Rússia irá reforçar seu escudo nuclear

O complexo ferroviário de mísseis. Foto: Lori / Legion Media

O complexo ferroviário de mísseis. Foto: Lori / Legion Media

Em 2015, a Rússia planeja aumentar seus gastos militares dos atuais 3% para 3,7% do PIB, ou seja, para mais de 3 trilhões de rublos (cerca de US$ 96 bilhões), dos quais uma parcela significativa será destinada à Força de Mísseis Estratégicos (FME).

Em primeiro lugar, serão aumentadas as verbas para armas nucleares. Segundo o presidente da comissão de defesa da Duma de Estado (a câmara baixa do Parlamento russo), Vladímir Komoedov, entre  2013 e 2015 as verbas destinadas ao reforço do arsenal nuclear do país somarão 101,15 bilhões de rublos (cerca de US$ 3,2 bilhões). Para efeito de comparação, as verbas reservadas às armas nucleares em 2012 equivaleram a 27,4 bilhões de rublos (cerca de US$ 870 milhões).

O presidente do Conselho Público junto ao ministério da Defesa e editor-chefe da revista Nacionalnaia Oborona (Defesa Nacional), Ígor Korótchenko, considera completamente lógico o aumento programado dos gastos militares.  "Esse é um reflexo da situação política atual e futura no mundo à qual a Rússia deve reagir, aumentando inclusive seus gastos militares, para defender seus interesses nacionais", disse Korótchenko.

O complexo ferroviário de mísseis representava um trem de duas a três locomotivas e vagões especiais parecidos com vagões refrigeradores e para passageiros, que abrigavam lançadores com mísseis balísticos intercontinentais.

Graças a sua mobilidade, o complexo ferroviário era difícil de ser localizado. Em conformidade com o Tratado de 1993, fechado com os EUA, a Rússia retirou de serviço, em 2003, o último complexo de mísseis ferroviário. 

Segundo o ex-diretor do departamento de acordos internacionais do ministério da Defesa da Rússia, general Evguêni Bujínski, o aumento programado dos gastos militares deve preencher a lacuna no financiamento das Forças Armadas na década de 90. "Esse hiato deve ser fechado para que a Rússia não fique atrás de países mais desenvolvidos", esclareceu o general.

Ígor Korótchenko atribui o plano de aumentar os gastos militares ao início da produção em série de novos tipos de mísseis balísticos intercontinentais de combustível sólido como o Bulavá e o RS-24-Iars. "Esses mísseis são necessários porque, nos próximos anos, devemos dar baixa e sucatear boa parte dos mísseis estratégicos com vida útil vencida", disse Korótchenko.

No início de setembro, o comandante da FME, general Serguêi Karakáev, disse que, até 2018, a Rússia iria construir um novo míssil balístico intercontinental pesado capaz de transportar uma carga útil de 5 toneladas, ou seja, quatro vezes mais pesada do que a carga transportada pelos mísseis Iars e Tópol, de combustível sólido.

No início de outubro, o ministério da Defesa aprovou projeto preliminar de um novo míssil balístico intercontinental de combustível líquido.

Segundo o vice-diretor da Corporação de Equipamento Militar NPO-Machinostroenie, Andrêi Goriáev, serão necessários cerca de 10 anos para construir o novo míssil. "Como o país não mexeu com tais projetos durante mais de 30 anos, podem surgir dificuldades em diferentes etapas as quais  são impossíveis de prever agora", disse Goriáev.

Continuam os trabalhos para o reforço do componente submarino do escudo nuclear da Rússia.

O submarino nuclear Iúri Dolgorúki, do projeto 955 da classe Borei, será posto em serviço em 2013, enquanto o primeiro porta-mísseis submarino da mesma classe de produção em série, o Aleksandr Névski, será entregue à Esquadra do Pacífico da Marinha só em 2014, disse na segunda-feira (22), o ministro da Defesa, Anatóli Serdiukóv.

Segundo o porta-voz do ministério, coronel Vadim Koval, a Rússia examina a hipótese de construção de sistemas de mísseis ferroviários. No entanto, a decisão final ainda não foi tomada, disse o responsável, citado pela agência Interfax.

É claro que os mísseis nucleares não são projetados para conflitos locais, mas, sim, para manter o equilíbrio estratégico no confronto geopolítico com os Estados Unidos. O desenvolvimento do programa americano de defesa antimíssil global e a implantação do conceito de Ataque Global Imediato estimula as Forças Armadas russas a buscar uma resposta assimétrica.

Essa tese foi claramente exposta pelo presidente Vladímir Pútin em seu artigo de campanha "Ser fortes: garantia da defesa nacional da Rússia", publicado no Rossiskaia Gazeta em fevereiro de 2012.

Ao se referir à ameaça por parte do sistema de defesa antimíssil dos EUA, Vladímir Pútin prometeu que a "resposta tecnológico-militar da Rússia ao sistema de defesa antimíssil global dos EUA e seu segmento na Europa será eficaz e assimétrica e estará de pleno acordo com os passos dos EUA na área de defesa antimíssil".  Mais adiante, Pútin salienta que, "em nenhuma circunstância", a Rússia deve abandonar seu arsenal de dissuasão estratégica. Essas palavras demonstram o novo papel do arsenal nuclear russo: manter a paridade estratégico-nuclear e excluir a possibilidade de emprego de armas nucleares mediante a criação de condições em que nenhuma das partes tenha a vantagem na defesa contra um ataque nuclear.

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