“Brasil e Rússia precisam de mais comunicação pessoal”, diz vice-presidente do maior banco de investimentos da Rússia

Serguêi Vassíliev  Foto: 2012.therussiaforum.com

Serguêi Vassíliev Foto: 2012.therussiaforum.com

“Espero [com a visita] que haja uma evolução na área financeira. Durante os últimos encontros foi discutido o desenvolvimento de transações em moedas nacionais. Eu não descarto que seremos capazes de alcançar um grande avanço nesta área”, disse Vassíliev .

Em meados de dezembro, a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, fará sua primeira visita oficial à Rússia. Nosso correspondente Alexander Krasnov falou com Serguêi Vassíliev, vice-presidente do maior banco de investimentos da Rússia, o Vneshekonombank, e também copresidente do Conselho Empresarial Rússia-Brasil, sobre as perspectivas das relações econômicas entre os dois países.

Voz da Rússia:Como o sr. descreveria, em termos gerais, o nível das relações entre os dois países? O que devemos esperar da próxima viagem da presidente Dilma à Rússia? 

Serguêi Vassíliev: Os dois países têm relações políticas calorosas. Devo dizer que a criação do Brics contribuiu muito para o desenvolvimento de contatos no âmbito político. Quanto às relações econômicas, a princípio são bastante próximas, mas sempre se espera algo a mais. O comércio tem sido bem-sucedido. Já a cooperação, na minha opinião, tem se desenvolvido de forma pouco intensa.

V. R.: Sabemos que o Vnesheconombank vem há bastante tempo cooperando, ou pelo menos negociando, com o BNDES, o banco de desenvolvimento brasileiro. Como o sr. mesmo nos revelou em entrevistas prévias, o banco russo chegou até a adotar o modelo brasileiro. Como você avalia essa cooperação? 

S. V.: Mais uma vez, a nossa relação é muito próxima, trabalhamos juntos em uma série de organizações internacionais e em questões de desenvolvimento. Mas, por enquanto, não possuímos projetos de investimento em conjunto, nem na Rússia, nem no Brasil.

V. R.: Por quê?

S. V.: Porque projetos que atendam tanto aos bancos russos quanto aos brasileiros simplesmente não existem.

V. R.: Na sua opinião, o que é preciso para que tais projetos surjam?

S. V.: É preciso empresários com iniciativa. Porque se falarmos, por exemplo, de projetos de recursos naturais de empresas russas no Brasil, todos eles dispensam o financiamento de bancos de desenvolvimento.

V. R.: Quanto a isso, sabemos que em 2011 e 2012 o mercado brasileiro começou a receber uma série de grandes empresas russas. Tivemos a inauguração de um escritório da Gazprom no Rio de Janeiro, a TNK-BP fez os seus primeiros investimentos por aqui. Você acha que se trata de alguma tendência, podemos esperar uma futura continuidade desse processo?

S. V.: Sim, já são três projetos bastante grandes. Tudo isso é sério e engloba grandes interesses. Mas, novamente, é um interesse relativo à área de recursos naturais. Nós, os bancos de investimento, estamos mais interessados em indústria de transformação, área do desenvolvimento tecnológico e inovações. Por enquanto, tudo está caminhando de forma lenta. Existem algumas ideias e projetos. Ou seja, recebemos iniciativas. Mas nenhum desses projetos chegou a ser colocado em prática.

V. R.: O sr. poderia citar o motivo disso?

S. V.: Posso citar, por exemplo, um projeto da ideia antiga da construção de uma fábrica de produção de fertilizantes químicos no estado do Mato Grosso do Sul, se não me engano. Já faz muito tempo, essa negociação vem se estendendo por três anos e, por hora, não vejo nenhum progresso.

V. R.: E o que falta para a sua realização efetiva?

S. V.: Acredito que faltem investimentos, não há dinheiro suficiente. Mas talvez também haja problemas políticos, já que tudo isso está ligado às cotas de importação do gás boliviano, que chega ao Brasil justamente por aquela região.

V. R.: Sabemos que durante o último ano, entre os Brics em geral, tem havido um aumento de volume de negócios, enquanto Rússia e Brasil têm demonstrado uma dinâmica inversa. Qual a razão disso?

S. V.: Isso está relacionado a uma certa unilateralidade do volume de negócios em geral. E sabemos a origem disso. A Rússia, por exemplo, possui programas próprios de desenvolvimento da pecuária, o que tem consequências negativas para o volume das compras da carne no exterior. Já o Brasil, por sua vez, tenta desenvolver a sua própria produção de fertilizantes químicos, substituindo as importações. Mas hoje, em contrapartida, sei que está sendo negociado o fornecimento de grãos russos para o Brasil.

V. R.: Sim, gostaria justamente de perguntar em que pé se encontra essa negociação?

S. V.: Acho que no ano que vem já teremos os primeiros resultados desse projeto.

V. R.: Ou seja, podemos considerar que as áreas da pecuária e de fertilizantes já esgotaram o seu potencial de crescimento?

S. V.: Acredito que sim, que isso já seja um modelo esgotado. Justamente porque tanto o Brasil quanto a Rússia têm adotado políticas de substituição de importações.

V. R.: E quanto à visita da Dilma Rousseff, o sr. acha que podemos esperar algo mais?

S. V.: Para dizer a verdade, eu espero que haja uma evolução na área financeira. Durante os últimos encontros foi discutido o desenvolvimento de transações em moedas nacionais. Eu não descarto que seremos capazes de alcançar um grande avanço nesta área. Um avanço puramente técnico, não de declarações políticas sobre a vontade de instituir pagamentos em moedas nacionais, mas algumas decisões concretas sobre como isso será feito na prática.

V. R.: Caso esse projeto vá para frente, levará a um forte aumento de negócios bilaterais, certo?

S. V.: Curiosamente, as transações em moedas nacionais são mais um caminho para estimular os investimentos. Ou seja, se as empresas russas, por exemplo, acumularem o real brasileiro, elas ganharão um estímulo para investir esse dinheiro no Brasil. A lógica é essa. A passagem das transações para moedas nacionais é, na verdade, um sinal de maturidade das relações bilaterais. Não serão apenas as transações, mas o acúmulo de capital nessas moedas.

V. R.: Para concluir, o sr. poderia dizer o que mais falta para fomentar as relações entre Brasil e Rússia?

S. V.: Acredito que haja uma falta de comunicação pessoal. Porque as relações interpessoais também estimulam, em certo grau, as relações de negócios. Nós, como conselho de negócios, apresentamos a iniciativa de realizar a semana da cultura russa no Brasil e da cultura brasileira na Rússia, com o simples intuito de aproximar as culturas dos dois países. Acredito que, apesar de não ser um método direto, será bastante eficiente para estimular a cooperação econômica.

V. R.: Quão próximo de sua realização se encontra esse projeto atualmente?

S. V.: Nós já encontramos o apoio por parte do ministério russo das Relações Exteriores e do gabinete da representação presidencial de relações culturais no exterior. Acredito que esse tema também poderá ser discutido durante o encontro entre Dilma e Pútin.

Publicado originalmente no site da rádio Voz da Rússia

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