“Rússia não fabricará chips para celulares num futuro próximo”, diz diretor de empresa líder do setor no país

Guennádi Krásnikov Foto: Divulgação

Guennádi Krásnikov Foto: Divulgação

Em entrevista à revista Itogi, o presidente do conselho de diretores da Mikron, empresa russa líder na produção de semicondutores, e integrante da Academia de Ciências da Rússia, Guennádi Krasnikov, esclarece porque os equipamentos microeletrônicos soviéticos foram sempre alvo de críticas e porque a Rússia não fabrica telefones celulares.

Nos tempos da União Soviética, circulava uma piada: os cientistas soviéticos teriam criado um chip com três pernas e dois braços para que fosse mais fácil levantá-lo e transportá-lo. No entanto, por mais deselegantes e malfeitos que os chips parecessem, eles funcionavam muito bem em satélites e outros equipamentos militares, assegurando à URSS a supremacia em tecnologias militares em relação a outros países.

Em entrevista à revista Itogi, o presidente do conselho de diretores da Mikron, empresa russa líder na produção de semicondutores, e integrante da Academia de Ciências da Rússia, Guennádi Krasnikov, esclarece porque equipamentos microeletrônicos soviéticos sempre foram alvo de críticas e porque a Rússia não fabrica telefones celulares.

Revista Itogi:O senhor acha que a microeletrônica soviética era mesma tão pobre e digna de ser objeto de piadas?

Guennádi Krasnikov: Claro que não. Na União Soviética, a microeletrônica era nosso orgulho e símbolo da nossa liderança no mundo. Naquela época, estávamos no grupo dos três líderes mundiais em microeletrônica, que incluía os EUA e o Japão, e mantínhamos a frente incondicional em todos os indicadores, desde volume de produção e nível tecnológico até a política do governo para o setor.

R.I.:Os soviéticos não estavam cientes disso? 

G.K: Cerca de 99% dos produtos da microeletrônica soviética eram destinados à indústria bélica, enquanto 0,5% era voltado para a fabricação de eletrodomésticos. Portanto, as pessoas comuns só podiam julgar o desenvolvimento da indústria eletrônica nacional pela presença de equipamentos eletrônicos no mercado de bens de consumo. Como essa não era uma prioridade das empresas, os eletrodomésticos de qualidade escasseavam no mercado interno. Cada empresa de microeletrônica tinha a obrigação de ter em sua gama de produtos um determinado percentual de artigos como relógios, calculadoras, brinquedos etc.

Mas como os esses produtos não estavam entre as prioridades, seu desgin e qualidade deixavam a desejar. Essa atitude dificilmente pode ser considerada correta, mas tem uma explicação.

R.I.:Muitas empresas de microeletrônica soviéticas sobreviveram?

G.K.: De jeito nenhum! A URSS tinha uma indústria microeletrônica  desenvolvida, que empregava mais de um milhão de trabalhadores e englobava uma infraestrutura colossal. Apenas algumas delas sobreviveram. E o processo de extinção não terminou: muitas das sobreviventes se mantém vivas, mas não se modernizaram.

Em nossa empresa, por exemplo, a modernização começou só entre 2005 e 2006. Conseguimos diminuir nosso atraso, criamos uma nova base científica e tecnológica e instalamos uma linha de produção e montagem de chips. Como resultado, conseguimos a mesma taxa de crescimento da época soviética.

As tecnologias microeletrônicas são muito complexas e caras. Por isso, na fase de recuperação, tivemos que adquirir tecnologias de empresas líderes mundiais do setor. Agora, estamos criando nossas próprias tecnologias, que são competitivas.

R.I.:Quando a empresa vai compensar o consumidor nacional por ter sido obrigado a comprar, na época soviética, produtos eletrônicos ruins?

G.K: Nossa empresa não fabrica produtos finalizados. Nossa especialidade são chips. O setor espacial nacional utiliza muitos equipamentos eletrônicos importados. Nossa intenção é substituí-los por equipamento de produção nacional. Estamos colaborando com a Roskosmos (Agência Espacial Russa) em muitos programas. Mas esse caminho é muito longo e levará anos.

Nossa atual especialidade são elementos das memórias Eprom e flash, capazes de armazenar dados sem alimentação elétrica: cartões sem contato, produtos de identificação por radiofrequência, cartões SIM, chips com alto grau de proteção para passaportes e cartões bancários etc.

R.I.:Quando a Rússia será capaz de fabricar telefones celulares?

G.K: Isso requer outras tecnologias, as chamadas estruturas Cmos para circuitos integrados com baixo consumo de energia. Nesse segmento, só estamos diminuindo nossa desvantagem em relação ao Ocidente.

Por isso, não vale a pena esperar que a Rússia comece a fabricar chips para celulares num futuro próximo. Eles não serão competitivos. Mas, como contrapartida, estamos bem posicionados em termos de chips de silício-germânio, capazes de fornecer frequências ultra-altas de operação (de 10 GHz a 20 GHz).

Eles são usados ​​em diversos sensores: em automóveis modernos, por exemplo, estão presentes em sensores de distância e de consumo de combustível.

Hoje, não há nenhuma empresa capaz de operar todas as tecnologias ao mesmo tempo. A época de companhias que produziam "tudo para tudo" ficou no passado. Agora, estamos na fase de especialização de empresas. Cada produto está ligado a um grande mercado global. Atualmente, nossa empresa trabalha para o mercado externo, exportando chips de identificação sem contato, interfaces e conversores. Temos escritórios em Taiwan, Hong Kong e Shenzhen.

R.I.:E o mercado interno?

G.K: A estrutura da indústria microeletrônica no país ainda está em vias de formação. A fase de recuperação do setor começou há cerca de cinco anos. Assim que surgiram tendências positivas, o setor se deparou com os problemas decorrentes da crise de 2008. Cabe notar que a situação de nossa empresa não é a típica do setor. Ao contrário da indústria microeletrônica nacional, nossa empresa conseguiu dar um salto qualitativo e saiu na frente das concorrentes.

As demais estão atrás e se encontram em diferentes fases de desenvolvimento. Algumas continuam fabricando chips dos anos 1980 para a indústria bélica porque alguns equipamentos militares produzidos naquela época continuam em serviço em diversos países.

À medida que esse equipamento for sendo retirado de serviço, essas empresas vão abandonar o mercado. Portanto, acho que a paisagem na  microeletrônica russa ainda vai mudar, especialmente em tempos em que as crises financeiras globais se sucedem.

O país deve elaborar uma estratégia de desenvolvimento da indústria microeletrônica face à atual conjuntura macroeconômica. Para tanto, é preciso desenvolver o mercado interno, fundir empresas para não dispersar as encomendas do governo e aplicar o regime de preferências econômicas para o setor.

Para a versão na íntegra da entrevista em russo, acesse http://www.itogi.ru/obsch-exclus/2012/45/183809.html

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