Bielo-Rússia-Cazaquistão, o transporte de cargas através do território russo e pela Rota do Mar do Norte e a cooperação no setor de energia. A Rússia se prontificou ainda a cooperar em energia nuclear, atividades espaciais, comunicações e outras vertentes tecnológicas.

Vietnã

Esses temas também integraram a agenda das conversas de Medvedev com autoridades vietnamitas em 7 e 8 de novembro últimos. 

O Vietnã, aliado e parceiro importante da Rússia no Sudeste Asiático desde a Guerra na Indochina, não esteve entre as prioridades do comércio exterior russo nos últimos anos. O intercâmbio comercial entre os dois países totaliza US$ 3 bilhões por ano, um valor dez vezes inferior às trocas comerciais entre os EUA e a China.

Para corrigir essas distorções, Rússia e Vietnã concordaram em iniciar negociações sobre uma zona de livre comércio entre o Vietnã e a União Aduaneira (Rússia-Bielo-Rússia-Cazaquistão) na expectativa de dobrar o intercâmbio comercial até 2015. Além disso, a zona de livre comércio serviria de porta para a integração da Rússia ao espaço econômico do Sudeste Asiático.

"Para nós, isso tem significado positivo porque o Vietnã tem muitas zonas de livre comércio com outros países", disse Medvedev.

As partes reiteraram o acordo para a construção da usina nuclear Ninh Thuan-1 até 2021, projeto orçado em US $ 10 bilhões. Foi também assinado um acordo intergovernamental sobre a cooperação na exploração e no uso do espaço exterior para fins pacíficos.

Rússia e Vietnã cooperam na exploração de petróleo em águas profundas do Mar da China Meridional desde os tempos soviéticos. Cerca de 1.000 trabalhadores da joint venture de petróleo russo-vietnamita, a Vietsovpetro, são de origem russa.

"Estamos discutindo os planos de cooperação em petróleo não só no Mar da China Meridional como também na Rússia", disse Medvedev, acrescentando que, em outubro passado, o governo russo decidiu admitir empresas vietnamitas em uma das grandes jazidas da região de Iamal-Nenets.

Questões militares

O retorno da Rússia à Ásia não tem somente uma dimensão econômica. Os EUA anunciaram recentemente seu retorno ao Pacífico Asiático no plano militar e continuam aumentando sua presença no Japão, na Austrália e nas Filipinas.

A China também se posiciona como potência oceânica. Portanto, a notícia de que Rússia e Vietnã discutem a possibilidade de reconstrução da base militar russa na baía de Cam Ranh não foi uma surpresa.

"Esse assunto está na ordem do dia. A parte vietnamita está pensando em como formalizar essa cooperação. As conversas seguirão e terão, na minha opinião, um resultado positivo", disse Medvedev em um encontro com jornalistas em Hanói.

Essa baía de águas profundas localizada próximo às principais rotas de navegação do Sudeste Asiático e focos regionais de disputas territoriais tem extrema importância. Cabe notar que, no último verão do hemisfério norte, o local foi visitado pelo secretário de Defesa dos EUA, Leon Panetta. Quase mesmo tempo, um navio de guerra norte-americano atracou em Cam Ranh para manutenção e abastecimento, em conformidade com um acordo americano-vietnamita.

"Essa é uma visita histórica. O fato de o navio americano estar sendo atendido por empreiteiros vietnamitas mostra quão longe avançamos. O acesso de navios dos EUA a essas instalações é um componente-chave da estratégia americana", disse Panetta.

Taticamente, a competição pelo porto de Cam Ranh é obviamente favorável ao Vietnã, mas o retorno da Rússia à região permite a outros países do Pacífico Asiático equilibrar suas relações com vizinhos tão poderosos como a China e também com os EUA.

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